Reforço no Cantareira chega à metade da água de rio que também abastece o RJ

Por LUCAS LACERDA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ainda com menos de um terço de sua capacidade, o sistema Cantareira recebe, desde o ano passado, água do rio Jaguari, na bacia do rio Paraíba do Sul, para manter os níveis de abastecimento.

Considerando a vazão natural média de 20 m³/s (ou 20 mil litros por segundo) em janeiro, o reforço ao reservatório paulista, com média de 8,4 m³/s no primeiro mês de 2026, chegou à quase metade da água que correu naturalmente no Jaguari, que também abastece a população fluminense.

Em fevereiro, a retirada de água do Cantareira, uma das principais fontes de abastecimento da capital paulista e de sua região metropolitana, continua sob a faixa de restrição, a segunda mais grave de cinco níveis. A situação se mantém desde outubro do ano passado e não ocorria desde janeiro de 2022. O abastecimento também continua a contar com o reforço da transposição ao longo do mês.

Dados desta quarta-feira (4) indicavam 24% de volume reservado no Cantareira e 36,3% em todo o Sistema Integrado Metropolitano.

"Com o Sistema Cantareira operando em faixa de restrição, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) continuará autorizada a retirar do sistema até 23 m³/s, podendo também utilizar em fevereiro, como medida de mitigação, vazão adicional correspondente à vazão transposta do reservatório da Usina Hidrelétrica (UHE) Jaguari, na bacia do rio Paraíba do Sul", diz comunicado da SP Águas, agência do Governo de SP.

Dados da última quinta-feira (30) da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) mostram que, a transposição de água do Jaguari tem se aproximado lentamente do limite de 8,5 m³/s. Nessa operação de transposição, a água chega ao Cantareira por meio da represa de Atibainha, uma das que compõem o sistema, com Jaguari-Jacareí, Cachoeira, Paiva Castro e Águas Claras.

O sistema hoje é considerado mais adaptado a situações de escassez por permitir a transferência de água entre os reservatórios, mas a situação continua delicada. "Vai-se compensando o nível dos reservatórios, mas sempre operando em um volume muito baixo", diz o coordenador de conhecimento e difusão do IAS (Instituto Água e Saneamento), Eduardo Caetano.

Ele também aponta que a Sabesp tem aumentado gradativamente a quantidade de água retirada, que está próxima do limite.

Dante Ragazzi, integrante do conselho diretor da Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental), também alerta para o alcance restrito da medida. "A transposição de água do Paraíba do Sul para o Cantareira dá um alívio operacional adicional, mas não muda o fato de que a região ainda enfrenta um contexto sério de escassez hídrica."

Ele defende reforço nas medidas de economia e foco na contenção da demanda, "por mecanismos regulatórios que incentivem a redução do consumo."

São Paulo já depende da transferência há algum tempo, afirma Caetano, do IAS, e a situação mostra que a segurança desse artifício também já está chegando ao limite. "O único período em que ficou desligada, afinal é um recurso de segurança, foi em torno da recuperação que o Cantareira teve entre 2022 e 2023, quando chegou a ter nível de 75%."

De acordo com o Ceivap (Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul), órgão deliberativo responsável pelos recursos hídricos da bacia, a situação não representa risco para o abastecimento no Rio de Janeiro, que também depende da água proveniente do conjunto do Paraíba do Sul.

Em 30 de janeiro, o sistema equivalente estava em 38,92% de sua capacidade. No Jaguari, o nível estava em 45%. Como o sistema do Paraíba também contempla outros reservatórios, o comitê afirma não ser correta a comparação do volume transposto com a vazão natural de Jaguari.

Ao longo do ano, a transferência anual de água tem um limite de 162 hectômetros cúbicos (hm³), o equivalente a 162 bilhões de litros. "Em 29 de janeiro de 2026, o volume acumulado efetivamente transferido somava 21,1 hm³, o que representa aproximadamente 13% do volume anual autorizado", disse a SP Águas.

Procurada, a Sabesp afirmou que a interligação Jaguari-Atibainha é operada sob as regras e limites estabelecidos por órgãos reguladores. "Ela permite a transferência de até 162 bilhões de litros por ano, o que representa um acréscimo potencial de aproximadamente 16,5% no volume anual do Sistema Cantareira, que possui capacidade útil de armazenamento de 982 bilhões de litros."

Também mencionou alternativas para abastecer regiões com dois ou mais mananciais, substituindo as fontes de água. "Antes da crise hídrica, essa interligação conseguia mudar a fonte de água nas casas numa vazão de 3 m³/s. Atualmente, essa flexibilidade passa de 13 m³/s. Essa estratégia tem sido usada para reduzir a área de atendimento do Cantareira e, assim, diminuir a retirada de água das represas."

Já a SP Águas disse que "a operação da transposição das águas da UHE Jaguari tem caráter preventivo e estratégico, sendo utilizada como instrumento de reforço da segurança hídrica, sempre dentro dos limites regulatórios e sem prejuízo aos demais usos da bacia do Rio Paraíba do Sul." A agência da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) também diz que a vazões naturais estão abaixo da média histórica, apesar de recuperações pontuais associadas a chuvas.