Família expulsa de voo da Air France detalha confusão com tripulação

Por JOSUÉ SEIXAS

RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - A família da Bahia expulsa de um voo da Air France no dia 14 de janeiro afirma que o comandante tomou o bilhete de uma das passageiras e tentou forçá-los a apagar os vídeos em que estava registrada a situação, conforme informado à reportagem. Isso também teria sido feito com outros passageiros presentes no voo, sob a ameaça de desembarque. O episódio ocorreu no voo AF562, do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, para Salvador (BA), ainda antes da decolagem.

Por meio de nota, a Air France disse que os passageiros reagiram de forma "extremamente exaltada" e "adotaram comportamento inadequado em relação à tripulação de cabine", e que o comportamento adotado antes da partida "causou atraso, gerou insatisfação entre outros passageiros e poderia ter comprometido a segurança do voo".

À reportagem, Danielle Cordeiro Lopes, 48, disse que viajava com o marido, o empresário Ivan Lopes, 58, a filha de 11 anos e a enteada de 25 anos. O grupo retornava ao Brasil após uma viagem de cerca de 20 dias, com saída de Milão, conexão na França e destino final Salvador.

No check-in em Milão, a família aceitou um upgrade da Premium Economy para a classe executiva, por um valor de 400 euros (R$ 2.497 aproximadamente) por pessoa, sendo 1.600 euros no total (R$ 9.989).

O problema teria começado em Paris, quando a enteada recebeu uma notificação no celular indicando retorno à Premium Economy. A justificativa foi de que uma cadeira na Classe Executiva estava quebrada e, por isso, ela teria de ser realocada.

Houve a tentativa de negociação para que a família permanecesse junta, num retorno à categoria anterior, mas isso foi negado porque os assentos já estariam ocupados e também não haveria devolução imediata do dinheiro.

Segundo ela, a atendente conversou com algumas pessoas no interfone e falou para entrarem, porque havia uma pessoa consertando o assento. Caso não fosse possível o conserto, alguém teria de ir para a Premium Economy. Danielle se ofereceu para a troca, já que as garotas estavam muito animadas para ir na Classe Executiva.

"Só que, quando entramos, veio o motivo da indignação: a nossa cadeira não estava quebrada. Nossa cadeira tinha sido cedida para outro passageiro, um francês, que até demonstrou certa empatia, mas chegou a perguntar se eu era business frequente, já que ele era, ou seja, eu teria feito o upgrade recentemente", afirmou.

Como o conserto da cadeira ficou impossibilitado, já que ela não reclinava completamente, o marido de Danielle, Ivan, sugeriu que ele fosse na cadeira apesar de estar quebrada, mas isso também não foi aceito.

Houve a tentativa de levá-los para um canto da aeronave para uma conversa, mas a família preferiu que a conversa acontecesse no local do assento. Em seguida, o capitão foi chamado. Ele teria chegado alterado e focado em encerrar a discussão com a família.

"Minha filha estava com o ticket da classe executiva na mão quando ele puxou o bilhete e disse: 'Você não é mais executiva, vai lá para trás'. Foi nesse momento que fiquei indignada, puxei o ticket de volta e falei: 'Eu paguei por esse ticket, ele é meu, você não tem o direito de fazer isso'. Como meu marido não entende inglês, eu fui explicar o que estava acontecendo. Quando ele (comandante) percebeu isso, ficou ainda mais nervoso, veio gritando e apontando o dedo na minha cara, dizendo para mim e para minha filha mais velha que já tinha dado duas chances e que, se não acatássemos, sairíamos da aeronave", iniciou.

Nesse momento, Ivan disse que ele não podia tratar assim a esposa e a filha e explicou que não falava inglês, mas que poderia tentar em espanhol. O comandante respondeu que falava francês e inglês e repetiu que as chances tinham acabado.

"Nesse momento, minha filha mais velha estava filmando. Ele viu, mandou que ela entregasse o telefone, tentou pegar o celular e exigiu que ela apagasse o vídeo. Como ela se recusou, ele disse que todas as chances estavam esgotadas e determinou que sairíamos do voo. O passageiro francês que estava na poltrona tentou interceder, disse que falaria com o capitão, mas voltou informando que a decisão estava mantida. A tripulação então pediu que saíssemos. Eu disse que não sairia e que, se quisessem nos retirar, teriam que chamar a polícia. A polícia chegou cerca de meia hora depois e nos conduziu para fora da aeronave", complementou.

Após o desembarque, a família diz não ter recebido assistência da companhia aérea. Segundo o relato, funcionários informaram que eles haviam perdido as passagens por terem causado atraso no voo e que novos bilhetes só poderiam ser adquiridos mediante pagamento.

Como alternativa, a companhia ofereceu um voo na classe econômica, com quatro escalas, ao custo de cerca de 7.000 euros (R$ 43,6 mil aproximadamente).

Diante da situação, o grupo comprou novas passagens em outra companhia aérea, com saída no dia seguinte, após deslocamento do aeroporto Charles de Gaulle para Orly e espera de cerca de três horas para liberação das bagagens.

O custo da nova viagem foi de aproximadamente R$ 58 mil. A família retornou ao Brasil no dia seguinte e agora estuda as medidas jurídicas que podem ser tomadas.

'PASSAGEIROS INDISCIPLINADOS', DIZ AIR FRANCE

Em nota, a Air France chamou a família de "grupo de quatro passageiros indisciplinados". "O comportamento adotado a bordo, antes da partida, causou atraso, gerou insatisfação entre outros passageiros e poderia ter comprometido a segurança do voo. De fato, a equipe da Air France no portão informou a um dos quatro passageiros -que originalmente possuía bilhetes em Premium Economy- que, devido à inoperância de um outro assento na Classe Executiva, o upgrade para a Classe Executiva, adquirido no dia da partida, não poderia ser honrado. O assento em questão foi, portanto, atribuído a um cliente que havia adquirido um bilhete de Classe Executiva no momento da reserva", afirmou a empresa.

"Considerando o desejo dos passageiros de viajarem juntos, a equipe da Air France ofereceu assentos na cabine Premium Economy, conforme originalmente previsto. No entanto, os passageiros optaram por manter três assentos em Classe Executiva (upgrade) e um assento em Premium Economy (upgrade que não pôde ser honrado devido ao assento inoperante). Uma vez a bordo, os passageiros reagiram de forma extremamente exaltada e adotaram comportamento inadequado em relação à tripulação de cabine. Apesar das explicações fornecidas e dos reiterados apelos do comandante para que mantivessem a calma, o mau comportamento persistiu."