Projetos buscam entender o elo entre a crise climática e o adoecimento mental

Por JORGE ABREU

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As secas na amazônia e as enchentes no Rio Grande do Sul deixaram rastros de destruição no ambiente -e nas vidas das pessoas. Esses eventos extremos, cuja previsão é de que sejam cada vez mais frequentes e intensos devido ao avanço das mudanças climáticas, têm causado sintomas de adoecimento mental em quem mora nas regiões de incidência, principalmente entre as parcelas mais vulneráveis.

Para entender esse fenômeno, chamado pela comunidade científica de ansiedade climática ou ecoansiedade, especialistas da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), em Manaus, e do hospital Moinhos de Vento, no Rio Grande do Sul, desenvolvem estudos pioneiros voltados ao tema, que ainda carece de dados.

As pesquisas, coordenadas por psicólogos e psiquiatras, ambas em fase inicial e realizadas separadamente, analisam, além dos sintomas de ansiedade, os de estresse pós-traumático e de depressão crônica.

Michele Rocha, psicóloga e pesquisadora da Fiocruz Amazônia, relata que comunidades ribeirinhas e indígenas do Amazonas sofrem, anualmente, com as secas dos rios, que causam isolamento, insegurança alimentar e a incerteza de um futuro melhor.

"Essa pesquisa busca entender o sofrimento mental em situação de eventos climáticos, no caso da amazônia com a seca extrema. E quais são os sinais e as estratégias que as próprias comunidades têm para lidar com isso, porque o sistema de saúde não sabe", resume.

Para isso, a pesquisadora vai visitar as comunidades mais afetadas, como a região do município de Tefé (AM), considerada o centro do Médio Solimões. Lá as famílias afirmam que o desespero da seca é similar ao da pandemia de Covid-19, ela conta.

Em 2023, o governo do Amazonas decretou estado de emergência diante da estiagem severa, com força-tarefa para ajudar as comunidades mais impactadas. Já em 2024, o Brasil enfrentou a pior seca já registrada desde o início da série histórica, em 1950. A situação atingiu cerca de 5 milhões de quilômetros quadrados --58% do território nacional.

Os principais sintomas de adoecimento mental, segundo Rocha, aparecem por meio do abuso de álcool e outras drogas, afastamentos de amigos e familiares, faltas no trabalho e brigas.

A pesquisa pretende desenvolver soluções a partir de propostas da própria comunidade, como o contato com a natureza, atividades culturais e a prática de esportes, como o futebol, bastante popular entre os povos indígenas.

"Sabemos que 80% dos problemas de saúde mental são evitáveis quando há uma boa atenção primária. O acompanhamento do paciente antes que ele adoeça de forma crônica pode levar a bons resultados", acrescenta Rocha.

A pesquisa da Fiocruz deve fazer ainda um recorte de gênero para investigar os impactos para as mulheres -estudos mundo afora apontam que elas são as principais vítimas nesse contexto. Rocha cita como exemplo a insegurança alimentar em uma família, situação na qual os filhos e o marido costuam ter prioridade de acesso à comida.

"As mulheres preferem dar o alimento saudável para os seus filhos e até para o marido, enquanto elas ficam com fome ou comem ultraprocessados, por exemplo. Isso mostra o impacto da mudança climática na alimentação das mulheres", frisa.

No outro lado do país, o hospital Moinhos de Vento elabora o projeto Recomeçar, que investiga os efeitos das enchentes no Rio Grande Sul na saúde mental. No último ano, o estado gaúcho sofreu a segunda maior tragédia climática, depois das enchentes históricas de 2024.

Christian Kieling, psiquiatra na instituição e um dos coordenadores do Recomeçar, destaca que a ansiedade climática não é reconhecida como diagnóstico clínico, mas os seus sintomas são objeto de estudo para a elaboração de um protocolo científico que possa ser usado para facilitar o acesso ao tratamento específico.

A iniciativa é parte do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde). O objetivo é oferecer um melhor suporte psicológico, baseado nas diretrizes da OMS (Organização Mundial da Saúde).

"Nós vamos utilizar instrumentos padronizados de avaliação de sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. Também vamos usar um método de avaliação de ansiedade climática, que é um pouco diferente da ansiedade generalizada", descreve.

O público-alvo desta pesquisa, inicialmente remota, são pessoas a partir dos 16 anos. Os pacientes que apresentarem sintomas mais preocupantes de ansiedade, depressão ou estresse pós-traumático vão ser convidados para uma avaliação mais detalhada, explica Kieling.

"O projeto vai avaliar em torno de 10 mil pessoas em comunidades mais afetadas pelas enchentes. Sabemos que o estado inteiro foi afetado de alguma maneira, mas tem lugares que tiveram consequências mais intensas", conta também.

As intervenções psicológicas, previstas como próxima etapa do projeto, serão baseadas no protocolo desenvolvido pela OMS, chamado PM+ (Problem Management Plus), considerado de baixa intensidade.

As sessões com os pacientes serão baseadas em princípios da chamada terapia cognitivo-comportamental, voltadas para sofrimento mental e focadas em desenvolver novas ferramentas de abordagem. A iniciativa quer facilitar o acesso ao tratamento, uma vez que os eventos climáticos extremos tendem a se repetir.

A ocorrência de enchentes no Sul pode se tornar até cinco vezes mais frequente em cem anos, conforme estudo do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, em parceria com a Agência Nacional de Águas.

"Os resultados do projeto Recomeçar serão um legado bem importante, de como reverter os sintomas da ansiedade climática, e devem ficar disponíveis para toda sociedade brasileira", prevê o psiquiatra.