Aumento de turistas estrangeiros no Rio lota praias em meio a inflação de preços

Por YURI EIRAS

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O engenheiro argentino Camilo Ruiz Gonzales, 49, amou o colorido de Copacabana e suas barracas de vestuário.

Adquiriu uma réplica da camisa da seleção brasileira da Copa do Mundo de 1998, com a 9 de Ronaldo às costas, e se juntou a outras centenas de estrangeiros que passeiam pelo Rio de Janeiro com roupas e acessórios nas cores do Brasil.

"Sei que viramos um ponto de identificação com esta camisa, 'olha lá o estrangeiro', mas será uma recordação de boa viagem que fizemos", conta Gonzalez, que passou o Réveillon na capital fluminense com a mulher e afilha.

O estado do Rio de Janeiro viu aumentar o número de turistas estrangeiros em 2025. Foram 2,1 milhões de chegadas internacionais, 43,7% a mais do que em 2024 [1,5 milhões]. Os dados são da Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo), a partir de informações da Polícia Federal.

O crescimento foi impulsionado por um aumento de 72,6% no número de turistas argentinos ?foram 787.229 no ano passado, contra 455.946 em 2024. A lista das nacionalidades que mais visitaram o estado em 2025 tem ainda chilenos (359.705), americanos (214.795), uruguaios (100.476) e franceses (86.806).

A academia gratuita do Arpoador, conhecida como "academia dos Flinstones" por seus aparelhos artesanais de aço e concreto, viralizou nas redes sociais com um vídeo em que mostrava a diversidade de nacionalidades numa tarde de verão em janeiro: um espanhol, dois finlandeses, um japonês e duas são-martinenses malhavam no local.

"A linguagem do esporte é universal e a interação acontece entre eles. Muitos saem maravilhados com a possibilidade de malhar tendo a vista para as praias do Diabo e Arpoador", afirma Manoel Messias, um dos cuidadores voluntários do espaço.

O fluxo de turistas tem mudado a dinâmica do estado, especialmente na capital, surpreendendo moradores que vivem fora do eixo entre centro, zona sul e Barra da Tijuca. No último mês foram vistos estrangeiros no trem para Japeri (na Baixada Fluminense), nas ruas do Engenho de Dentro, hospedados em apartamentos na Tijuca e em ensaios de escolas de samba em diferentes bairros da zona norte. Todas áreas distantes dos bairros mais conhecidos da cidade.

"Os turistas argentinos, quando vêm pela primeira vez, bombam Copacabana. Mas já na segunda eles até preferem a Barra, porque é mais espaçoso, muitos vêm de carro, ou alugam. Adoram fazer compras nos shoppings", afirma Alfredo Lopes, presidente da HotéisRIO, o sindicato patronal do setor, sobre a diversificação de destinos dentro da cidade.

Representantes da rede hoteleira e secretários do estado e capital atribuem o aumento do turismo internacional ao calendário de eventos, especialmente os megashows de maio, na praia de Copacabana ?Madonna, em 2024, e Lady Gaga, em 2025. A atração deste ano ainda não foi confirmada.

Os eventos são promovidos pela prefeitura, com aporte do governo estadual e patrocínios privados.

"Os shows trazem exposição positiva da cidade e geram o interesse de conhecer o Rio no imaginário das pessoas", afirma Gustavo Tutuca, secretário de Turismo do governo Cláudio Castro (PL).

A plataforma de hospedagem Airbnb afirma ter registrado aumento no número de planejamento de viagens para o Réveillon do Rio em 2025, na comparação com 2024.

A plataforma diz que o megashow de Lady Gaga atraiu, na ordem, turistas do Chile, Argentina e Estados Unidos. No show de Madonna, um ano antes, a maioria das reservas foi feita em Buenos Aires, na Argentina, seguida por Santiago, no Chile, Clermont-Ferrand, na França, e Bogotá, na Colômbia.

Tutuca também credita o aumento à inauguração de rotas internacionais no aeroporto internacional do Rio, o Galeão. Córdoba, na Argentina, Toronto, no Canadá e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, estão entre os novos voos.

O Galeão tem 26 destinos para fora do Brasil e fez 24% voos internacionais a mais em 2025, na comparação com 2024.

"Muitos conteúdos sobre o Rio feitos por criadores estrangeiros surgem desse ambiente favorável, somado ao câmbio competitivo e à melhoria da conectividade aérea", afirma o presidente da Riotur, Bernardo Fellows.

O fluxo de visitantes desafia o Rio principalmente nas praias. O verão vigente tem sido de reclamações de preço. Turistas e moradores têm afirmado que os produtos na orla, como cadeiras, guarda-sois, comidas e bebidas, estão inflacionados.

No dia 10, o prefeito Eduardo Paes (PSD) disse nas redes sociais que pediu às secretarias estudos para avaliar a implementação de uma tabela de preços. "Temos visto um enorme abuso nos preços exorbitantes praticados por alguns desses comerciantes nesse verão", afirmou.

A possibilidade de tabelamento gerou reclamação dos barraqueiros, que temem não conseguir pagar fornecedores e empregados.

Já os vendedores ambulantes não regularizados têm feito protestos na orla de Ipanema contra ações da Guarda Municipal.

Na quarta (14) houve um princípio de confusão entre agentes e camelôs. Eles reclamam das apreensões dos produtos ?comidas, bebidas e peças de vestuário, como aquelas com as cores da bandeira que viraram moda entre turistas.

O fluxo também desafia a polícia, ante a possibilidade do aumento nos golpes. Em outubro o governo Castro passou a distribuir uma cartilha de segurança para estrangeiros, com dicas de como evitar golpes.

Meses antes, a Polícia Civil prendeu suspeitos de aplicar golpes em turistas na praia, com vendas extorsivas, como um cigarro vendido a R$ 1.000 e uma caipirinha a R$ 20.000. Segundo a investigação, cerca de 20 pessoas faziam parte do esquema, com vendas por máquinas de cartão.