50 anos após voo inaugural Paris-Rio, veteranos do Concorde cultivam saudade
PARIS, FRANÇA (FOLHAPRESS) - Douglas Hallawell, 75, explica a diferença de voar em um Concorde. "Os aviões subsônicos têm altitude máxima de 40 mil pés (cerca de 12 mil metros). E o Concorde voava a 60 mil. Esses 20 mil pés faziam toda a diferença. Nunca tinha nebulosidade, nem turbulência. Só o céu azul. Um azul muito mais profundo, mais escuro. E dava para constatar que a Terra é redonda."
Cidadão brasileiro e britânico, Hallawell foi comissário de bordo no Concorde, na linha Paris-Rio da Air France ?a primeira a voar acima da velocidade do som.
Nesta quarta-feira (21), completa-se exato meio século dos dois primeiros voos comerciais supersônicos do mundo, simultâneos: da Air France, entre Paris e Rio, com escala em Dacar, no Senegal; e da British Airways, entre Londres e o Bahrein. Ambos com o Concorde, projeto estatal franco-britânico do qual apenas 20 exemplares foram fabricados, entre 1967 e 1979.
Definitivamente aposentado em 2003 pelo alto gasto de combustível e pelas restrições ambientais, o Concorde foi visto um dia como o futuro da aviação: ia de Paris ao Rio em sete horas e meia, incluindo um reabastecimento de 50 minutos em Dacar. Hoje um Boeing 777 precisa de 11 horas para percorrer a mesma distância, sem escalas.
"É a primeira vez na história da civilização que houve uma regressão no transporte", lamenta o ex-piloto de Concorde Alain Bataillou. "Meu neto me diz: vovô, você ia a Nova York em três horas e meia, como é que agora leva oito horas?"
Bataillou, hoje com 83 anos, foi um dos pilotos do quarto voo Paris-Rio do Concorde, em fevereiro de 1976. Eram dois voos semanais do supersônico para o Brasil. A tripulação ficava até quatro dias hospedada no hotel Méridien, em Copacabana. "A gente tirava o relógio, botava um jeans e ia para o 'Maracanã'", conta. "Vi várias vezes o jogo que chamam de Fla-Flu."
O Concorde que aparece pousando no Rio no filme "007 contra o Foguete da Morte", de 1979, foi pilotado por Bataillou. O voo trazia o ator Roger Moore para as filmagens. "Ele foi muito simpático, mas estava muito pálido, tinha acabado de sair de uma hospitalização", lembra o comandante.
Convidado a assistir às gravações no Rio, Bataillou levou um susto. "De repente, quem chega não é o Roger Moore pálido, e sim James Bond: bronzeado, magnífico."
A Folha visitou os dois exemplares do Concorde expostos no Museu do Ar e do Espaço, em Le Bourget, na periferia de Paris. Um deles é o protótipo 001, do primeiro voo experimental, em 1969.
Uma surpresa é descobrir que os cem passageiros viajavam espremidos, como em uma classe econômica atual, por exigências aerodinâmicas. Mas os assentos eram mais ergonômicos que os da maioria dos aviões modernos.
O serviço de bordo era luxuoso. As aeromoças usavam modelos exclusivos da grife Patou. O cardápio do voo inaugural Paris-Rio tinha medalhão de foie gras e costeleta de vitela Richelieu.
"A passageira mais caprichosa era Régine", lembra Douglas Hallawell. A belga Régine Zylberberg (1929-2022), rainha da noite, era dona das lendárias boates Régine's em todo o mundo, inclusive uma no Rio, no subsolo do hotel Méridien.
"Antes do voo, Régine encomendava sempre o prato diet, mas cada vez que entrava no avião queria a mesma coisa que o passageiro ao lado." Como as bandejas eram contadas para o número exato de passageiros, Hallawell improvisava. "Eu via quem não estava comendo e montava uma bandeja para ela."
Hoje em dia, saudosistas do Concorde trocam reminiscências nas redes sociais. Lembranças de detalhes, como o certificado que recebiam por romperem a barreira do som, ou o painel que mostrava a velocidade instantânea ?a máxima ficava acima de Mach 2, ou mais de duas vezes a velocidade do som.
"Não dava para sentir a velocidade", lembra Hallawell. O estrondo provocado pela velocidade supersônica não era ouvido por quem estava no avião, porque fica para trás. Devido à poluição sonora, o Concorde só tinha autorização para atingir Mach 1 (a velocidade do som) ao sobrevoar o mar ?limitação que prejudicou a comercialização da aeronave.
O derradeiro voo Paris-Rio do Concorde foi em 31 de março de 1982. Hallawell trabalhou nele. "Foi um dia um pouco triste, porque todo mundo sabia que era o último. Foi a única vez que vi o avião bem cheio". A ocupação inferior a 70% foi o motivo do cancelamento da linha.
Em sua casa perto dos Alpes, o ex-piloto Bataillou tira de uma gaveta a caderneta onde anotava seus voos e localiza a data de seu último com o Concorde: Nova York-Paris, em 28 de outubro de 1982. "É claro que lamento, mas a história é assim, não tenho motivo para chorar."