Escunas democratizam acesso a ilhas e praias remotas no litoral de Paraty

Por MARIANA ZYLBERKAN E ADRIANO VIZONI

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Com cerca de 65 ilhas, a baía de Paraty (RJ) demanda naturalmente embarcações para ser visitada. A geografia abrigada transforma o trajeto em um passeio por si só por águas calmas com diferentes tonalidades de verde a depender do tempo, ensolarado ou nublado.

O acesso aos atrativos pode encarecer caso seja feito por meio de lanchas que cobram a partir de R$ 200 por pessoa o translado até a praia Vermelha, por exemplo, uma das mais próximas, localizada a cerca de 40 minutos de navegação do cais no centro da cidade histórica.

Por isso, as escunas com capacidade para até 160 pessoas se tornaram a opção mais democrática para conhecer e navegar pela baía entrecortada pela mata atlântica, com possibilidade de avistar golfinhos pelo caminho.

O sistema é operado por dezenas de escunas que partem do cais principal da cidade todos os dias no fim da manhã durante a alta temporada. O turista desavisado, que não comprou antecipadamente seu bilhete nas agências de turismo localizadas no centro histórico, é alvo de assédio de vendedores de passeio que abordam qualquer um que passa pelo cais.

A abordagem é feita com pranchetas onde fotos dos atrativos são exibidas. Quase todas têm escorregadores na popa para permitir mergulhos no mar e algumas oferecem diferenciais como pranchas de stand up paddle.

O valor tabelado a partir de R$ 110 por pessoa, nas escunas de dois andares, é fixado pela associação que reúne barqueiros e operadores das embarcações em Paraty, e inclui cinco horas de passeio com até quatro paradas.

Entre elas, a Ilha do Coco foi alçada como ponto obrigatório após vídeos viralizarem nas redes sociais. Sem faixa de areia, a pequena ilha em formato de ferradura atrai visitantes em busca de registros em meio a peixe coloridos sob a água cristalina. "Mesmo mais longe do cais, a ilha tem uma demanda de visita alta. Todo mundo pede para ir", diz Camila Passos, gerente das escunas Soberano da Costa.

A família dela mora em Paraty e atua no ramo de embarcações há 21 anos, quando seu pai se mudou de Camamu, na Bahia. As escunas são feitas pelo avô de Camila, Raildo Passos, carpinteiro na cidade do litoral sul baiano. "Começamos com um barco em Angra dos Reis (RJ) e agora temos quatro escunas", diz a gerente.

Os passeios de escuna em Paraty seguem um roteiro padrão. Ao embarcar, o turista recebe uma comanda e um cardápio. O som alto toca hits de axé a sertanejo, apesar de algumas embarcações oferecerem som ao vivo.

Antes de partir, os visitantes são alertados para questões de segurança, como a proibição de pular do segundo andar da embarcação para o mar. Ao fim dos avisos dados por um tripulante ao microfone, é informado que os interessados em almoçar a bordo devem fazer os pedidos antes de zarpar do cais. Os pratos individuais custam de R$ 70 a R$ 90. Uma cerveja long neck sai por R$ 16.

Localizada a uma hora e 20 de navegação a partir do centro de Paraty, a Ilha dos Cocos passa por pontos da baía como a Ilha da Bexiga, do velejador e escritor Amyr Klink. O nome é referência ao surto de varíola no século 20, quando a ilha recebia pessoas infectadas em quarentena.

Por ser estreita, a Ilha dos Cocos demanda que as escunas ancorem próximas uma das outras. As manobras das embarcações com até 20 metros de comprimento são feitas em meio aos turistas que usam boias coloridas em formato de espaguete para boiar no mar.

O som alto concorre com as buzinas das embarcações, uma forma de avisar os turistas para retornar a bordo para seguir para a próxima parada. Na manhã da última quinta-feira (15), havia ao menos dez escunas ancoradas na baía da Ilha dos Cocos.

Cada parada dura, em média, 30 minutos e as escunas fazem uma espécie de rodízio nos pontos mais procurados para evitar a superlotação.

Com a viralização da Ilha dos Cocos, outras paradas até então concorridas, como a Ilha Comprida e a Praia Vermelha, tornaram-se secundárias, segundo a gerente das escunas Soberano da Costa. Para avistar os peixes, são alugados óculos de mergulho e snorkel a R$ 25.

A disputa, porém, é por um lugar a bordo do bote que faz o trajeto da escuna até a faixa de areia das paradas onde há praia, como a Ilha da Lula. Fotógrafos a bordo incentivam os turistas a posar para depois venderem os registros a R$ 20 a foto ou o pacote de R$ 150 por dez fotos.

Após a segunda parada, é servido o almoço na Ilha da Pescaria, onde o mar fica parecido com uma piscina e o balanço do barco é quase nulo. Em caso de enjoo, a tripulação oferece comprimidos para aliviar o sintoma e a dica de olhar para o horizonte e molhar a nuca com água gelada.

De Monte Belo, em Minas Gerais, o casal Lucila Chagas, 34, e Vinicius Alexandre, 38, conta que escolheu o passeio de escuna por ser a única maneira de conhecer as ilhas de Paraty. "Os tempos de parada são muito curtos, não dá para aproveitar direito", diz Vinicius.

Habituados a passar férias em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, o casal visitou Paraty pela primeira vez neste verão. "Coloquei no GPS e vi que a distância era a mesma e ainda não conhecíamos", diz o turista que enfrentou sete horas de estrada para chegar ao destino de férias.