Com chuva, Cantareira recupera nível ainda sob risco para próximo período seco

Por LUCAS LACERDA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com a chuva registrada nos últimos dias na região do Cantareira, o reservatório recuperou cerca de dois pontos percentuais de volume útil, chegando a 21% na última quarta-feira (21), nível mais alto desde 30 de novembro do ano passado.

Painel da Sabesp atualizado às 9h desta quinta-feira (22) indicava registro de 45,8% do total de chua esperado para o mês. Em números, foram 120,1 milímetros recolhidos no manancial, ante a média histórica de 262 milímetros.

O volume está no limiar entre as faixas de restrição (de 20% a 30%) e a especial, a quinta e pior no regime de retirada de água do Cantareira. Se ao fim deste mês o nível ficar abaixo dos 20%, a captação de água, hoje em 23 mil litros por segundo, será limitada a 15,5 mil litros por segundo.

Enquanto corre para adiantar a conclusão de obras como a da captação no rio Itapanhaú, que começou a funcionar com geradores para adicionar água ao Sistema Integrado Metropolitano, a gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) espera que chova mais até o fim de março do que já se viu no início deste período chuvoso.

Como mostrou reportagem da Folha, a pasta de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística também considera positivo o volume de chuva em outros reservatórios, como o Alto Tietê, que também abastece a região metropolitana de São Paulo. O governo espera que o Sistema Integrado Metropolitano, que reúne outros reservatórios, chegue a 40% de volume reservado até o fim do período chuvoso.

Essa seria uma situação após chuva na média do período de janeiro a março, segundo previsão do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), que também monitora a situação.

Se chover 25% abaixo da média, o Cantareira chega ao fim de março com 28% reservados, e no caso de cair metade do volume esperado de chuva, com 20%. A data de 31 de março é usada como referência do fim do período chuvoso no Sudeste do país.

A torcida por 40% levaria o Cantareira a começar o período seco com o volume útil mais baixo desde 2016, quando o sistema se recuperava da crise hídrica da década passada (2014-2015), marcando, em 31 de março daquele ano, 36,1%. Para efeito de comparação, no fim de março de 2022, após a escassez de 2021, o Cantareira tinha 45,3% de reserva.

Os temporais dos últimos dias não costumam ser um bom sinal para a recarga de mananciais. De acordo com Luiz Pladevall, diretor da Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental), a ajuda vem das chuvas mais longas, moderadas e distribuídas. "Aquelas que encharcam o solo aos poucos, permitindo que a água infiltre até as camadas mais profundas", afirma o especialista.

Nos temporais, a água não infiltra, mas escorre diretamente para sarjetas, córregos e rios, especialmente em áreas altamente impermeabilizadas, com muita superfície de concreto e asfalto. Além disso, é preciso que a chuva caia nas áreas que escorrem para os reservatórios.

Captar a água das chuvas até esses pontos de reserva e captação seria um projeto de infraestrutura de longo prazo, diz Pladevall. "Isso exige planejamento e infraestrutura específica e inclui soluções como áreas de retenção, bacias de infiltração, recuperação de áreas de várzea, pavimentos permeáveis e proteção dos mananciais".

Não é, afirma o diretor, uma solução imediata.

Pladevall ainda não aponta uma tendência em relação às chuvas, no entanto. "O período chuvoso ainda tem chance de ficar acima da média, mas esse cenário pode tanto melhorar quanto piorar. Por isso, é preciso acompanhar a evolução dos próximos meses antes de cravar uma tendência."

Na quarta-feira (21), a Sabesp disse ter iniciado a obra para interligar a represa Billings ao sistema Alto Tietê, com previsão de incrementar a oferta de água em 4.000 litros por segundo, a um custo de R$ 1,4 bilhão.

A ação faz parte de um conjunto de medidas que também prevê o uso de água de tratamento de esgoto para recarga de mananciais e a expansão da Estação de Tratamento de Água Rio Grande, entre outras.