Carnaval carioca tem atrito entre dirigentes e críticas por tentativa de restringir evento gratuito
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A menos de um mês do Carnaval, a principal liga que organiza o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro lida com um atrito entre dirigentes e críticas do público por suposto elitismo em eventos gratuitos.
O disputa se dá entre lideranças da Liga RJ, que organiza os desfiles do grupo de acesso, e a direção da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio), que cuida do Grupo Especial.
A Liesa é presidida por Gabriel David, filho do contraventor Anísio Abrão David, patrono da Beija-Flor.
A Liga RJ diz que a Liesa tem impedido escolas menores de usar o sambódromo. A principal reclamação é sobre contratos: os desfiles são patrocinados por uma cervejaria e a Liga RJ argumenta que o valor do patrocínio é distribuído apenas entre as escolas do Grupo Especial.
O contrato, na visão do grupo, impede que a Liga RJ assine de maneira independente com outra cervejaria.
A Liesa disse em nota que "nunca foi procurada oficialmente para tratar das questões levantadas publicamente".
"As portas permanecem abertas para um diálogo institucional sério, uma vez que o Carnaval é um espaço cultural que deve ser tratado com responsabilidade", afirmou a entidade.
A Liga RJ protocolou um documento na Riotur, empresa pública da prefeitura que cuida dos desfiles, pedindo isonomia. A organização fala em "denúncias públicas de perseguição, intimidação e retaliações institucionais".
A entidade diz que esteve presente a uma reunião na Riotur na última sexta-feira (23) para solucionar as demandas, mas que a Liesa faltou.
"Vou querer sempre que as minhas 15 escolas tenham respeito, que não sejam minorizadas em relação às demais. As escolas da Série Ouro [o grupo de acesso] não deixam nada a desejar", afirma Hugo Júnior, presidente da Liga RJ. "Queremos a revisão do contrato. A cessão da Sapucaí na sexta e no sábado, dias do desfile do grupo de acesso, é disponibilizada como se fosse um favor. Mas a gente contribui tanto quanto a Liesa para o espetáculo acontecer."
O Grupo Especial possui 12 escolas, e a Série Ouro, outras 15. A cada ano, uma escola cai e outra sobe. As subvenções públicas do governo do estado e da prefeitura são distribuídas para as duas divisões, em valores maiores às escolas do grupo especial.
Outra reclamação é sobre a diminuição das credenciais. A Liesa tem sido mais seletiva para a distribuição de acessos aos desfiles, e a Liga RJ reclama que até presidentes das escolas de samba tiveram credenciais indeferidas.
A Liga RJ ainda acusa a Liesa de impedir que a Porto da Pedra, escola do acesso, compre um camarote.
"Camarotes são comprados por empresas sem relação com Carnaval. Uma escola de samba tenta comprar um camarote e tem seu pedido negado. Qual a justificativa?", diz Hugo Júnior.
Em outro flanco, Gabriel David sofreu críticas do público depois de anunciar um novo sistema de acesso para os ensaios técnicos na Marquês de Sapucaí. Quem quisesse assistir teria que instalar um aplicativo no celular e gerar um código para acessar às arquibancadas.
A novidade foi justificada como controle de capacidade. O anúncio do ingresso, ainda que gratuito, gerou reclamação nas redes sociais. Seguidores apontaram exclusão do público que não tem afinidade com uso de plataformas digitais.
Os ensaios técnicos, que começaram em 2006, tornaram-se parte do calendário da cidade. Parte do público é formada por torcedores que não conseguem comprar ingressos para o desfile.
Diante da crítica, Gabriel David recuou e anunciou um formato híbrido: os ingressos serão abolidos e o público deverá passar por uma catraca, que vai contabilizar a lotação das arquibancadas, para evitar ultrapassar a capacidade.
"Essa iniciativa ocorre após ouvir o público, realizar nova avaliação técnica e pedir permissão aos órgãos de segurança, que haviam determinado o controle em reunião no Centro de Operações Rio (COR) para evitar problemas como os existentes no passado, como a superlotação", afirmou a Liesa.
