'Tive que sujar a minha mão', diz ex-PM que matou Leandro Lo
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O policial militar Henrique Velozo gravou um vídeo hoje em que pede desculpa à família do lutador Leandro Lo por matá-lo, e também diz que teve que "sujar a mão". A gravação foi enviada ao UOL pelo advogado Claudio Dalledone.
No vídeo, Velozo afirma que se defendeu. "Nesse dia, nesse trágico dia, eu fui colocado em um limite, um limite que eu não gostaria de estar, onde eu tive, infelizmente, que sujar a minha mão para poder preservar a minha vida.
PM pede perdão à família do lutador e cita Deus. "Eu estive durante três anos e três meses encarcerado, e hoje eu posso dizer que eu tive uma experiência única e eu tive um encontro genuíno com um Deus forte. [...] Em nome dele, eu preciso fazer um pedido, que é um pedido de perdão."
No sábado, quando Velozo foi solto após ser absolvido, a mãe de Leandro publicou um vídeo nas redes sociais. Ela lamentou a decisão da Justiça: "Ontem eu enterrei o Leandro pela segunda vez. Esse é o sentimento porque foi uma tristeza tão grande", disse Fátima Lo.
ENTENDA A ABSOLVIÇÃO
Julgamento durou três dias e maioria do júri, composto por cinco mulheres e dois homens, decidiu pela absolvição do PM. O tribunal começou na última quarta-feira (12) e a sentença, a qual o UOL teve acesso, foi proferida às 20h30 de sexta-feira (14) no Fórum Criminal Ministro Mário Guimarães, na Barra Funda, na região central de São Paulo.
Júri acolheu tese de advogado do PM, que alegou legítima defesa de Velozo. Em nota, o advogado Cláudio Dalledone afirmou que as provas trazidas ao processo "demonstraram que o policial se defendeu do lutador". "Desde o início, a defesa demonstrou, por meio de provas e análises técnicas, que Henrique Velozo agiu em legítima defesa, depois de ser agredido e desmaiado por Leandro Lo", divulgou.
Durante julgamento, defesa também apontou "contradições" nos relatos de testemunhas. "Nada encaixava com a dinâmica real dos fatos", disse Dalledone. "Testemunha após testemunha, mostramos que o próprio conjunto probatório demonstrava a versão inicial", acrescentou. E concluiu: "Leandro Lo foi um grande campeão e isso precisa ser reconhecido. Mas também é necessário reconhecer que, infelizmente, ele foi o responsável por essa tragédia".
"A expectativa é de justiça", disse mãe de Lo no primeiro dia de julgamento. Em entrevista ao Jornal Hoje, da TV Globo, no último dia 12, Fátima Lo afirmou, emocionada: "Ele atirou na cabeça do meu filho, ele deu dois chutes na cabeça do meu filho, já caído no chão, ele não prestou socorro, não chamou a polícia".
Velozo é acusado de ter matado Leandro Lo com um tiro na cabeça. O campeão mundial de jiu-jitsu foi morto no Clube Sírio, uma casa noturna localizada no bairro de Indianópolis, na zona sul de São Paulo, em agosto de 2022, após uma briga durante o show da banda Pixote.
O CASO
PM, que já conhecia o lutador, se entregou um dia após o episódio. Segundo a mãe de Lo, Fátima, Velozo foi à casa noturna com a intenção de matar o campeão mundial. Os autos do inquérito da 16ª Delegacia de Polícia, na Vila Clementino, informam que uma das testemunhas revelou que o policial havia provocado Leandro antes de pegar uma garrafa de uísque e ser imobilizado pelo campeão mundial. Em seguida, o PM teria retornado e disparado.
Tenente da PM saiu de boate e foi a prostíbulo. Após disparar contra Leandro Lo, Velozo foi à boate Bahamas, tradicional prostíbulo em São Paulo. Imagens de câmeras de segurança mostram o policial entrando na boate às 3h04 e saindo duas horas depois, acompanhado de uma mulher não identificada. Na ocasião, ele pagou por uma garrafa de um litro de uísque e duas doses de gim com energético. A Polícia Civil informou que, depois de visitar o local, o tenente foi a um motel.
Velozo tinha histórico de violência. Ele já havia sido condenado por agredir um soldado em uma briga de bar enquanto estava de folga.
Ele foi demitido da PM em setembro. Sua demissão, assinada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi divulgada por meio de decreto publicado no Diário Oficial de São Paulo. No documento, a demissão é justificada pela prática de "ato ou atos que revelem incompatibilidade com a função policial militar".
No mês passado, a Justiça determinou o retorno dele à Polícia Militar. Tribunal suspendeu integralmente o decreto de Tarcísio de Freitas.
