Nunca recebi uma nota de pesar, diz mulher de técnico morto em estúdio de Marçal

Por MATHEUS TUPINA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Elaine Cristina, 51, professora do ensino fundamental, vive diariamente o vazio deixado pela morte do marido, Celso Guimarães Silva, após acidente em um estúdio do influenciador Pablo Marçal (PRTB), em Barueri (região metropolitana de São Paulo), em junho de 2023.

Ele era técnico de audiovisual e morreu dois dias depois de sofrer uma descarga elétrica no local, alugado para uma transmissão, e cair de uma altura de quase quatro metros. Segundo laudo da Polícia Civil, o ambiente era inseguro, com fiação exposta e sem estrutura para uso de equipamentos de segurança.

Dois anos e meio depois do acidente e em meio a uma ação judicial sobre o caso, Elaine diz à Folha nunca ter sido contatada por Marçal nem pela equipe dele. O influenciador afirma não ter responsabilidade porque o estúdio estava alugado a terceiros.

"Eu nunca recebi uma nota de pesar. Uma ligação, uma mensagem. Do tipo 'dona Elaine, meus sentimentos'. Claro que [o acidente] foi uma fatalidade. Mas foi um descuido", ela afirma.

Celso Guimarães trabalhava no setor audiovisual havia quase 20 anos. Foi maquinista em "Tropa de Elite" (2007) e "Real: O Plano por Trás da História" (2017), entre outras produções.

Quando ainda estava no hospital, gravou vídeo relatando a insalubridade do estúdio do ex-candidato à Prefeitura de São Paulo em 2024.

Ele e a professora foram casados por cinco anos. Não tiveram filhos juntos, mas compartilhavam cuidados dos descendentes de outros casamentos: Elaine tem dois, e Celso tinha um.

Ela processou a empresa de Marçal e, em abril, o TRT-2 (Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região) condenou o político ao pagamento de R$ 2 milhões em indenização. Em outubro, a corte negou recurso do influenciador e o multou por considerar a apelação protelatória. O valor atual a ser pago é de R$ 2,4 milhões. Na segunda-feira (12), novo recurso do empresário foi negado.

A docente decidiu acionar o Judiciário após uma série de advogados a abordarem, explicando que o caso configurava uma questão trabalhista e que deveria ser reparada pela Justiça.

Elaine critica a estratégia do ex-candidato. "Acho que é aquela coisa, 'gasto com advogado, mas não pago a eles de jeito algum'", diz a docente. Ela ressalta que o arrastar do trâmite da ação e a série de recursos a desgasta. "Eu me sinto adoecida. Exausta. [A ação] fica ali o tempo todo, mexendo na ferida."

"Ele quer mostrar que é o dono da coisa toda, que as coisas têm que ser do jeito dele, não do jeito que a lei quer, que o Judiciário determina. Ele quer uma disputa de ego e vai até as últimas consequências", diz.

O advogado especialista em indenização Eduardo Barbosa atende a família e faz coro às críticas ao influenciador. Ele afirma que, em muitos casos, após a segunda instância são realizados acordos para pagamento, buscando finalizar o desgaste para os dois lados da ação.

"Ele levou multa após recurso e ainda assim recorreu. Mesmo depois de ter levado essa condenação. Pode levar a instâncias superiores? Pode. Mas vamos trabalhar para essa multa ser dobrada", ele declara.

"É lamentável porque a vida dele continua a mesma. A dele, a da empresa. A vida da família nunca mais será a mesma. Nem dos três filhos, nem da mulher. Mas isso para ele não interessa. Enquanto ele vive dando palestras e viajando com jato particular, a família dela está destruída."

A assessoria de Marçal enviou nota à Folha assinada pelo advogado Tassio Renam, defensor do político na ação. "Ainda cabe recurso que será manejado nos próximos dias, dentro do prazo legal, justamente por entender que essa decisão é passível de revisão. Seguimos acreditando que a justiça será feita", diz a nota. O político não se manifestou.

Segundo Elaine, as decisões recentes, a ela favoráveis, demonstram que todos estão sob a lei e que não há impunidade para quem não se compromete com os cuidados necessários em um ambiente de trabalho.

A docente nega que a intenção principal seja o dinheiro e cita o reconhecimento da Justiça como objetivo.

"A pessoa morreu no estúdio, mas era o filho de alguém, o marido, o pai, o irmão, o amigo de alguém. Ele [Marçal] nunca quis saber, nunca se preocupou com isso. Que falta de empatia. Se fosse com a família dele, com alguém que ele amasse, como ele se sentiria?"

"É uma tragédia. E o pior de tudo é pensar que era evitável. Ele não era um amador. Jamais isso aconteceria em um local seguro, com tudo de acordo com o que tinha que ser".