'Petróleo não é argumento para intervenção na Venezuela', diz cientista

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - "Não vai impactar o preço da gasolina no mundo, não vai prejudicar a China, não vai mexer no mercado de energia. Porque hoje não chega a 1 milhão de barris, não chega a 1% do petróleo que o mundo consome. Para esse volume sair de 1% para 3%, para 3 milhões de barris, seriam mais de cinco anos de investimento, talvez dez."

Dentre os motivos listados por Donald Trump para fazer uma intervenção na Venezuela, no começo deste mês, revitalizar a produção de petróleo do país sul-americano e baixar o preço dos combustíveis parecem os mais frágeis, afirma Roberto Schaeffer, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Especialista em energia e integrante do IPCC (Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas) desde 1998, Schaeffer desfia uma série de dados para mostrar que a aposta do presidente americano de reviver a produção venezuelana "de um ponto de vista racional, não faz sentido". Não apenas pelo caráter ambiental, mas pelo econômico.

Dona da maior reserva conhecida de petróleo no mundo, a Venezuela abriga em seu subsolo 303 bilhões de barris de um óleo muito pesado, viscoso, difícil de ser prospectado e refinado. "E caro", explica o professor. "Você precisa de muita energia. Às vezes tem que aquecer o óleo antes de sair, senão ele não flui. É um óleo muito caro e difícil de tirar."

Há outras desvantagens. Com alto teor enxofre, 4% a 5%, também custa mais para ser refinado. "Por ser um óleo pesado, significa que você não tira grandes frações dos derivados leves, que é o que, de fato, o mundo quer. O mundo quer gasolina, diesel, que não é tão leve, mas é leve. O mundo quer querosene de aviação. Para produzir derivados leves de um óleo pesado, você tem que ter uma refinaria muito mais complexa, quebrar grandes moléculas. Tudo é mais complicado. Do ponto de vista técnico, não faz sentido."

Schaeffer, cientista e com larga experiência internacional, analisa outras hipóteses para o fato de Trump usar o petróleo como justificativa da captura de Nicolás Maduro em plena Caracas.

A primeira, em busca da atenção de seu eleitor médio, seria procurar derrubar o preço da gasolina nas bombas americanas; o próprio presidente americano, na semana passada, usou o argumento para explicar sua doutrina agressiva em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Outra hipótese, de caráter geopolítico, seria atingir a China, até então destino de cerca de 80% das exportações venezuelanas de petróleo. "Em geopolítica vale tudo, mas também aqui não tem muita lógica", diz o professor.

"Hoje, o que a Venezuela produz por dia não chega a um milhão de barris. O Brasil deve estar produzindo quase quatro milhões. A capacidade de produção venezuelana já chegou a três milhões, porém não é trivial fazer uma capacidade que já existiu voltar a operar. Isso provavelmente é coisa de anos. Podem ser três, quatro, cinco anos, eventualmente mais."

O gargalo não é apenas a infraestrutura do país que está sucateada, algo que Trump delegou às petrolíferas americanas resolver, mas também a falta de refinarias. "Há muito tempo, com exceção da China, Oriente Médio um pouco, ninguém tem feito novas refinarias. E por que não? Dificilmente se consegue uma instalação em menos de 10 anos ?talvez os chineses consigam em 5 ou 6 anos. E, para ela se pagar, em princípio, é coisa de 20 ou 30 anos."

Isso significa que o investidor da refinaria precisa ter garantia de que haverá comprador por um período superior a isso. Para piorar, os prazos ficaram mais apertados logo depois do Acordo de Paris, assinado em 2015, que prevê a neutralidade de emissões em 2050.

Ou seja, um planeta produzindo e absorvendo dióxido de carbono em proporções parecidas; queimando muito menos combustível fóssil, algo como a metade do consumo corrente global.

Schaeffer é um dos autores do relatório Lacuna de Produção, elaborado pelo Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI, na sigla em inglês), pela Climate Analytics e pelo Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD). No ano passado, o levantamento, que radiografa as ambições dos produtores e os respectivos impactos ambientais, mostrou que os governos planejam produzir mais do que o dobro de combustível fóssil compatível com um aquecimento global de 1,5°C.

Ainda assim, parece improvável ver carros rodando a gasolina ou diesel daqui a 30 ou 40 anos. "Há ainda a questão tecnológica. Artigo deste mês na Nature mostra que 80% das tecnologias críticas são lideradas pela China. Não é com motor a combustão interna que os EUA vão ganhar qualquer corrida tecnológica."

Um milhão de barris diários pode fazer alguma diferença para refinarias americanas ociosas no golfo do México, mas é incapaz de alterar os rumos do mercado americano, muito menos do cenário mundial, que vive excesso de produção neste momento. "E, se a China tiver que sair comprando petróleo em outro lugar, a tendência do preço é subir, não cair."

Se falta coerência na política energética de Trump, no aspecto ambiental o potencial de estrago extrapola a baixa qualidade do óleo e os riscos inerentes à precária infraestrutura venezuelana. Schaeffer já teme pela agenda do semestre, cujo destaque seria a conferência organizada por Colômbia e Holanda, em abril, em torno da eliminação gradual dos combustíveis fósseis.

"A discussão climática cientificamente faz sentido, mas, politicamente, não sei ao que vai levar, porque o mundo está muito esquisito", diz o professor. "Seria melhor os cientistas entrarem em férias coletivas, voltarem daqui a três anos descansados, com boas ideias, do que ficar gastando energia agora."

Daqui a três anos, com mais ou menos petróleo, o governo Trump acaba. "Se daqui a três anos o mundo voltar à racionalidade", pondera Schaeffer.