Decisão de blocos simultâneos na Consolação gerou apreensão e teve aval de Nunes
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A decisão de realizar o desfile de dois megablocos simultâneos na rua da Consolação, na região central de São Paulo, havia sido objeto de críticas na oportunidade em que foi anunciada, no fim de janeiro. A quantidade de público que era esperada causava apreensão em moradores da vizinhança e em foliões. Neste domingo (8), o receio se transformou em realidade quando tumultos derrubaram grades de isolamento e prensaram pessoas que participavam da festa.
Na oportunidade, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), conversou com a Folha e afirmou que havia estrutura suficiente para garantir a ordem e a segurança. Nunes disse no dia 27 de janeiro que o evento "vai ter toda estrutura de segurança e atendimento médico". Já a patrocinadora Ambev disse, em janeiro, seguir as regras dos órgãos competentes. Neste domingo, o prefeito ressaltou o reforço adotado na segurança e um plano de contingência acionado para evitar mais foliões na área (leia mais abaixo).
A confusão deste domingo ocorreu próximo da concentração do bloco de Calvin Harris. A reportagem viu uma série de pessoas passando mal e outras gritando por ajuda dos bombeiros. Um grupo começou a escalar grades de imóveis ao redor para tentar fugir do empurra-empurra. Alguns chegaram a invadir a área externa da Escola Paulista de Magistratura.
O estudante de administração Bernardo Andrade, 23, conta que estava na esquina da Consolação com a rua Piauí, onde estava concentrado o bloco de Calvin Harris, quando foi arrastado. "Não estava nem em pé, mas estava sendo carregado", disse o estudante, que foi ao local para ver o DJ e o cantor Natanzinho Lima. "Tentamos chegar bem perto do trio porque não dá para ouvir o som de longe", disse o estudante.
Após a queda das grades, houve empurra-empurra e a massa de pessoas fugiu para ruas transversais. A reportagem viu ao menos três pessoas sendo socorridas por bombeiros civis no meio da multidão.
Cenário foi antecipado por conselho de segurança e teve crítica de bloco
O espaço já era considerado inadequado para receber multidões, na avaliação feita em janeiro por Marta Porta, presidente Conselho Comunitário de Segurança dos bairros Consolação, Higienópolis e Pacaembu. "Com um único bloco já ficavam milhares de pessoas paradas no local de dispersão, imagine o que irá acontecer agora, com dois", disse na oportunidade.
Neste domingo, Marta voltou a avaliar a situação. "O que prognostiquei aconteceu. A quantidade de pessoas não é suportável no espaço. Pela quantidade de problemas que poderia ter acontecido, acredito que foi minimizado porque a Polícia Militar e a Subprefeitura da Sé fizeram uma organização excepcional, melhor que a do ano passado", disse, destacando que a quantidade de pessoas superou o limite da região. "Acredito que servirá de referência para não voltar a colocar dois megaeventos no mesmo dia no ano que vem."
Em nota no fim do mês passado, por ocasião do anúncio do desfile simultâneo, o Acadêmicos do Baixo Augusta afirmou ter sido surpreendido com a informação de um outro bloco no mesmo dia e trajeto e que esta era uma situação inédita.
Neste domingo, em nota, o Baixo Augusta citou "falta de organização" e "não cumprimento dos horários combinados". O bloco atrasou a saída da rua da Consolação em mais de uma hora "por questões de segurança" devido ao excesso de público do bloco da Skol com o DJ Calvin Harris, que ocupou a mesma via.
"Com 17 anos de história, o maior bloco da cidade e um dos maiores do Brasil foi desrespeitado de forma triste e violenta, mostrando a todos uma prova clara da falta de competência para realizar o que foi proposto e do compromisso da cidade com os blocos que recriaram o Carnaval de São Paulo", disse o bloco em nota.
Gestão municipal citou 'estudos técnicos' para liberar programação simultânea
No fim do mês passado, informada sobre as críticas de moradores e foliões, a São Paulo Turismo, órgão ligada à prefeitura, alegou que os dois blocos (Acadêmicos do Baixo Augusta e Bloco Skol, com o dj Calvin Harris) horários e trajetos distintos, com o objetivo de garantir a realização segura dos desfiles.
A prefeitura ainda afirmou que "toda organização espacial e temporal dos blocos leva em consideração estudos técnicos realizados pelos órgãos municipais para evitar sobreposição de desfiles, minimizar impactos à vizinhança e garantir a segurança dos foliões, especialmente nos momentos de dispersão".
Em nota neste domingo, a prefeitura disse que "o recorde de público em bloco na Rua da Consolação fez com que a administração liberasse as vias de acesso como áreas de escape e também determinou a retirada de gradis para melhorar a mobilidade dos foliões".
Por volta das 16h, disse a gestão municipal, o "desfile transcorria na região central sem incidentes e com atenção dos agentes da GCM e da PM para garantir a segurança dos foliões. A Prefeitura informa ainda que os postos médicos operaram para o atendimento de pessoas que procuraram o serviço".
A partir das 14h55, acrescentou a prefeitura, "foi acionado o plano de contingência com as seguintes ações: readequação das linhas de vida, abertura das transversais da Consolação para saída de público, a entrada de pessoas ao circuito Consolação foi bloqueada e a GCM assumiu a frente da linha de condução do trio elétrico para que esse seguisse sem parada".
