Sem vacinas próprias, Brasil fica para trás na corrida vacinal mundial
SÃO PAULO, SP, E BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - A posição do Brasil na corrida vacinal mundial é questionável. O país, sem dúvida exemplar na distribuição e no acesso a imunizantes, ficou para trás quando se pensa em algo próximo a autossuficiência e produção, áreas hoje consideravelmente mais tecnológicas e amplamente dominadas por poucas nações.
"Nunca participamos dessa corrida. Não temos nenhuma vacina brasileira, que começou na fase clínica e terminou liberada para a população", afirma Carla Domingues, epidemiologista que coordenou, de 2011 a 2019, o PNI (Programa Nacional de Imunizações), que orienta a vacinação no Brasil e foi criado em 1973.
Esper Kallas, diretor do Instituto Butantan, em São Paulo, tem uma visão um pouco mais positiva do assunto. Para ele, o Brasil se insere, sim, no contexto mundial da área vacinal. "Tanto que, por exemplo, o Butantan está entre os dez maiores produtores de vacinas de influenza no mundo", diz ele, que, reconhece, porém, as dificuldades da indústria nacional de imunobiológicos frente ao resto do mundo.
Falar em autossuficiência significa, em linhas gerais, ter dentro do país toda a capacidade instalada para produzir uma vacina, da matéria-prima ao produto final. Tal ideia foi classificada como uma utopia, em razão dos custos, em documento de 2003 do Minstério da Saúde comemorativo dos 30 anos do PNI.
Kallas, na mesma linha, aponta que atualmente a produção de vacinas é descentralizada e que todos os países têm algum grau de dependência. O IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) sai de um lugar, em geral da Ásia, a vacina é desenvolvida e fabricada em outro país e um terceiro a embala e rotula. Por exemplo, a vacina contra HPV do Butantan é envasada e registrada pelo laboratório brasileiro, mas é fabricada pela Merck nos EUA.
Ao se pensar em vacina, alguns países vêm à mente: China e Índia. Ambos citados pelos especialistas ouvidos pela Folha tiveram marcaram presença na área durante a crise sanitária da Covid-19. O primeiro imunizante contra o Sars-CoV-2 aplicado no Brasil foi o Coronavac, criado pelo laboratório chinês Sinovac e envasado no Brasil pelo Butantan.
"Eles estão investindo muito dinheiro no processo produtivo, porque a vacina é um negócio rentável. São os grandes exportadores, seja a China fazendo o princípio ativo, seja a Índia produzindo as vacinas. E nós ficamos no meio do caminho", afirma Domingues.
Além disso, Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha são apontados como os grandes investidores em desenvolvimento vacinal. Mesmo assim, Kallas indica um deslocamento dos processos produtivos para a Ásia.
O diretor do Butantan aponta que, na Índia, chamam atenção as empresas familiares que dominam o mercado, caso da Bharat Biotech e da Serum Institute of India. "Foram pessoas que estiveram em outros países com avanço tecnológico, voltaram para a Índia e ali estabeleceram suas estruturas de desenvolvimento."
No caso da Bharat, seus fundadores iniciaram a empresa após retornarem dos EUA. O fundador da Serum foi formado dentro da Índia, mas o atual CEO -seu filho- estudou no Reino Unido.
A China conta com investimento contundente do governo, com política pública fomentando o crescimento da indústria vacinal, segundo Kallas.
"No Brasil, quem tem registro de produto são duas empresas: Butantan e Fiocruz. Na China, com pelo menos um produto de vacina registrado, tem quase 60 empresas", diz o diretor do Butantan.
Dados de uma pesquisa mostram que, em 2021, 65 empresas produtoras de vacina estavam registradas no país. O mesmo estudo aponta que a China é um dos poucos países no mundo a conseguir resolver todo o programa vacinal com as suas próprias capacidades.
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o mercado mundial está concentrado e dependente de pouquíssimas empresas. Os dados de 2023 são os mais recentes e apontam que 73% do volume de vacinas comprado no planeta são derivados de dez produtores. Os maiores são as norte-americanas Pfizer e Merck/MSD, as indianas Serum Institute e Bharat Biotech, a inglesa GSK, e a francesa Sanofi.
POR QUE DESENVOLVER SUAS PRÓPRIAS VACINAS?
Se existe um mercado externo capaz de resolver as nossas demandas, por que se preocupar com a indústria nacional?
Basicamente, as necessidades vacinais não necessariamente são as mesmas em diferentes países.
O desenvolvimento envolve custos que passam das centenas de milhões de dólares e podem chegar à casa dos bilhões. Assim, segundo Domingues, um laboratório privado dificilmente vai investir em um imunizante que seja relevante somente para a realidade do Brasil. "Por isso, a gente precisava ter essa capacidade de produção de vacinas", diz a ex-coordenadora do PNI.
Talvez o que venha à mente ao pensar em desenvolvimento próprio de vacinas seja o fracasso da Butanvac, que, após três anos de estudos, teve o desenvolvimento interrompido -além disso, a tecnologia envolvida na vacina era proveniente de cientistas do Mount Sinai, em Nova York.
Por outro lado, um exemplo potencialmente positivo é a vacina contra dengue do Butantan. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou no fim do ano passado o registro da Butantan-DV, de dose única. Assim como outros casos, somente parte do seu desenvolvimento ocorreu no Brasil, mas a tecnologia sobre a qual é baseada veio dos EUA.
ONDE NOS PERDEMOS?
Na década de 1980, o Brasil vivia um processo de efervescência na produção vacinal. A situação mudou a partir dos anos 2000, quando setor regulatório nacional buscou adequação frente ao resto do mundo.
"Isso acabou trazendo para cá exigências que pegaram no contrapé a indústria nacional. Muitas das vacinas que eram produzidas no Instituto Butantan precisaram ser interrompidas para a readequação", afirma Kallas, segundo o qual só agora estariam começando a ser feitos os investimentos necessários para retomar a produção do portfólio de vacinas que o Butantan tinha até o começo dos anos 2000.
Domingues, na mesma linha, também culpa o baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento. A especialista aponta que o país é muito dependente de acordos de transferência de tecnologia.
"A gente vai ficar sempre dependendo de um laboratório privado que tenha disponibilidade e o interesse de pegar o seu conhecimento, passar para o laboratório público, para daqui 20 anos a gente ser capaz de produzir essa vacina aqui", afirma a ex-coordenadora do PNI.
Os investimentos no setor são a longo prazo -e já mostram alguns resultados hoje, como os soros do Butantan, aponta Kallas. E são necessários especialmente ao se pensar em aumentos de preços associados a produtos farmacêuticos mais tecnológicos.
"É estratégico para o país. Tem que investir nisso e conseguir fazer com que a gente floresça neste campo. Quer dizer, já florescemos em alguns desses processos, por exemplo, a indústria de genéricos brasileira só faz crescer. Mas [que seja] também a de imunobiológicos e a consigamos ser um desses atores internacionais que fazem a diferença nesse campo de trabalho", afirma Kallas.
