Acusados de mandar matar Mãe Bernadete vão a júri popular na Bahia
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Quase dois anos e meio após o assassinato da líder quilombola e ialorixá Maria Bernadete Pacífico Moreira, conhecida como Mãe Bernadete, dois acusados pelo crime sentam no banco dos réus nesta terça-feira (24), em Salvador.
Eles serão julgados pelo homicídio da dirigente do Quilombo Pitanga dos Palmares, morta com 25 tiros dentro de casa, na presença de três netos.
O júri será realizado no Fórum Ruy Barbosa, a partir das 8h, e poderá se estender até quarta-feira (25), caso não seja concluído no primeiro dia.
Serão julgados Marílio dos Santos, apontado pelo Ministério Público da Bahia como mandante do crime e chefe do tráfico na região, e Arielson da Conceição Santos, indicado como um dos executores. Eles respondem por homicídio qualificado por motivo torpe, meio cruel, impossibilidade de defesa da vítima e uso de arma de fogo de uso restrito. Arielson também é acusado de roubo.
A reportagem não localizou a defesa dos réus.
De acordo com a denúncia, Mãe Bernadete foi morta na noite de 17 de agosto de 2023, na comunidade quilombola Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na região metropolitana de Salvador. Três netos da líder, então com 12, 13 e 18 anos, estavam no imóvel e foram trancados em um quarto antes dos disparos.
As investigações da Polícia Civil, com apoio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas), apontam que o assassinato teve como motivação a atuação da ialorixá contra a expansão do tráfico de drogas na comunidade. Segundo o inquérito, ela se posicionava contra a instalação de um bar conhecido como Pitanga Point, atribuído a integrantes da facção criminosa local e erguido em área de preservação permanente.
O Ministério Público sustenta que a ordem para matar a líder partiu de Marílio, com apoio de outros denunciados ligados ao grupo criminoso. Além dos dois que irão a julgamento agora, outras três pessoas foram denunciadas e devem ser julgadas posteriormente.
Em setembro de 2025, a Polícia Civil prendeu Josevan Dionísio dos Santos, conhecido como BZ, apontado como outro executor do crime. Ele estava foragido. Segundo a corporação, houve resistência durante o cumprimento do mandado, e o suspeito manteve a companheira e dois filhos como reféns antes de se entregar após negociação. Uma pistola foi apreendida. A reportagem não localizou a defesa dele.
Outro denunciado, Ydney Carlos dos Santos de Jesus, foi preso em julho de 2024. Sérgio Ferreira de Jesus também já havia sido detido. O processo em relação a eles tramita separadamente.
O julgamento ocorre pelo 1º Juízo da 1ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Salvador. A decisão caberá a sete jurados, sorteados entre cidadãos convocados. Eles irão deliberar sobre a condenação ou absolvição dos réus, enquanto a juíza responsável conduzirá a sessão e, em caso de condenação, fixará a pena.
Mãe Bernadete era coordenadora nacional da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq) e liderava o Quilombo Pitanga dos Palmares. Ao longo dos anos, denunciou ameaças e a violência contra comunidades quilombolas e disputas por território.
Após o assassinato de um de seus filhos, Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo, em 2017, a líder intensificou a atuação contra ataques a terreiros e contra o avanço de grupos criminosos na área. Familiares afirmaram que ela recebia ameaças havia pelo menos seis anos antes de ser morta.
À época do crime, Mãe Bernadete integrava um programa estadual de proteção a defensores de direitos humanos. Câmeras de segurança haviam sido instaladas na casa e no entorno, e policiais faziam visitas periódicas, mas não havia vigilância permanente.
O caso teve repercussão nacional. Em novembro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou decreto declarando de interesse social o Quilombo Pitanga dos Palmares, passo para a regularização fundiária do território.
