Segurar a cabeça e evitar tocar a boca: saiba como ajudar uma pessoa em convulsão
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há muitos mitos que permeiam o socorro a uma pessoa em crise de convulsão, como a que teve o ator Henri Castelli, 47, na manhã desta quarta-feira (14), durante uma prova de resistência no BBB 26.
Um deles é o de que se deve colocar algo na boca do acometido para evitar que "engula a língua" -o que é anatomicamente impossível. Outro, diz que a pessoa sente dor durante a crise ou ainda que é necessário segurar o prender o corpo da pessoa a algo.
Todas essas afirmações são incorretas, segundo quatro neurologistas consultados pela Folha de S.Paulo, e podem resultar em ferimentos à pessoa em convulsão e a quem está tentando ajudá-la.
Existe um passo a passo correto para ser seguido em crise de convulsão, segundo os especialistas. Ele é simples, mas o suficiente para auxiliar sem causar qualquer dano ao acometido e a quem o ajuda. Veja como fazer.
IDENTIFIQUE A CRISE
Os sintomas da convulsão podem ser facilmente reconhecidos. Primeiro, a pessoa fica inconsciente. Depois, surgem as contrações musculares, que podem ser facilmente identificadas dada a expressividade dos movimentos. "É comum que a pessoa fique salivando mais e tenha liberação do esfincter, urinário ou fecal", explica o neurologista William Souza Martins Ferreira, do Hospital Vera Cruz.
MANTENHA A CALMA
O primeiro ponto é manter a calma, destaca a neurologista Letícia Sampaio, coordenadora do Departamento Científico de Epilepsia da ABN (Academia Brasileira de Neurologia). É no desespero que se inicia o ciclo de ações incorretas.
"É preciso ter clareza de que a pessoa não vai morrer. Ela está apenas reagindo a uma atividade elétrica incorreta que está ocorrendo no cérebro", explica Wellingson Paiva, neurocirurgião nos hospitais Samaritano e Sírio-Libanês.
Embora muito raras, as mortes podem acontecer, como no caso do cantor americano Juice Wrld. O óbito, porém, costuma ter outras causas mais graves além da convulsão.
PROTEJA A CABEÇA
Durante a convulsão, o corpo age de forma involuntária a estímulos cerebrais "bagunçados". "O cérebro comanda nossos movimentos e, durante a crise, ele está passando por uma descarga elétrica, o que causa as contrações musculares fortes e descontroladas", diz Adriana Libório, membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia.
Ela explica que proteger a cabeça evita traumas cranianos. Nesse caso, basta elevar a cabeça de modo que perca o contato com o chão. Segundo Paiva, uma almofada pode ser usada para proteger e manter confortável a região do crânio.
NÃO COLOQUE A MÃO NA BOCA
Um dos medos difundidos entre a população é de que a convulsão pode incorrer em acidentes à língua. De fato, a pessoa acometida pode mordê-la durante uma crise, mas é errado tentar interferir nisso.
Ao colocar a mão na boca, quem está tentando ajudar pode ter ferimentos nos dedos em razão das contrações, que resultam em mordidas fortes. Nenhum possível ferimento terá gravidade capaz de causar um mal maior à pessoa em convulsão. Por isso, afirmam os especialistas, o ideal é não intervir na boca e observar.
PROTEJA VIAS AÉREAS
As vias aéreas formam o caminho por onde o ar chega aos pulmões. Protegê-las durante uma convulsão é útil, pois pode ajudar a evitar aspiração da saliva, afirma Adriana.
Para isso, basta deitar a pessoa de lado enquanto mantém a proteção à sua cabeça. De lado, a possibilidade de aspiração é descartada, tanto para a saliva quanto para vômitos, que podem ocorrer em episódios raros.
PROCURE UM MÉDICO
Assim como a febre, a crise de convulsão pode revelar algum problema de saúde ou funcionamento anormal do cérebro.
"Ela pode revelar, por exemplo, um tumor, uma epilepsia, distúrbios eletrólitos, desidratação e hipoglicemia. O cérebo funciona com transmissões elétricas e elas precisam estar funcionando dentro da normalidade", diz Adriana.
Existem outros descuidos com a saúde que podem ocasionar uma convulsão, como calor excessivo, privação de sono ou uma descarga hormonal excessiva.
É FALSO
Um dos mitos capilarizados na população é o de que não se deve ajudar uma pessoa em convulsão pela possibilidade de contrair alguma doença. Trata-se de um mito, reafirma Paiva.
"No geral, a convulsão vai passar em um minuto ou dois. Se passar disso, é preocupante, porém raras vezes ocorre. Seguindo todos os passos, a pessoa que convulsionou vai ficar bem e poderá procurar um médico para entender a causa", conclui o neurologista.
