Saiba mais sobre a supercélula, fenômeno que causou chuva extrema em MG

Por BÁRBARA SÁ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma supercélula, sistema de tempestade de grande desenvolvimento vertical, provocou a chuva extrema que atingiu cidades da zona da mata mineira, como Juiz de Fora e Ubá, onde choveu em 24 horas até 190 milímetros, volume próximo ao esperado para todo o mês de fevereiro. Mais de 20 pessoas morreram na região.

O fenômeno, típico do verão, foi intensificado pela combinação de calor, alta umidade e a atuação de um cavado atmosférico, que favoreceu a formação de nuvens profundas e organizadas, segundo especialistas.

Segundo o meteorologista Alexandre Nascimento, sócio-diretor da empresa Nottus, o acumulado nas cidades mais atingidas foi excepcional para um intervalo tão curto. Em 72 horas, os volumes variaram entre 205 e 230 milímetros, patamar que supera a média histórica mensal, que gira entre 170 e 200 milímetros.

A formação da supercélula ocorreu em um ambiente atmosférico já propício a tempestades. O verão é a estação mais chuvosa do ano no Sudeste, com janeiro e fevereiro concentrando os maiores acumulados. A meteorologista Andrea Ramos explica que essa característica sazonal já eleva naturalmente o risco de temporais.

"Primeiramente, a gente está no verão. É a estação mais chuvosa quando comparada com as demais. Janeiro e fevereiro, principalmente, concentram os maiores volumes do ano. Então se espera essa tendência de chuva nesse período."

O diferencial deste episódio, segundo ela, foi a organização das nuvens em uma estrutura mais intensa. Imagens de satélite mostraram forte desenvolvimento vertical, com topos muito frios, característica típica de nuvens cumulonimbus.

"Foi uma supercélula que atuou e proporcionou toda essa situação. São nuvens do tipo cumulonimbus com grande desenvolvimento vertical. Elas podem atingir de 14 a 16 quilômetros de altura. Quanto mais vermelho aparece na imagem de satélite, maior a presença dessas nuvens."

Além do calor e da umidade elevada, a carta sinótica, uma espécie de mapa meteorológico instatâneo, indicava a presença de um cavado (espécie de alongamento de baixa pressão) próximo à região, além de uma frente fria atuando no oceano. Essa configuração ajudou a canalizar umidade e intensificar as áreas de instabilidade.

Ramos afirma que a sobreposição desses sistemas aumenta o potencial de chuva severa. "Você tinha calor, muita umidade e a presença de um cavado. Quando você soma isso à convergência de umidade vinda da Amazônia e à frente fria no oceano, o ambiente fica muito favorável para tempestades mais intensas. Cada sistema favorece chuva. Quando dois ou três atuam ao mesmo tempo, o potencial aumenta bastante."

Nos últimos anos, o regime de chuvas apresentou irregularidades associadas a fenômenos como o El Niño, que reduziu volumes em parte do país. Agora, com uma La Niña fraca caminhando para neutralidade, o padrão tende a se aproximar mais da climatologia típica da estação.

"Quando você não tem um sistema climático dominante, como El Niño ou La Niña forte, a característica da estação prevalece. E o verão, naturalmente, é chuvoso", diz a meteorologista.

A previsão indica manutenção da instabilidade nos próximos dias em Minas Gerais. Modelos meteorológicos apontam continuidade da umidade elevada e novas áreas de chuva atuando sobre o Sudeste.

"Os modelos indicam probabilidade de chuva para hoje (terça-feira) e amanhã (quarta-feira), e essa tendência pode se manter ao longo da semana. Ainda há calor e umidade disponíveis na atmosfera, o que favorece novas formações de nuvens de tempestade."

Segundo Ramos, o risco maior permanece nas áreas onde o solo já está encharcado, condição que aumenta a possibilidade de novos deslizamentos e enxurradas em caso de pancadas intensas.