Comissão do Ministério da Saúde rejeita vacina contra herpes-zóster no SUS

Por VITOR HUGO BATISTA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), órgão do governo brasileiro responsável por decidir quais medicamentos, vacinas e tratamentos devem ser oferecidos gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde), decidiu por unanimidade contra a incorporação da vacina da herpes-zóster -recombinante adjuvada- no sistema público para idosos com 80 anos ou mais e imunocomprometidos a partir de 18 anos.

A recomendação da comissão é de 15 de agosto de 2025 e foi publicada no Diário Oficial da União nesta segunda-feira (12). Na prática, a decisão mantém o que já acontecia antes: a vacina segue disponível apenas na rede privada e demanda duas doses, custando cerca de R$ 900 cada aplicação --cerca de R$ 1.800 no total.

"Reconheceu-se a importância da vacina. No entanto, ela não foi considerada custo-efetiva, uma vez que o impacto orçamentário estimado ultrapassaria R$ 5,2 bilhões ao longo de cinco anos. Para efeito de comparação, todos os medicamentos distribuídos pelo Programa Farmácia Popular custaram R$ 4,2 bilhões no ano passado", disse o Ministério da Saúde em nota.

Segundo a pasta, até o momento, o laboratório responsável não apresentou nova proposta. O Ministério disse que manifestou interesse na incorporação da vacina e seguirá em negociação para a busca de um preço compatível com a disponibilidade orçamentária.

No Brasil, a vacina é aprovada para pessoas com 50 anos ou mais que possuam imunocompetência, ou seja, que não apresentem comprometimento imunológico patológico. Em pacientes imunocomprometidos, como indivíduos com HIV, a vacina está liberada a partir dos 18 anos.

Em abril do ano passado, quando o processo para incorporar a vacina foi iniciado, o ministro da Saúde Alexandre Padilha disse que o imunizante era uma prioridade da pasta.

"Pode ter certeza de que é uma prioridade nossa, enquanto ministro da Saúde, que essa vacina possa estar no Sistema Único de Saúde. A gente pode fazer grandes campanhas de vacinação para as pessoas que têm indicação de receber essa vacina", afirmou o ministro à época.

Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, cerca de 30% das pessoas terão herpes-zóster uma vez na vida.

Médicos infectologistas ouvidos pela Folha lamentaram a decisão. "Lamento profundamente a ausência no SUS de uma vacina tão promissora, com resposta imune tão significativa, na programação de imunização de grupos de risco específicos", disse Leandro Curi, infectologista do Hospital Felício Rocho.

Na perspectiva de Evaldo Stanislau, infectologista e coordenador de Medicina na São Judas Inspirali, a vacina recombinante adjuvada é "absolutamente prioritária" no SUS diante da alta prevalência e gravidade da infecção.

"A não incorporação fará persistir o quadro atual: idosos e imunocomprometidos que não se vacinaram por falta de condições econômicas continuarão suscetíveis à doença", afirma.

Segundo Stanislau, investir na vacina sai mais barato do que tratar a doença. "O tratamento com antivirais e medicamentos para dor é extremamente caro, somado aos custos de exames e consultas médicas. Portanto, é muito mais vantajoso investir na prevenção através da vacina do que custear o tratamento", explica.

É consenso entre os especialistas que não há alternativas nem estratégia preventiva eficaz contra o herpes-zóster no lugar da vacina barrada.

"Há pouco que se possa fazer. Manter o sistema imunológico saudável tratando as doenças imunossupressoras de base, como HIV, por exemplo, é uma ótima forma de se proteger, mas não garante proteção total", afirma Sumire Sakabe, infectologista do Hospital Nove de Julho.

O que é a herpes-zóster?

A herpes-zóster, popularmente chamada de "cobreiro", é causada pelo vírus varicela-zóster (VZV), o mesmo da catapora. Após a infecção inicial na infância, o vírus não some. Ele fica "guardado" nos gânglios nervosos.

"A reativação ocorre a partir de uma situação de diminuição da imunidade. Isso pode acontecer devido à aquisição de uma doença, uma infecção, pelo uso de certos medicamentos ou, mais comumente, pelo envelhecimento", explica Stanislau.

Nesses casos, o vírus escapa do controle imunológico, viaja pelo nervo e chega à pele, causando os sintomas, que começam com uma intensa queimação ou "pinicação".

Com o tempo, surge uma vermelhidão na pele, seguida pelo aparecimento de pequenas bolhas cheias de líquido, que podem transmitir a doença para quem nunca teve catapora. Passados alguns dias, essas vesículas ressecam, transformando-se em feridas e crostas.

A manifestação fica restrita a apenas uma metade do copo, pois segue exatamente o trajeto do nervo, e pode aparecer em qualquer região do corpo.

Febre e prostração podem ocorrer, e há formas sem lesões visíveis, complicando o diagnóstico.

"Pacientes idosos, especialmente aqueles com mais de 50 anos, apresentam maior suscetibilidade, em comparação com indivíduos jovens e saudáveis", afirma Curi.

Indivíduos com o sistema imunológico fragilizado são mais vulneráveis ao herpes zóste, como pessoas que vivem com HIV, câncer e diabetes.

"Pessoas saudáveis também podem, eventualmente, apresentar zóster, particularmente em situações de estresse prolongado, como falta de sono e fadiga", diz Sakabe.

Como funciona a vacina?

A vacina anterior contra herpes zóster, a Zostavax, da MSD, produzida com vírus vivos atenuados, apresentava riscos potenciais e uma resposta imune menos eficaz, segundo Curi, do Hospital Felício Rocho. Por essa razão, a vacina foi descontinuada e sua disponibilidade é limitada.

A vacina atualmente mais utilizada é a recombinante adjuvada, comercializada sob o nome Shingrix, da farmacêutica GSK.

A vacina é feita com vírus inativado. Ela estimula a resposta imunológica do paciente e, dessa forma, reduz de maneira substancial -quase integral- a possibilidade de ocorrência da reativação da infecção ou da infecção propriamente dita, segundo Stanislau, da São Judas Inspirali.

Sakabe, do Hospital Nove de Julho, explica que ela é altamente eficaz e segura, com duas doses aplicadas inclusive em quem já teve zóster, pois a doença pode recorrer.

O esquema de vacinação preconizado é de duas doses, com intervalo entre dois e seis meses, sendo o limite máximo de 180 dias.