Quando beijar a camisa não era apenas moda

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Quando beijar a camisa n?o era apenas moda

Ailton Alves 27/11/2007

Ainda nos dias de hoje, ando impressionado com a hist?ria de Valdir, o Bigode, quando de sua primeira passagem pelo Atl?tico Mineiro, em 1997. Contou-me um bom amigo atleticano, l? das bandas de Beag?, que Valdir, no dia de sua apresenta??o ao Galo das Alterosas, chegou ? sede do clube num fusquinha, bem cedo, e encontrou a porta fechada. Embora j? um jogador bastante conhecido, n?o deu uma de estrela. Pelo contr?rio, fez o que todo trabalhador desempregado, procurando emprego, faz: esperou, na padaria ao lado, tomando caf? com leite e comendo p?o com manteiga. Foi preciso que o dono do estabelecimento ligasse para a imprensa para avisar que, antes das oito horas da manh?, Valdir, o Bigode, tricampe?o carioca pelo glorioso Vasco da Gama estava esperando algum funcion?rio chegar para se apresentar ao n?o menos glorioso Clube Atl?tico Mineiro.

Pouca gente conhece essa hist?ria, mas n?o precisa. Ela ?, no subconsciente, a explica??o para o sucesso que Valdir, o Bigode, fez junto ? grande torcida do Atl?tico em suas quatro passagens pelo clube. A mesma determina??o e humildade que demostrou naquele primeiro dia ele teve dentro das quatro linhas, vestindo a camisa do Galo. Vi, ao vivo, um desses jogos, contra o Sport Recife. Partida dura e empatada at? os 37 minutos do segundo tempo, quando Valdir foi puxado pela camisa dentro da ?rea. P?nalti. Ele mesmo cobrou, e marcou. Na comemora??o, deu uma volta ol?mpica completa pela pista do Mineir?o. O time inteiro atr?s, os torcedores em del?rio. Poucas vezes vi tanto amor e tanta identifica??o torcida-jogador.

Hoje, isso n?o existe mais. Duvido que algum zagueiro contratado pelo Flamengo ou atacante rec?m- chegado ao Botafogo - desses que a imprensa, numa rapidez espantosa, transforma em "craque" - chegue ao clube num fusca e aguarde a abertura dos port?es para o come?o dos trabalhos. Pensar que, nos dias atuais, ? poss?vel que exista outro Valdir, o Bigode, ? passar um atestado de extrema ingenuidade - e isso n?o posso fazer.

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Est? certo o Papa Bento XVI: n?o existe o limbo. Faltando treze partidas para o final da S?rie A do campeonato brasileiro, apenas S?o Paulo (campe?o antecipado), Fla-Flu e Santos (garantidos na Libertadores), e Am?rica-RN e Juventude (remoendo seus erros) nada mais aspiram. Os outros 14 clubes est?o entre o c?u poss?vel - a vaga na Libertadores ou na Sul-Americana - e o inferno indesej?vel - a S?rie B. V?o viver este final de novembro esperando dezembro, pisando em ovos, em tens?o permanente, numa corda t?o bamba de emo?es que nem mesmo o equilibrista do Cirque du Soleil daria conta.

Nesta quarta-feira tem Corinthians (do goleiro Felipe, que est? salvando o Tim?o e o campeonato da mesmice) e Vasco (que h? anos s? sabe fazer isso: flertar com o perigo); Atl?tico mineiro e Goi?s/Paulo Baier (feitos um para o outro) e Figueirense e N?utico (do artilheiro Acosta e nada mais).

Domingo tem a rodada final. Saberemos qual espirro virou pneumonia e qual ?ltimo suspiro foi respondido com "sa?de!", "menos mal" ou "vai passar, tudo passa".

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Mesmo com o ressurgimento do Tupynamb?s, depois de d?cadas de ostracismo, ainda est? longe, muito longe, de vermos reacesa a chama da rivalidade entre baetas e carij?s. Primeiro, porque o Tupi ? primeira divis?o do campeonato mineiro, terceira divis?o do futebol nacional e qui?? Copa do Brasil. E os rubros s?o apenas, por ora, favoritos na terceira divis?o das Gerais.

Mas, o principal motivo para a falta da rixa ? ainda mais expl?cito: os clubes est?o, na pr?tica, nas quatro linhas - onde as coisas realmente interessam -, "fundidos". Dos onze titulares do Baeta, do time que come?ou o campeonato, nada menos que oito j? vestiram a camisa do Tupi - e recentemente, outros dois (Marlon e J?nior Neg?o) seguiram o mesmo caminho e viraram casaca. E n?o se surpreendam se a maioria voltar a Santa Terezinha para o Mineiro/2008 e, posteriormente, tomar o caminho do Po?o Rico para defender o Tupynamb?s no M?dulo Dois do ano que vem.

Dessa intensa movimenta??o, das duas uma: ou - o que torcemos - todos entrar?o para a hist?ria como jogadores juizforanos, aqueles que elevaram o nome de dois clubes da cidade, ou - o que ningu?m quer - ser?o duplamente amaldi?oados, por trai??o ? camisa de um e outro time e por fracassos em s?rie.


Ailton Alves ? jornalista e cronista esportivo
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