Imaginação infantil

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Imagina??o infantil
Ivan Bilheiro 20/11/2014

Imaginação infantil

Lembro que um dia, quando eu estava – se não estou enganado – na primeira série do Ensino Fundamental, meu pai foi me buscar na escola e precisou passar não-sei-onde para fazer não-sei-o-quê. Tanto faz. A questão é que eu fiquei no carro, sozinho, enquanto meu pai resolvia o que tinha para resolver. Acontece que a rua onde o carro ficou estacionado tinha certa concentração de prestadoras de serviços automotivos: lojas de autopeças, oficinas, borracharias e... duas "especialidades" do setor que me deixaram bastante intrigado e despertaram a imaginação daquele menino que fui (sou?).

A primeira delas, algo que achei fantástico, era uma loja com um letreiro enorme, com algo escrito mais ou menos assim: "Fulano de tal: o rei do silencioso". Meu Deus! Seria isso possível? Pense bem: eu havia acabado de sair da escola, que pode ser vista como o verdadeiro império do barulho. De repente, por uma sorte incrível, eu encontrei... o reino inimigo! De um lado, o caos barulhento; de outro, a paz silenciosa. "Mas será possível uma loja do silencioso?" – pensei, ainda com a infantil e, por isso, aceitável dificuldade de diferenciar aquele adjetivo do substantivo "silêncio". "Como será que é lá dentro?". Naquele momento de imaginação, tive a esperança de um ambiente menos caótico. O silêncio. "Que tipo de experiência poderia ter naquela loja do silencioso?".

Foi então que, distraído com estes meus pensamentos, me deparei com outro letreiro instigante, e comecei achar tudo um tanto surreal (embora instigante e surreal não fossem palavras que eu conhecesse à época para descrever minha experiência). Quase ao lado do tal "silencioso", havia uma placa: "Martelinho de ouro do Beltrano". Mais um choque: seja lá quem for esse Beltrano, ele tem é muita coragem de anunciar assim, tão claramente, que tem um martelo de ouro e que o usa na loja, à vista de todos. Ainda me lembrava do dia em que ganhei um pingente de ouro do meu padrinho, do tamanho de uma unha, com a imagem de um anjo da guarda, e o aviso sério de minha mãe: "Vou guardar para você. A gente não pode usar ouro na rua. Corre risco de ser assaltado!". Agora, imagine só: o Beltrano não só tinha um martelo de ouro, como estava avisando a todo mundo! Quanta ousadia! "Ou será que não há tanto risco de assalto assim?! Vai ver o mundo não é tão perigoso quanto pensa minha mãe...".

E foi assim, recostado no banco de trás do carro do meu pai (um Chevette, talvez?!) que minha imaginação de criança conseguiu transformar uma peça de escapamento de automóvel e uma ferramenta de funilaria artesanal em esperanças de um mundo menos conturbado, com chance para o silêncio e sem os riscos da criminalidade. Mas aí meu pai terminou de fazer não-sei-o-quê, voltou e nós partimos. É... o mundo adulto nos levando, sempre, para longe das fantasias de criança. Mandando nossas esperanças para... não-sei-onde.