Jardins instalados pela gestão Nunes embaixo do Minhocão forçam pedestres a disputar espaço com bike
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os recém-instalados jardins de chuva embaixo do elevado Presidente João Goulart, o Minhocão, têm forçado pedestres a andarem nas ciclovias no entorno e a dividir o espaço com as bicicletas. Moradores se queixam do risco de acidentes.
Os dispositivos foram construídos no ano passado pela Prefeitura de São Paulo e fazem parte, segundo a gestão Ricardo Nunes (MDB), da requalificação de vias ao redor do Minhocão, no centro da capital paulista. Eles são conectados por dutos à rede superficial do elevado e atuam para drenar a água da chuva.
A Folha esteve na manhã desta segunda-feira (23) em um dos pontos de ônibus situado na avenida São João, entre as alamedas Glete e Nothmann, na região de Campos Elíseos, e constatou o problema. A reportagem precisou desviar de bicicletas em mais de uma ocasião.
A administração municipal afirmou ser "importante esclarecer que a área central sob o elevado nunca funcionou como calçada: o espaço sempre foi ocupado pela ciclofaixa, com apenas trechos pontuais livres entre as pilastras". Esses trechos,"são justamente os que foram utilizados para a implantação dos jardins", disse a nota.
Ainda segundo a gestão Nunes, o projeto "considera as diretrizes de caminhabilidade, mantendo a separação adequada entre pedestres e ciclistas" e que "o pedestre tem as calçadas das avenidas São João e General Olímpio da Silveira, que permanecem livres e utilizáveis".
A principal queixa dos usuários envolve acessibilidade.
O ponto de ônibus em si não chega a ser um empecilho. A ciclovia chega até ali pelo canto da avenida e faz uma curva para o centro dela, bem abaixo do Minhocão, para não esbarrar no banco de espera do transporte coletivo.
A questão está em como sair dali. Quem chega de ônibus e não atravessa a rua não consegue andar embaixo do elevado. A única opção é andar pela ciclovia até uma faixa de pedestre.
"Eu mesmo quase fui atropelado por uma bicicleta", afirma William Oliveira Santos, 22, que aguardava a chegada de um transporte coletivo quando conversou com a reportagem. "Fiquei assustado."
Ele pega ônibus todo dia e diz que a rotina de embarque e desembarque embaixo do Minhocão se tornou um transtorno.
A ciclovia, para ele, poderia ser remanejada. "Tem que separar o lado do pedestre do lado da bicicleta", diz.
Não é diferente para a aposentada Sandra Regina, 71, que desembarca no mesmo ponto todos os dias e percorre um trajeto até a esquina seguinte. "É horrível", afirma, apesar da curta distância. "Você não tem onde passar. Leva susto toda hora", diz.
A Folha permaneceu no local durante pouco mais de 40 minutos e observou idosos, gestantes e mães que carregavam seus bebês em carrinhos andando sobre a ciclofaixa.
É a única alternativa que restou, afirma o empresário Carlos Roberto São João, 64, que caminha embaixo do elevado praticamente todos os dias.
"Realmente está bem complicado", afirma. "Fica entre o pedestre e a ciclista o tempo todo. Poderiam achar um meio termo para a situação. Depois que colocaram o jardim não tem como desviar das bicicletas", afirma.
O pior está nos dias de chuva, afirma ele, quando dezenas de pessoas dividem o espaço para não se molhar.
A mesma avaliação fez o advogado José Carlos Rister Júnior, 55, que caminhava para uma audiência quando conversou com a reportagem. Para ele, a faixa estreita torna pedestres mais vulneráveis a acidentes com bicicletas.
Há, por outro lado, quem tenha gostado. É o caso do aposentado Iratan Gomes de Souza, 77, para quem os jardins de inverno tornaram o local muito mais agradável.
"Antes tinha muito nóia por aqui. Agora não tem mais nada", diz.
