Rubens Villela, um dos primeiros brasileiros a pisar na Antártida, morre aos 95 anos
BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - Tudo começou no ouvido. As novidades no interior paulista chegavam pelo rádio para Rubens Junqueira Villela. Chegou junto a paixão pelo meio de comunicação. Eventualmente, tudo isso desembocou em sua ida à Antártida em 1961, tornando-se um dos primeiros brasileiros a pôr os pés lá. Com 12 visitas ao continente e 95 anos, ele morreu no fim da madrugada desta quarta-feira (21).
"Eu tinha um hobby que era a radiotelegrafia. Isso me permitia captar sinais das expedições antárticas. A expedição Finn Ronne de 1947 é que me iniciou. Ele tinha uma estação de rádio que transmitia", disse Rubens, em entrevista ao podcast Polarcast, em 2021. "As descrições que ele fazia, voos de reconhecimento em regiões desconhecidas... para mim era fantástico. Eu tinha na época 18 anos."
Apesar de ter nascido na cidade de São Paulo, Rubens passou a maior parte da infância na fazenda de café Belo Horizonte, no município de Cristais Paulista. Foi lá que começou a paixão pelo rádio, pelo qual acompanhou, por exemplo, ainda criança, as notícias sobre a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
O ouvido acabou o guiando para a telegrafia, forma de comunicação que consistia em receber --potencialmente por rádio-- sinais codificados -o código Morse- e transformar o que foi recebido em uma mensagem inteligível.
A audição para a coisa era tão afinada que nem mesmo problemas no sentido e o uso de um aparelho auditivo conseguiram silenciar tal paixão. "A fonoaudióloga ficava impressionada. Ele ouvia pouco alguns sons, mas, quando se tratava desses toques, aquilo para ele estava incrustrado", diz o filho Franco Nadal Junqueira Villela, 49.
Além da paixão pelo rádio, na juventude Rubens fazia anotações sobre as condições do tempo. Foi para os Estados Unidos estudar engenharia, mas se encontrou em uma disciplina eletiva de meteorologia. Acabou indo para a Universidade Estadual da Flórida, onde se formou no tema.
Ainda nos EUA, morou na capital Washington. Em meio à Guerra Fria e com conhecimentos de telegrafia, acabou realizando trabalhos para a CIA, a agência de espionagem norte-americana, conta o filho Franco.
A primeira pegada brasileira no polo Sul, em 61, ocorreu justamente durante essa estadia nos EUA. Ao descobrir uma expedição para a Antártida, buscou por meio da Marinha americana uma vaga no navio Glacier. Foi em duas viagens, naquele mesmo ano, ao polo Sul. Na segunda, de avião, tornou-se o primeiro brasileiro a chegar a pisar no polo Sul geográfico. Conseguiu ainda apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) no meio do caminho.
Voltou ao Brasil com ideias. Porém, antes de concretizar uma reunião marcada com o então presidente João Goulart, veio o golpe militar de 1964, diz o filho. Alguns anos depois, acabou indo ser professor em Cuba -onde, segundo Franco, recebia olhares um tanto tortos pelo tempo que havia passado nos EUA.
Regressou ao Brasil ainda durante a ditadura, com ajuda de amigos nos lugares certos, após conseguir um novo passaporte, buscando esconder seu tempo em Cuba.
Era "de ouvido" que Rubens fazia previsões do tempo. Ouvia, pelo telégrafo, transmissões de dados meteorológicos da América do Sul e desenhava os mapas das condições de tempo. Fazia isso também para seus alunos terem ideia da experiência. Foi professor no IAG (Instituto Astronômico e Geofísico) da USP da década de 1970 até o ano 2000. Continuou usando esse método até quando foi possível.
Nesse meio tempo, fez parte da primeira missão oficial brasileira à Antártida, em 1982, a bordo do navio oceanográfico da USP Professor W. Besnard. Rubens, dessa forma, esteve presente na gênese do programa Proantar (Programa Antártico Brasileiro).
O meteorologista também foi ativo no Aeroclube Politécnico de Planadores, que chegou a ter uma pista de pouso dentro da cidade universitária da USP e que hoje se encontra em Jundiaí. Tratando-se de planadores, o trabalho com as condições do tempo é importantíssimo.
Rubens integrou ainda a equipe do navegador Amyr Klink que foi à Antártida.
A história de Rubens teve espaço para o avistamento de luzes que, para ele, não poderiam ser um fenômeno meteorológico ou astronômico. A partir disso, passou a se interessar por ufologia. "Ele acabou se aproximando dessa área, que não é uma ciência. Dedicou-se algum tempo a isso", diz Franco.
"Eu acho que é impressionante algumas coisas... como ele transitou em mundos tão distintos", afirma o filho que, crescendo em meio ao imaginário antártico, acabou também se tornando meteorologista. Ele faz parte do projeto antártico brasileiro Criosfera 1. O irmão de Franco, Fernando, 52, seguiu linha parecida, virou geógrafo e trabalha na área referente à base brasileira antártica Comandante Ferraz.
Rubens deixa, além dos dois filhos -e dois netos, de 13 e 11 anos-, a esposa Marqueza Nadal Villela, 92.
Deixa também, é claro, a história de como um brasileiro foi guiado até a Antártida por seu ouvido.
