Museu sob a marquise do Ibirapuera relata 'graves problemas de infiltração' após alagamento do espaço

Por MARIANA ZYLBERKAN

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Museu de Arte Moderna (MAM) relatou "graves problemas de infiltração" após o temporal que alagou a marquise do parque Ibirapuera. A sede do museu faz parte da estrutura reaberta ao público no último dia 24, após obras de recuperação.

Em ofício enviado à gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), nesta quinta-feira (29), a direção do MAM disse que "foi constatado o transbordamento de todas as caixas de areia das descidas de águas pluviais internas no MAM", em decorrência do temporal.

O documento também relatou "inúmeras infiltrações na caixilharia, indicando possível falha no sistema de drenagem e/ou vedação". O trecho se refere à estrutura de janelas da sede do museu. O MAM foi procurado para comentar o ofício, mas não respondeu.

A marquise do Ibirapuera estava fechada desde 2020, após sucessivas interdições causadas por quedas de pastilhas e infiltrações no teto da estrutura.

Em nota, a gestão Nunes afirmou que recebeu o ofício do MAM e que o documento está em análise. Em relação ao alagamento da marquise, a administração negou relação com as obras de requalificação e disse que a culpa foi da "forte intensidade das chuvas, uma vez que a marquise está localizada em uma área mais baixa do parque, que recebe grande parte do escoamento das águas."

A Urbia, concessionária do parque Ibirapuera, foi procurada e não comentou o ofício enviado pela direção do MAM. Sobre o alagamento da marquise, a empresa afirmou que o sistema de drenagem da construção teve "ótimo desempenho", e que a água que veio de áreas externas "em razão da sobrecarga do sistema público de drenagem."

Iniciada em 2024, as obras de recuperação custaram R$ 84 milhões e foram conduzidas pela Urbia com recursos da gestão Nunes. A sede do museu foi incluída no projeto de reestruturação e entregue na última segunda-feira (26).

A sede do museu é um dos equipamentos integrados pela marquise projetada por Oscar Niemeyer em 1954, entre eles, a Oca e o Museu Afro Brasil.

Para o professor Valter Caldana, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Mackenzie, o alagamento da marquise dias após a reabertura ao público pode ter ocorrido devido a um problema na base da estrutura, onde ficam os pontos de vazão de água pluvial.

Ele explica que o sistema é composto por caixas interligadas abaixo do piso, muitas vezes preenchidas por areia ou brita, que absorvem a água da chuva e dão vazão para até o ponto de descarte.

O professor ressalta também o aumento do volume de chuvas em decorrência das mudanças climáticas como um agravante das falhas do sistema de drenagem da marquise. "As edificações foram calculadas para conter um regime de chuva diferente do atual. A média das chuvas subiu e a frequência dos picos está cada vez maior", diz. "Mudou a relação física das construções com o meio ambiente."

O temporal da última terça deixou 81 mil clientes da Enel sem energia, sendo 75,4 mil apenas na capital. Ao menos uma pessoa morreu: um funcionário da distribuidora que estava executando um serviço no Butantã.

Em relação aos problemas de infiltração relatados pela direção do MAM, o professor citou a falta de fiscalização das obras públicas. "As obras apresentam patologias muito rápido, pouco tempo depois de serem entregues", diz. "São patologias que deveriam demorar mais para acontecer, e a somatória degrada a estrutura porque não existe uma política de manutenção eficiente pelos órgãos públicos."

Questionada, a gestão Nunes informou que a concessionária realiza estudos técnicos para aprimorar o sistema de drenagem do parque, e que acompanha os trabalhos da Urbia.