Projetos replicam desafio cristão e viram 'Legendários da Shopee'
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Invictos Trekking não quer que você perca essa. A ideia, segundo o site do projeto sediado em Palmas (TO), é se inspirar na invencibilidade divina para também ser imbatível. "Os homens que participam são convidados a se tornarem invencíveis, não por suas próprias forças, mas pela fé em um Deus que é invicto." Mulher não entra.
Imagens dos participantes ajoelhados no meio da natureza, em oração, acionaram o déjà vu nas redes sociais do Invictos. Um comentário que fez sucesso por ali: "Ah, pronto, Legendários da Shopee!".
A troça tem lá sua razão de ser. São muitas as semelhanças entre o programa tocantinense e o movimento que fez correr para as montanhas Pablo Marçal e outros peixes grandes do coaching brasileiro. E elas não param no Invictos.
Espalhados pelo país, brotam grupos que replicam a mesma fórmula do Legendários, de longe o mais pop deles. Despontam como uma resposta conservadora à masculinidade em crise, com doses fartas de religiosidade e a promessa de resgatar um macho alfa supostamente desempoderado pela modernidade.
Essas iniciativas misturam trilhas em regiões montanhosas, desafios físicos, banhos gelados, mentorias espirituais e discursos de autossuperação que orbitam o projeto que se diz inspirado no que seria o legendário número um, Jesus Cristo.
Jason Diamantino capitaneia um desses percursos vistos como genéricos, o Guardiões. Ele se apresenta como general do Exército e líder da paraibana igreja Verbo da Vida. É também autor do livro "Coisa de Homem", com "lições de hombridade bíblica".
Um denominador comum com Legendários e afins é a percepção de que hoje a sociedade, de forma geral, empurra os homens para a passividade e a apatia.
Diamantino idealizou o Guardiões para recuperar o que considera o modelo de um homem de verdade. Os integrantes marcham como soldados em cultos ministrados pelo pastor, que fala em "duas carreiras que envolvem sacrifício": a militar e "a outra que é o exército divino para qual você se alistou".
Em outubro, ele alertou sobre "um valor que nunca vai cair, que é o fato de que a mulher precisa de segurança". O que se espera de um guardião, segundo Diamantino, é que ele chegue num lugar segurando na mão da esposa. "Todos os homens ali têm que saber que existe um homem que a guarda."
Também já disse que, se o casado não pode ter amizade com mulheres, está liberado para ser amigo de outros homens. Que aproveite e espalhe a palavra entre eles. "Está na hora de alcançarmos outros homens para Jesus."
O BravusCor tem como diferencial a raiz católica. A proposta, contudo, bebe da mesma fonte dos pares evangélicos ?um suco do que especialistas chamam de teologia coaching.
O fim: "Forjar homens de fé, honra e coragem". Os meios: "Desafios físicos intensos (como corridas de obstáculos), disciplina, psicologia e espiritualidade, inspirados em santos e heróis militares para restaurar a identidade masculina, fortalecer a família e a Igreja, e viver uma vida virtuosa centrada em Deus, Família e Nação".
Diz um post do Bravus convocando novos inscritos que "a montanha não te reinventa, ela arranca máscaras, confronta limites e te aproxima da sua melhor versão". Avante, pois. "Mereça sua inscrição, lute por ela."
São todos projetos exclusivamente masculinos, sendo o Legendários sua ponta de lança ?além de Pablo Marçal, já aderiram a ele uma miríade de coaches, de Joel Jota a Thiago Nigro (o Primo Rico), e também o lutador Lyoto Machida, o empresário Neymar pai e o missionário Deive Leonardo.
Espera-se que quem vá a essas incursões volte um homem melhor para ocupar o papel de provedor da família, enquanto à mulher caberia o papel de auxiliadora do lar. É o que a Bíblia prescreve, afinal.
O Invictos publiciza essa premissa com um "correio do amor" compartilhado em redes sociais. O participante faz declarações em vídeo à amada. Ela tem o nome exposto em letra rosa e um adendo amoroso: Marcela Love, Josi Love e por aí vai. No fundo, uma trilha sonora romântica. Acompanham o conteúdo hashtags como #honraminhaesposa #esposabencao e #homensqueoram.
Não que a sugestão seja relegar mulheres a donas de casa, dizem o pastor Davi Filho, da igreja que organiza o evento, a Batista em Células, e Hudson Andrade, porta-voz do Invictos, em resposta assinada em conjunto e enviada à reportagem.
Ao embutir no fiel "princípios de hombridade, cuidado e zelo para com a família", a mulher acaba ganhando papel central, afirma a dupla. "O homem é levado a entender sua função no lar dando suporte nas diversas áreas, evitando, assim, que suas esposas andem sobrecarregadas." De lavar a louça a cuidar dos filhos.
Para participar de 48 horas de programação, paga-se R$ 200. Aqui não há simetria com o Legendários, que costuma cobrar mais de R$ 1.000 pela experiência. O investimento não cobre as despesas, que são em parte subsidiadas pela igreja, afirmam Davi e Hudson. "A finalidade não é lucrativa", de acordo com eles.
Para Taylor Aguiar, doutor em antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e estudioso do entrosamento entre discurso coach e igrejas, a multiplicação de movimentos do tipo combina com o ethos evangélico.
"As igrejas têm uma lógica de diversificação e segmentação", diz. Uma característica dos evangélicos é justamente saber se adaptar a variados públicos, o que se alinha a "uma lógica de mercado, de concorrência mesmo, em que as igrejas tentam ser mais atrativas, se diferenciar das demais e também de outras religiões ou nenhuma religião".
O princípio protestante estimula dissidências dentro de uma comunidade, diz a economista e colunista da Folha de S.Paulo Deborah Bizarria. Ao contrário do catolicismo, com sua hierarquia verticalizada, o evangélico se sente mais livre para "discordar em vários pontos, e cada grupo decide criar a sua própria forma de fazer as coisas".
Essa possibilidade, segundo Bizarria, tem tudo a ver com a Reforma Protestante ?de forma bem resumida, uma quebra do monopólio religioso que permitiu leituras múltiplas da Bíblia, adaptáveis a vários contextos.
E dá-lhe interseções com o universo coach, dando acompanhamento espiritual para o desenvolvimento pessoal. Quem sai do Invictos, garantem seus porta-vozes, muda "visão, caráter e entendimento da função do homem na sociedade e na família". A fé move montanhas.
