Tropas de elite da PM paulista puxaram aumento do número de mortes em 2025
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O aumento na quantidade de mortes provocadas por policiais no estado de São Paulo de outubro a dezembro de 2025 ?trimestre que teve o recorde da letalidade policial desde 1996, com 276 casos? foi puxado por ações da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) e dos Baep (Batalhões de Ações Especiais de Polícia).
Esses batalhões, que recebem treinamento especializado no combate a grupos armados e são considerados tropas de elite dentro da Polícia Militar paulista, envolveram-se em ocorrências que terminaram em mortes não apenas com frequência maior, mas também em quantidade maior de municípios.
A ampliação nos territórios que registraram ações letais da polícia foi maior no interior paulista, mas também ocorreu na região metropolitana de São Paulo. Ao mesmo tempo, o estado registrou 2.527 vítimas de assassinato no ano passado, o menor patamar registrado na série histórica, que começou em 2001. A média é de um caso a cada três horas e meia, aproximadamente.
Conhecida pelo alto índice de letalidade, a Rota foi o batalhão da PM que mais matou no ano passado. Um total de 67 mortes envolveram agentes do batalhão em 2025, sendo que 17 ocorreram de outubro a dezembro. A maioria dos casos ocorreu com agentes em serviço ?4 mortes foram provocadas por policiais de folga.
Além disso, sete Baep ficaram entre os dez batalhões que mais mataram no último trimestre do ano. Entre eles destaca-se o 10º Baep, com sede em Piracicaba. O número de mortes provocadas por policiais que atuam nele cresceu de 11 em 2024 para 40 no ano passado.
O Baep de Piracicaba é um exemplo da expansão das ações letais da PM para novos municípios. Em 2024, o batalhão se envolveu em ocorrências com mortos em cinco cidades. No ano passado, as 40 mortes foram registradas em 14 municípios diferentes.
A maior parte dos casos ocorreu em Rio Claro (com sete mortos) e Hortolândia (seis mortos). Todos os casos ocorreram em serviço, ou seja, eram ações oficiais da PM. As informações são do Gaesp (Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública) do Ministério Público de São Paulo, único órgão que informa a letalidade por batalhão da PM.
Embora publique outros detalhes das ocorrências, como geolocalização e perfil da vítima, a Secretária de Segurança Pública do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) não informa a unidade envolvida em cada morte decorrente de intervenção policial. Há pequenas discrepâncias entre os dados da pasta e do Ministério Público, o que pode decorrer de erros pontuais nas bases de dados.
Enquanto Piracicaba e Rio Claro tiveram quedas nos registros de homicídios dolosos entre 2024 e 2025, Hortolândia teve aumento (de 13 para 15 casos). A região de Piracicaba como um todo teve quedas nos assassinatos, segundo dados da secretaria estadual.
Segundo a pasta, Rota e Baep envolvem-se "operações sensíveis, de alta complexidade e risco, com atuação integrada com setores de inteligência", o que influencia na letalidade das ocorrências. A secretaria afirmou, em nota, que "esses fatores, somados à intensificação do combate a facções criminosas com atuação na região e no estado, influenciam diretamente o tipo de ocorrência enfrentada pelas equipes".
A pasta destacou que todas as ocorrências com mortes são investigadas de forma independente, e que mais de 1.200 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos das corporações por desvios de conduta desde 2023. Além disso, aponta que o patamar de mortes provocadas por policiais está menor se comparado aos três primeiros anos da gestão anterior, de João Doria (ex-PSDB, hoje sem partido)
Para o sociólogo Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, há indícios de que o enfraquecimento de políticas de controle da força policial influenciou a trajetória o aumento da letalidade policial desde o início do mandato de Tarcísio, em 2023.
Ele cita a mudança de regras para o acionamento das câmeras corporais da PM e o declínio da atuação das Comissões de Mitigação de Riscos ?grupos formados por oficiais da corporação que analisavam os detalhes de cada ocorrência com morte no estado.
Rocha afirma, porém, que o último trimestre de 2025 registou um aumento atípico das mortes provocadas por policiais, e que ainda não há informações suficientes sobre as ocorrências para entender o que ocorreu no período.
"É um movimento oposto ao que ocorreu no último trimestre de 2024, que teve uma série de casos de violência policial, do jovem estudante assassinado pela polícia dentro do hotel ao rapaz arremessado da ponte, que gerou uma resposta pública", disse o pesquisador.
Ele não descarta que mudanças na atuação do crime organizado expliquem aumento nas mortes provocadas pela polícia em algumas cidades ?especialmente na região de Piracicaba, onde autoridades relatam que houve confrontos entre criminosos ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital) e ao Comando Vermelho. Rocha descarta que essa explicação sirva para todo o estado.
Sobre os Baep, o pesquisador lembra que esses batalhões viveram uma rápida expansão durante o governo Doria, visando combater crimes do chamado "novo cangaço" ?assaltos a bancos ultraviolentos em cidades do interior.
A promessa era ter batalhões "padrão Rota" ?com o mesmo treinamento tático de batalhões especializados da capital, armados com fuzis e equipados com viaturas melhores? em todo o interior. Para Rocha, num contexto em que o novo cangaço caiu em declínio, os Baep ficaram deslocados do tipo de policiamento que a maior parte dos municípios demanda: comunitário, que conheça a comunidade onde atua.
Já de acordo com o coronel da reserva Benedito Meira, comandante-geral da PM de 2012 a 2015, o aumento da letalidade policial se explica por uma mudança comportamental dos criminosos, que estariam provocando mais confrontos com policiais. Ele diz que o fortalecimento financeiro das facções criminosas, a partir do tráfico de drogas, traz a capacidade de investir em armamentos mais pesados e provoca mais enfrentamentos letais com a polícia.
"Às vezes uma ocorrência simples, um assalto comum, tem um confronto provocado pelo assaltante e acaba com letalidade. Está ocorrendo uma banalização da violência", diz o coronel. "Nas cidades mais ricas do interior, onde circula mais dinheiro, o crime organizado está mais fortalecido financeiramente por causa da venda de drogas."
