São Paulo tem aumento de mortes relacionadas a temporais, apesar de chuva dentro da média

Por LUCAS LACERDA E ANDRÉ FLEURY MORAES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As quatro mortes relacionadas a temporais que São Paulo registra desde dezembro já superam as três contabilizadas durante toda a operação SP Sempre Alerta, da Defesa Civil paulista, no verão anterior. Foram três casos registrados de dezembro de 2024 a março de 2025 ?o período de chuvas.

No âmbito estadual, por sua vez, são 13 óbitos registrados de 1º de dezembro até agora. Os números constam de relatório do governo divulgado nesta segunda-feira (26). Foram 5 mortes por enxurradas ou enchentes, 3 por desabamento e 1 por deslizamento, além de 4 na categoria "outros". Na operação passada foram 18.

Especialistas ouvidos pela reportagem dizem que não há um cenário excepcional de chuvas neste ano, mas apontam para a falta de projetos para a retenção de água como parte do problema de drenagem. A gestão Ricardo Nunes (MDB) afirma ter investido R$ 9,3 bilhões no sistema de drenagem e diz já ter obras de absorção hídrica tanto em funcionamento como em vias de se concretizar.

A mais recente das mortes foi a de Romeu Maccione Neto, 75, que se afogou durante um temporal na Vila Guilherme, zona norte da capital paulista, no domingo (25).

Pouco antes, em 16 de janeiro, o motorista de aplicativo Marcos da Mata Ribeiro, 68, e a costureira Maria Deusdete, 67, morreram após o carro onde estavam ser arrastado até o córrego do Morro do S, na Vila Andrade. Em 10 de dezembro, Claudineia Perri Castiglioni, 54, morreu atingida por um muro que caiu durante uma ventania.

Dados do CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas) da Prefeitura de São Paulo mostram que janeiro acumula 211,2 milímetros de chuva até esta segunda, o equivalente a 82,4% dos 256,4 milímetros esperados para o mês.

Não é possível dizer que os temporais estão piores em 2026, diz a meteorologista da Climatempo Josélia Pegorim. Segundo ela, "a chuva de janeiro [no ano passado] caiu praticamente toda concentrada na última semana do mês".

"Neste ano ela está melhor distribuída ao longo do mês e as pancadas de chuva estão mais regulares. Tivemos chuvas praticamente diárias desde o dia 7", afirma. "O total acumulado em janeiro de 2025 foi de 334,2 mm, mas lembrando que quase metade da chuva caiu no dia 24 de janeiro [144,1 milímetros]."

Diretora do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), Regina Alvalá vê uma concentração de chuvas nos últimos dias em meio a um cenário de precipitação abaixo da média.

"O regime de chuvas tem sido irregular nos últimos anos e, de modo geral, chuvas abaixo da média têm prevalecido", afirma.

Do ponto de vista urbano, dizem especialistas, o problema não está nas chuvas em si, mas no preparo da cidade para recebê-las. Para eles, faltam projetos para ampliar áreas destinadas à absorção e retenção de água ?e não apenas o seu escoamento.

É o conceito das chamadas cidades-esponja, que consiste em "segurar a água nas partes altas da bacia hidrográfica, reduzir a velocidade do fluxo no meio do caminho e acomodá-la houver espaço lá embaixo", diz Paulo Pellegrino, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP.

Avaliação semelhante faz o coordenador do programa Cidades +2º, do Centro de Estudos das Cidades do Insper, Élcio Batista. Para ele, São Paulo hoje paga o preço por obras como a canalização de rios ou enterramento de afluentes.

Não são problemas recentes ?a canalização do ribeirão Anhangabaú e a retificação dos rios Tietê e Pinheiros, por exemplo, datam todas do século passado?, mas que tendem a se agravar num cenário de mudanças climáticas.

A questão está em como evitar que desastres aconteçam.

Piscinões são empreendimentos importantes que se tornam ainda mais relevantes se acompanhados de soluções baseadas na natureza, afirmam os especialistas. "Se você dá mais espaço a jardins de chuva, parques lineares e traz de volta rios antes tamponados, você amplia sua capacidade de lidar com eventos extremos e melhora o sistema de drenagem", diz Batista.

São obras caras num primeiro momento porque exigem ao ente público "se desfazer de tudo aquilo que já foi feito". O custo-benefício, afirma o professor, está no longo prazo: o valor de manutenção desses espaços é menor e a eficiência contra as enchentes, maior.

A gestão Nunes afirma trabalhar em todas as frentes.

No caso dos reservatórios, por exemplo, diz que já entregou seis piscinões enquanto oito, ainda em fase de obras, têm previsão de entrega até 2027. Há outros três contratados e um em fase de licitação.

"Juntos, os 18 novos reservatórios podem armazenar até 1,8 milhão de metros cúbicos de água, volume equivalente a aproximadamente 750 piscinas olímpicas", diz a prefeitura. "São 70 piscinões na cidade, 55 sob administração municipal e 15 sob responsabilidade do Governo do estado. Além disso, no mesmo período, foram concluídas 207 intervenções para canalização e contenção de margens de rios e córregos e 85 obras de drenagem."

A gestão Nunes faz ainda o diagnóstico de bacias hidrográficas na capital para propor soluções individualizadas de drenagem a cada uma dessas regiões. A medida é parte do Plano Municipal de Drenagem.

Os R$ 9,3 bilhões investidos de 2021 até agora, afirma a administração municipal, são "mais que o dobro do valor de gestões anteriores entre 2011 e 2020".

Parte dessas ações dialoga também com o conceito de cidade-esponja citado pelos entrevistados. Isso inclui, conforme a prefeitura, "473 jardins de chuva em funcionamento na cidade, outros 99 em execução, além de 121 parques municipais, 23 dos quais lineares".

Há também soluções baseadas na natureza, acrescenta a prefeitura ao citar "o reservatório da lagoa Aliperti e as duas células no Núcleo Reserva do Ribeirão Perus, ambos em operação, além do lago das Capivaras do parque do Horto Florestal, que está em fase de obras".

Em fase de projetos, por sua vez, o governo cita a praça de infiltração da avenida Nove de Julho, na região do túnel embaixo da avenida Paulista, a abertura de trechos do córrego Sapateiro e a renaturalização das margens do riacho do Ipiranga.

A gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), por sua vez, afirma ter feito mais de R$ 25 bilhões em investimentos voltados à segurança hídrica e ao combate às enchentes.

Cita também investimentos na marginal Tietê e obras de macrodrenagem em áreas densamente povoadas, como o piscinão Jaboticabal, entregue em dezembro, e outro reservatório em Franco da Rocha.

O estado ainda menciona uma PPP (parceria público-privada) destinada ao desassoreamento e retirada de macrófitas e a operação e manutenção das barragens. O projeto inclui limpeza e conservação de equipamentos, ampliação da remoção de lixo superficial dos rios Tietê e Pinheiros, além de paisagismo nas margens que contribuirão na prevenção contra enchentes.