Grupo enfrenta lama, frio e fome em curso de sobrevivência na Cantareira
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um grupo de 30 pessoas de idades, origens e perfis variados chega ao galpão localizado na serra da Cantareira, na zona norte de São Paulo, com mochilas lotadas, roupas camufladas, facas nos cintos, botas pesadas e olhares apreensivos. Eles estão ali para participar do Curso Básico de Sobrevivência promovido pela VRB (Via Radical Brasil). Os alunos vão ficar três dias longe de seus celulares, dormindo (mal e pouco) em um acampamento rústico sem acesso a banheiros ou refeições, que vão ter de improvisar, e enfrentando as fortes tempestades que despencaram sobre a capital no fim de semana de 6 a 7 de fevereiro.
"Vim aqui para me desafiar e a meus limites", conta a mineira de Uberlândia Thaiane França, 43. Portadora de transtorno do espectro autista nível 1, ela explica que precisou trabalhar sua ansiedade com práticas de PNL (Programação Neurolínguística) uma semana antes de ir encarar o curso para tentar combater a aracnofobia que a faz ver aranhas em toda parte. Lá, no meio da mata, ela sabe que vai haver um monte delas. "Mas vim para me convencer de que as aranhas também fazem parte da natureza, da criação de Deus, e eu creio muito em Deus", diz.
Para subir um degrau na escala das dificuldades, ela relata que, já na primeira noite, a rede em que dormia no abrigo rústico da mata despencou com ela dentro. "Foi pânico puro, tive que me controlar bastante, ali com as mãos e os pés descalços nas folhas molhadas sobre a terra, pelos quase 40 minutos que levou para remontar a rede", lembra.
Naquela primeira noite, na verdade, os alunos tiveram menos de três horas de sono (os que conseguiram tudo isso, que foram poucos, como admitiram no dia seguinte), e só chegaram ao local do acampamento, sem lanternas, guiados pelos instrutores, sob forte chuva e sem noção da distância que haviam percorrido ?que nem era tanta assim, coisa de uns 50 metros, mas que os guias fizeram questão de estender dando voltas pelo lamaçal.
"Essa primeira caminhada no escuro serviu para mostrar a eles o que não devem fazer se estiverem perdidos na mata, que é tentar andar à noite", conta Marcelo Montibeller, coronel da reserva e especialista em sobrevivência e técnicas de resgate, que desde 2003 conduz a VRB.
Montibeller calcula que, por ano, receba nos cursos de treinamento ?divididos em quatro níveis, do Básico ao Master? cerca de 200 alunos. Com expertise reconhecida por certificações internacionais como a Iasa (International Adventure Survival Association ) e a Siwa (Survival Instrutctors World Association), além da Confesur (Confederação Sulamericana de Sobrevivência e Preparação), ele se orgulha de ser também "a única escola de sobrevivência brasileira certificada pela ONG Leave No Trace", organização que prega o impacto mínimo na natureza.
E é com uma ampla preleção aos alunos à sua chegada à área de mata atlântica onde realiza o curso básico que Montibeller alerta para as regras que todos vão ter que seguir se quiserem levar para casa o diploma de sobrevivencialista. Fala da importância da higiene, difícil em meio à lama, mas essencial para evitar infecções diversas e piriris indesejados. Avisa que vão comer só o que prepararem com o que lhes for disponibilizado ?no primeiro desjejum, após uma noite sem jantar, receberam um ovo cada um, uma espiga de milho para cada dois, e um sachê de café. Tudo cozido no fogo que eles mesmos tiveram de acender com suas pederneiras, seguindo orientações da instrução inicial.
Entre as diversas atividades destinadas aos alunos e ministradas por instrutores especializados, incluem-se a construção de abrigos rústicos, acendimento de fogo primitivo, meios de sinalização de emergência, uso de lâminas variadas, filtragem de água, montagem de kits de emergência e orientação para minimizar o impacto no ambiente natural. Mas há algumas instruções que desafiam os nervos e que são avisadas já no primeiro dia, como o consumo de larvas e insetos, que a reportagem, solidária, fez questão de acompanhar e saborear ?vivos. Ou o manuseio de animais que costumam causar arrepios, como uma jiboia de 18 quilos e uma caranguejeira, passados de mão em mão pelos instrutores entre todos os presentes. Não é fácil a vida de um sobrevivente, convenhamos.
PARTICIPANTES CONTAM O QUE OS LEVOU AO CURSO DE SOBREVIVÊNCIA
A reportagem perguntou a Montibeller o que leva tantas pessoas a procurarem uma atividade que as tira completamente de sua zona de conforto sem discurso de coach ou promessas de salvação espiritual. E a resposta estava bem à nossa frente, na intensa tempestade que atingiu a capital paulista no final de semana de 6 a 8 de fevereiro.
"As pessoas procuravam um curso de sobrevivência para, primeiro, desconectarem-se da realidade urbana", explica Montibeller. "Mas, com o advento recente de falta de água, falta de luz, das enchentes no Rio Grande do Sul, dessa rota de furacões, tornados e ventanias que vêm castigando o Sudeste brasileiro, percebemos que elas começaram a se preocupar com as artes primitivas de sobrevivência."
"Elas hoje se perguntam como vão se virar se faltar luz, se acabar a água potável, que água poderão coletar, enfim, essas necessidades básicas do ser humano, que foram perdidas durante a nossa evolução e que agora estão levando ao resgate das pequenas técnicas que permitem sobreviver em qualquer cenário", acrescenta.
Essa percepção se confirmou quando a reportagem conversou com os alunos ?conversas rápidas, já que o ritmo intenso das instruções mal lhes permitia uns minutos de interrupção.
"É uma experiência para a vida, porque nunca se sabe o que pode acontecer, com as enchentes cada vez mais fortes, falta de energia constante, acidentes ambientais violentos como o rompimento da barragem em Mariana", conta Queila de Almeida Mendes Ogliani, 35. Ela, que levou o filho Noah, 7 (recordista de aluno mais novo na VRB), e o marido Sílvio Ogliani para a empreitada, diz acreditar que o fator principal que leva do curso para a vida "é a noção de minimalismo, perceber que dá para sobreviver com pouco".
"Indo como família, a reação foi extremamente positiva, uma vivência extraordinária para nós três", acrescenta Queila. "Especialmente até porque o meu filho, que é uma criança tímida, lá se soltou muito bem, conversou com as pessoas, prestou atenção nas instruções, participou das práticas, ele se desenvolveu bastante com esse curso, ver ele pulando nas poças foi uma coisa assim, sem palavras, porque no dia a dia, na cidade, isso é quase impossível."
Já para o gestor de risco de uma grande seguradora Rafael Amaral, 48, a lição que sai do enfrentamento das dificuldades atípicas em uma vida urbana junto a um monte de pessoas com as quais, a princípio, não tinha qualquer relacionamento, "é a importância de ser tolerante, ter empatia e paciência para respeitar os limites de cada um, algo que dá para levar para a vida em família".
Na prática, esse é justamente o segredo que Montibeller aponta como principal ferramenta da sobrevivência. "Fazer fogo é fácil, água você acha, abrigo você constroi com um pedaço de lona", diz ele, "mas a cabeça do ser humano é algo mais complicado".
Ele avalia que, "se é só você com sua briga mental, ainda consegue administrar, mas quando está em um grupo, é a cabeça, o poder da mente, o foco e o espírito de grupo que vão permitir juntar aquelas pessoas para um objetivo maior e comum".
