Estado dos EUA testa IA para renovar receitas médicas sem médicos

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O estado de Utah, nos Estados Unidos, iniciou um teste inédito em que a inteligência artificial (IA) é usada para renovar receitas médicas sem a participação de médicos. As informações são de reportagem do site Politico.

O estado de Utah lançou um programa piloto que permite à IA renovar prescrições para pacientes com doenças crônicas, sem intervenção humana. A iniciativa, em parceria com a startup de tecnologia em saúde Doctronic, começou de forma discreta e busca avaliar até onde pacientes e autoridades estão dispostos a confiar na tecnologia para uma tarefa sensível da medicina.

O programa é limitado a 190 medicamentos de uso comum, excluindo remédios controlados e injetáveis por segurança. Os pacientes acessam um site para comprovar que estão em Utah, respondem perguntas clínicas e, se aprovados, têm a receita enviada direto à farmácia.

Segundo dados da Doctronic, a IA acertou o mesmo plano de tratamento que médicos em 99,2% dos 500 casos analisados. O sistema, de acordo com o cofundador Adam Oskowitz em entrevista ao site Politico, é projetado para ser cauteloso e encaminha casos duvidosos para médicos humanos. "A IA é melhor que os médicos nisso. Ela faz checagens que o médico não faria", afirmou Oskowitz.

O programa prevê revisão humana nas primeiras 250 prescrições de cada classe de medicamento e conta com um seguro de responsabilidade civil exclusivo para IA.

A renovação custa US$ 4 por prescrição, valor que pode cair com a ampliação do serviço. "Para quem tem doença crônica, ficar sem medicamento pode ser grave", disse Matt Pavelle, cofundador da Doctronic ao Politico.

IMPLICAÇÕES LEGAIS

A iniciativa levanta debates sobre segurança e regulação, já que a FDA, órgão que regula medicamentos nos EUA, ainda não se posicionou. Se o órgão decidir regular o uso de IA para prescrições, o avanço pode ser freado. "O desafio é como regular toda essa tecnologia e se ela é realmente boa para a saúde", avaliou Al Carter, da Associação Nacional de Conselhos de Farmácia dos EUA.

Associações médicas alertam para riscos de erros e abusos, como pacientes tentando burlar o sistema para obter drogas de forma inadequada. "A IA tem potencial para transformar a medicina, mas sem participação do médico, traz sérios riscos para pacientes e profissionais", afirmou John Whyte, da Associação Médica Americana.

O governo de Utah diz que a automação pode reduzir custos, evitar falhas no tratamento e ampliar o acesso. "Também serve para abrir caminho à inovação de quem está esbarrando na regulação", disse Margaret Busse, diretora do Departamento de Comércio de Utah.

O debate sobre quem deve regular a IA médica está aberto nos EUA. "Agora estamos nessa situação em que dispositivos dizem praticar medicina. O estado cuida do seu lado e a FDA vai decidir o que fazer", explicou Zach Boyd, do escritório de políticas de IA de Utah.