Crescem atropelamentos por motocicletas enquanto carros matam menos em São Paulo

Por FÁBIO PESCARINI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mortes de pedestres atropelados por motocicletas têm registrado seguidas altas em São Paulo, ao contrário do que ocorre com outros veículos responsáveis pelos acidentes.

Levantamento realizado a pedido da reportagem pelo Detran-SP (Departamento de Trânsito), a partir de 2019, mostra que no estado a alta ocorre há três anos, desde 2022. Na capital paulista, a sequência começou em 2023.

Os dados foram levantados pela equipe do Infosiga (sistema estadual de monitoramento da letalidade no trânsito), a partir de boletins de ocorrência registrados na Polícia Civil.

Nem todos os documentos policiais, entretanto, informam o veículo envolvido no acidente. Das 1.376 mortes de pedestres no ano passado no estado de São Paulo, 809 têm a informação.

No caso da capital paulista, de 410 mortes por atropelamento em 2025, um total de 230 boletins de ocorrência citam o veículo que atingiu o pedestre, 43,9% do total.

Os percentuais são próximos nos boletins de ocorrência contabilizados de 2023 e 2024, envolvendo esse tipo de sinistro de trânsito no município.

Das 230 mortes de pedestres mostradas no levantamento do Infosiga no ano passado, 66 foram provocadas por motos, número superior aos 52 casos de 2024 e aos 38 de 2023.

Os automóveis são responsáveis pela maior quantidade de óbitos. Ocorreram 420 no estado e 89 na capital. Mas foram menores em 2024, com 466 e 97 mortes, respectivamente. Ou seja, os casos envolvendo carros caíram.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam o excesso de velocidade das motos como principal causa para os atropelamentos.

Dados preliminares de um estudo realizado em 2025 pela Unidade Internacional de Pesquisas em Lesões, da universidade Johns Hopkins (EUA), em parceria com a USP (Universidade de São Paulo), apontam que 51% das motocicletas rodavam além da velocidade permitida na capital paulista.

"Em São Paulo há mais motos acima da velocidade do que nos limites", afirma Mariana Novaski, coordenadora de Dados da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, que teve acesso aos primeiros resultados do estudo, que ainda não foi publicado, e analisou os dados disponibilizados pelo Infosiga à Folha.

Novaski afirma que a velocidade aumenta os riscos de atropelamentos, pois o condutor tem menos tempo de reação.

Quanto mais rápido estiver o veículo, maior o risco para o pedestre.

Estatísticas, afirma a especialista, mostram que uma pessoa atingida por um veículo a 30 km/h tem 90% de chances de sobreviver. A 60 km/h, essa possibilidade diminui para 2%. A 50 km/h, limite de velocidade na maior parte das vias na capital, é de 20%.

"É preciso reavaliar esses limites na cidade, principalmente em locais próximos a escolas e hospitais. E também aumentar a fiscalização de motociclistas", diz.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo diz que a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) tem adotado várias medidas de segurança para pedestres.

A gestão Ricardo Nunes (MDB) cita a implementação de áreas calmas, com velocidade máxima de 30 km/h, redução do limite de velocidade de 50 km/h para 40 km/h em 24 vias, aumento do tempo de travessia em cruzamentos de 32 eixos considerados importantes e instalação de mais 9.000 faixas de pedestres e de travessias elevadas em locais apontados como estratégicos.

Outro levantamento, divulgado na semana passada, que tem à frente a USP, a Universidade do Ceará, o Instituto Cordial e a organização de saúde Vital Strategies, aponta que, em média, motociclistas trafegam a 72 km/h na faixa azul, sinalização exclusiva para motos, em testes na cidade de São Paulo.

A faixa azul é apontada pela prefeitura como redutor no número de acidentes envolvendo motociclistas, dizendo que ela reduziu o número de mortes de motociclistas. A administração não cita qual a relação do projeto-piloto com atropelamentos, mas o estudo diz que o principal problema está nos cruzamentos das vias que contam com a sinalização, onde o número de acidentes mais que dobrou.

Novaski aponta a necessidade de investimento em mais equipamentos de fiscalização eletrônica, como radares de velocidade e câmeras que multam quem passe no sinal vermelho.

Paulo Guimarães, CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária, aponta ainda o crescimento no número de motocicletas nas ruas, maior que o de carros.

Segundo dados da Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito), na comparação entre 2019 (antes da pandemia) e 2025, a frota de automóveis cresceu 10% e a de motocicletas, 28,2%.

"Há um volume acelerado neste aumento [de motos, motonetas e ciclomotores]", diz.

Parte dessa alta veio do transporte público. No início do ano passado, a Pesquisa Origem e Destino do Metrô apontou que pela primeira vez uso de transporte individual havia ultrapassado o coletivo na Grande São Paulo.

Guimarães cita um levantamento do Ministério dos Transportes. No ano passado, o governo federal afirmou que metade dos donos de motos no país não tinha carteira de habilitação.

"Crescimento da frota, cultura de segurança viária que não avança e ausência de políticas públicas estruturadas para formação de condutores e educação de trânsito provocam esses dados", afirma.

O Detran de São Paulo diz que no passado realizou cerca de 3.000 ações educativas, atingindo aproximadamente 800.000 mil pessoas, com foco nos públicos mais vulneráveis no trânsito.

A CET afirma oferecer cursos educativos para motociclistas, como o de pilotagem segura, voltado ao aprimoramento técnico dos condutores.

O governo de São Paulo prepara o lançamento do primeiro Plano Estadual de Segurança Viária, com a meta de reduzir pela metade o número de mortes no trânsito até 2030.

"As ações, que envolvem gestão de velocidade, fiscalização e vias seguras, serão reforçadas pela nova versão do Programa Respeito à Vida, que foi reformulado. Com investimento e capacitações, o programa prestará apoio aos municípios a tornarem o trânsito mais seguro", diz o Detran.