Escola, pensar ou memorizar?

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Escola, pensar ou memorizar?
Raquel Marcato 22/07/2015

Escola, pensar ou memorizar?

Eles vão crescendo e as indagações sociais começam a pipocar...

Que cor é essa? Já tá na hora de saber...

Essa letra é a M, essa outra é a P...

Ainda não escreve o seu nome?

Já é hora de ler...

Hello! É olá em inglês...

A carga de conteúdo que uma criança que ainda é criança precisa "dar conta" torna-se inesgotável. Quando começar a ensinar? Cada linha pedagógica com os seus parâmetros e a vida social com o seu outro. A comparação é inevitável, igualam-se as idades e o domínio do conteúdo "tem" que ser o mesmo. O indivíduo com a sua complexa unidade não tem muita importância, pois a ignorância é visível quando resume a criança, quase sempre, ao seu universo cognitivo.

Este cognitivo está valendo ouro no comércio educativo. E o acesso não é simples! Os menores também precisam passar pelo "Vestibular", bom, "vestibulinho"! Oi? Isso mesmo, crianças entre 3,4,5 anos para iniciarem seus "estudos" precisam ser "aprovadas". Isso é apavorante, indecente.

O que estão querendo avaliar em crianças tão pequenas? Em crianças ainda tão crianças? Vem-me à cabeça a priorização entre príncipes e princesas, ou seja, "normais", "capacitados", dignos de uma vaga em tal instituição. Por favor! Não estão olhando para pessoas. Estão olhando para bonecos estandardizados como em uma linha de produção em série. Aquele que se diferencia por não "cumprir" com tal expectativa leva os três "R" na mochila: – Reprovado, – Rejeitado, – Rua. Quanta frustração causada em uma criança que ainda só precisa ser criança, volto a repetir. Além disso, sem entrar na rígida insegurança que causa nos pais pelo não aceite do seu filho. Sem dúvida, saem de lá, no mínimo, com um sentimento de menos valia ardendo no peito e com um olhar de dúvida quanto "à capacidade" de seu filho.

Isso é indigno.

Isso é desumano.

Quanto está valendo o cognitivo? Vale filas, exames, comparações, e por fim, segregações. Vale criar em torno da criança um mundo com "pouca gente" e com "muita estatística". Vale criar uma luta atroz em busca de uma vaga dentro dos "melhores". E quem define os melhores? O MEC!! E quem é o MEC? Uma outra organização com ideologias próprias definindo o quanto "vale" o seu filho segundo as notas que ele tira nas provas. Hein? E aquele que aprova porque colou naquele momento em que o professor deu "bobeira"? Método furado, sabotador.

Isso é uma palhaçada com riqueza de interesses e miséria em transformação. Precisamos enxergar pessoas dentro de uma escola, além disso, precisamos dar protagonismo à conjugação do verbo PENSAR. A escola precisa ser o santuário do pensamento e não o cultivo da memória órfã. Tudo se memoriza e a tudo se cala. Apenas seguem o fluxo. Cadê o exercício de marcar o mundo com a nossa diferença enquanto seres pensantes? Isso tem interessado pouco às escolas tradicionais, em sua maioria. Pensam que vão perder o controle da massa produtiva, que vai virar baderna, que vão formar ignorantes, selvagens. Desculpe-me, isso já é o que estamos colhendo hoje. Converso sempre com professores de Universidades e a queixa é geral: Eles não sabem pensar sozinhos!! Desalentador.

Eu me pergunto, constantemente, por que estudei a tabela periódica? Quanto tempo desperdiçado. Eu sou de Humanas, eu quero respirar gente, aprender com gente e escrever sobre gente. Quanto esforço em vão. Quanta memória roubada. Faço o que com isso agora? Potássio, sódio, magnésio não me inspiram quando sento para escrever. Imaginem se ouvirmos o coletivo, quantas pessoas identificariam uma infinidade de conteúdos "doutrinados" dentro de si por simples vaidade de um sistema educativo obsoleto.

Gente! Estamos falando do sistema educativo do nosso pais! Estamos falando de poucos que decidem por milhares. E vamos no fluxo? Não, por favor, Não. Temos que exercer o que foi pouco estimulado dentro de nós. O pensar. Precisamos questionar o que essas linhas pedagógicas estão priorizando, principalmente, no princípio do sistema educativo, ou seja, desde muito pequenos.

Cadê o aprender através da "vivência"?

Cadê o aprender através da individualidade de cada um?

Cadê o aprender a pensar?

Cadê o aprender por prazer e não por imposição?

Cadê o aprender a se conhecer melhor?

Cadê o aprender que liberta?

Cadê o aprender a ser gente?

É... isso tudo não interessa na preparação para o vestibular. Complica muito. É mais fácil ver infinitas cabeças organizadas pelos números das estatísticas. Enfim, 2 + 2 = 4. Simplificaram a espécie humana.
Porém, ao lado do método convencional há o considerado alternativo.

A terminologia já desfavorece à ideia. O que deve ser algo alternativo? O método que cismou em ser diferente do Certo? Claro, tem que inferiorizar... imagina se a legião que consome o método convencional se convence que o lado de cá é o que dá fruto bom? O que seria do MEC ???? Dos infinitos livros que são "socados" nas crianças em idades tão criança? Dos profissionais que dão aulas com conteúdo desnecessário para um grupo de jovens que tem outro interesse "pela vida"? Do governo que teria que lidar com o seu povo exercendo o seu pensar fazendo valer o seu olhar criativo, criterioso, livre diante das suas escolhas? O narcisismo humano ainda é muito inseguro para libertar seus agregados.

O controle ainda impera. Ainda querem perpetuar este estilo de vida para colher "cordeiros". Vamos formar gente! Gente com diferença e não com igualdade. A igualdade nunca existiu. A disciplina do controle sempre nos fez acreditar nisso. Vamos dar condições aos nossos filhos de somar na diferença do amigo.
O lado lutador dentro deste processo também vem crescendo, um grande número de escolas já está se reestruturando, repensando suas linhas pedagógicas e outras tantas já nascendo dentro deste novo olhar.

Há opções

Um dia uma mãe me contou que no processo de adaptação de sua filha, em uma escola "alternativa", foi surpreendida pela professora quando esta se aproximou e lhe disse:

– Mãe, poderia ir à sua casa para tomar um café com vocês? Gostaria de me aproximar do "ninho" familiar da "Beatriz (fictício)" para ajudar no processo dela de adaptação na escola.

Achei extraordinário!! Essa professora é professora além das quatro paredes. Ela está focada no desenvolvimento humano e não, apenas, em ver se o dever de casa veio certo, ou se a aluna ganhou media na prova. Ela está preocupada, primeiramente, em "tocar" na individualidade desta criança, em conhecê-la melhor, o resto vem depois.

Entretanto, hoje em dia é assim, todos com a mesma roupa no grande pátio do "ensino dos melhores", mas... quem é quem?


Raquel Marcato, mãe da Marta de 4 anos, blogueira do portal mamaesavessas.com, escritora, questionadora por essência, ativista pelo autoconhecimento e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Autônoma de Barcelona.