Rede de traficantes do país financiava suposto líder de esquema com CV no Amazonas, diz delegado

Por ROSIENE CARVALHO

MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - A operação nesta sexta-feira (20) para desarticular um suposto "núcleo político" do CV (Comando Vermelho) no Amazonas identificou depósitos em espécie de uma rede de traficantes de todo país para Allan Kleber Bezerra de Lima, apontado pela polícia como chefe do esquema. Segundo a Polícia Civil, ele não apresentou advogado.

Os depósitos variavam de R$ 100 mil a R$ 700 mil, segundo a investigação. "Tinha uma rede de traficantes de vários estados do Brasil mandando dinheiro para ele, e ele mandando dinheiro para empresas-fantasma de Tabatinga, que fica na fronteira com a Colômbia", afirmou o delegado Marcelo Martins.

Nesta sexta-feira, 14 pessoas foram presas, sendo oito no Amazonas e seis nos outros estados. Segundo a investigação, a facção teria adquirido acesso local aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário com atuação estruturada e ramificações em outras unidades da federação.

Ainda conforme o delegado, um grupo de empresas registradas em nome de Bezerra de Lima e de pessoas com relações financeiras com ele era usado para operacionalizar o tráfico de drogas em todo o território nacional a partir de Manaus e Tabatinga.

Na capital do Amazonas, a investigação identificou outro padrão nas operações financeiras: depósitos para funcionários públicos da Prefeitura de Manaus, do Legislativo municipal e do Judiciário do Amazonas, além das próprias polícias Civil e Militar do Amazonas.

Segundo Martins, a investigação não tem elementos para explicar o objetivo da cooptação do tráfico de drogas dos funcionários públicos na esfera municipal nem qual a função deles no esquema. "É isso que nós estamos tentando descobrir".

Em nota, a prefeitura de Manaus disse que não é alvo da operação realizada. "Conforme informado pelas próprias autoridades, nem o prefeito David Almeida nem a estrutura administrativa do município integram o objeto da investigação. É inaceitável que setores da política tentem distorcer fatos para criar narrativas mentirosas e atingir a honra de quem tem trabalhado com responsabilidade pela cidade."

A gestão municipal afirmou que "qualquer servidor eventualmente investigado responderá individualmente por seus atos, nos termos da lei, sem prejuízo do funcionamento regular da máquina pública".

Segundo o delegado, a investigação começou com a apreensão de drogas há cerca de quatro meses debaixo da ponte Educandos, na região portuária no centro de Manaus, a poucos metros da delegacia.

Ao verificar a vida financeira de Ferreira de Lima, identificado como o dono do carregamento, foram identificadas as transações e conversas entre ele e outro investigado sobre suas relações com órgãos públicos.

"Ele dizia sempre assim: eu tenho tentáculos em todos os lugares, em todos os órgãos, eu tenho dinheiro, eu pago todo mundo, pode ficar tranquilo que eu vou resolver tudo", disse Martins.

Sobre as pessoas que depositavam dinheiro para ele de outros estados, o delegado declarou que havia motoristas de aplicativo e pessoas com "anotações criminais de tráfico de drogas". As operações financeiras foram identificadas a partir de relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeira).

Dentre os presos está Izaldir Moreno Barros, que atuou havia até poucas semanas como motorista da desembargadora do TJ-AM (Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas), Nélia Caminha Jorge. O TJ-AM informou, por meio da assessoria de comunicação, que abriu um procedimento interno para investigar a conduta do servidor e, em nota, afirmou não compactuar com "condutas incompatíveis".

Outra funcionária pública presa é Anabela Cardoso Freitas, que, segundo o delegado, foi chefe de gabinete do prefeito de Manaus e pré-candidato ao governo do Amazonas, David Almeida (Avante), e é ligada ao político desde 2016. A investigação apontou repasses de valores da ordem de R$ 1,4 milhão partindo dela para a organização criminosa, segundo Martins.

"O que eu percebi é que ele [foragido] comprava pessoas para ter trânsito em órgãos públicos", afirma o delegado.

A defesa de Anabela Freitas disse não ter tido acesso aos autos e pediu a preservação da presunção de inocência, mesma posição adotada pelo representante de Alcir.