Cordão do Boitatá completa 30 anos e estreia no circuito de megablocos no centro do Rio
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Mesmo com a previsão de chuva ao longo do domingo (8), confirmada por pancadas moderadas que se alternam com períodos de trégua desde o início da manhã, os foliões do Cordão do Boitatá ocupam o centro do Rio de Janeiro para acompanhar o desfile que marca os 30 anos do bloco. A instabilidade do tempo não foi suficiente para afastar o público fiel, que se concentrou na rua Primeiro de Março, no circuito reservado aos megablocos.
Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade, o Boitatá desfila pela primeira vez nesse trajeto ampliado, que conta com maior infraestrutura, interdição total das vias e apoio operacional da prefeitura.
A estreia ocorre no ano em que o bloco celebra três décadas de atuação e simboliza um novo momento na relação com o poder público, após anos de reivindicação por um percurso compatível com o tamanho do cortejo.
Para o desfile comemorativo, o grupo preparou um repertório especial, com arranjos próprios e homenagens à cantora Preta Gil, que dá nome ao circuito, e ao multi-instrumentista Hermeto Pascoal. Com mais de 200 músicos, o cortejo atravessa o centro do Rio levando à rua uma proposta baseada em pesquisa musical, ensaios intensivos e valorização da tradição do carnaval de rua.
Fundado em 1996 por um grupo de amigos interessados em festas populares e no resgate de gêneros tradicionais da música brasileira, o Boitatá surgiu quando o centro do Rio ainda ficava esvaziado durante o Carnaval.
Com um formato acústico e repertório baseado em marchinhas e canções clássicas, o bloco ajudou a impulsionar a retomada da folia na região, movimento que se intensificou a partir dos anos 2000 e transformou o carnaval de rua carioca.
Ao longo dessa trajetória, o crescimento do Boitatá acompanhou a expansão do próprio carnaval, hoje considerado uma das principais manifestações culturais da cidade e motor da economia local durante o período de folia.
Apesar do reconhecimento, o bloco enfrentou dificuldades operacionais em desfiles anteriores, com trajetos estreitos, falhas na interdição do trânsito e obstáculos no percurso, mesmo com autorizações oficiais.
Durante a concentração do bloco, ainda antes das 8h, a cantora Teresa Cristina chegou para integrar a ala de estandartes do Cordão do Boitatá, que homenageia personalidades ligadas ao carnaval e à resistência negra. Portelense e referência do samba, ela escolheu carregar o estandarte de Paulo da Portela, fundador da escola de Oswaldo Cruz.
À reportagem Teresa explicou a escolha ao destacar o papel de Paulo da Portela na organização e legitimação do Carnaval de rua no Rio. Segundo a cantora, nos anos 1930, antes de a festa ser oficializada, ele percorria casas do bairro pedindo autorização às famílias para levar os jovens para desfilar na então Vai Como Pode, nome original da Portela, garantindo que todos retornassem em segurança. "Foi assim que ele fundou a Portela. Um cidadão do samba. Uma pessoa importantíssima para o carnaval", afirmou.
Ainda segundo Teresa Cristina, o Boitatá ocupa um lugar simbólico no calendário da folia. "Para mim, o carnaval começa aqui, com o Boitatá. A partir daqui a gente sabe que não vai fazer mais nada da nossa vida, só falar disso durante uma semana", disse, ao associar o bloco à vivência do carnaval de rua no Rio.
Entre as fantasias, que iam das mais tradicionais do Carnaval de rua a criações inspiradas em polêmicas políticas e sociais, um folião chamou atenção ao desfilar com um grande chinelo cenográfico.
Marcello Ferreira, fisioterapeuta de 42 anos, disse usar o carnaval como espaço para se posicionar. "Aproveitei a problemática aleatória do comercial da Fernanda Torres e resolvi fazer o chinelo. Carnaval é isso. Eu sempre uso esse espaço para trazer meus posicionamentos", afirmou.
O figurino faz referência à campanha recente da Havaianas protagonizada pela atriz, que gerou debates e pedidos de boicote nas redes sociais após ser interpretada por grupos políticos como uma provocação ideológica.
Segundo Marcello, a fantasia foi confeccionada com isopor protegido por fita para evitar que o material quebrasse, revestido com EVA, além de um macarrão de piscina usado para formar a tira do chinelo.
