Fóssil descoberto na Argentina revela o menor dos dinossauros sul-americanos
SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - A América do Sul da Era dos Dinossauros abrigava os maiores animais terrestres de todos os tempos, mas a região acaba de ganhar um recordista que deve chamar atenção pelo motivo oposto: é um nanico entre os nanicos. Pesando menos de 1 kg quando vivo, o Alnashetri cerropoliciensis provavelmente é o menor dos dinossauros sul-americanos.
A espécie argentina já era conhecida desde 2012 e tem idade estimada em 95 milhões de anos. O novo espécime, descrito em artigo publicado nesta quarta-feira (25) no periódico Nature, impressiona não só pelo tamanho diminuto como também pela completude do fóssil.
Faltam ao exemplar apenas a calota craniana, um pedaço da mandíbula, a pata da frente direita, a parte inferior da pata traseira direita e um pedaço da cauda. Se a lista parece longa, vale lembrar que normalmente são apenas alguns ossos como os elencados que sobram, enquanto todo o resto do animal não é preservado ?exatamente o contrário do que se deu com o pequenino.
Encontrado em La Buitrera (região de Neuquén, no norte da Patagônia), o bicho vem sendo estudado por pesquisadores de diversas instituições argentinas e americanas, sob coordenação de Peter Makovicky, da Universidade de Minnesota (Estados Unidos). O tamanho peso-pluma é relevante também porque traz novas pistas sobre a evolução de um dos subgrupos mais peculiares de dinossauros.
Trata-se dos alvarezsauroides, que já chegaram até a ser vistos como aves muito primitivas e incapazes de voar antes que fossem reclassificados como dinossauros não avianos. (As próprias aves, é claro, não passam de outro subgrupo de dinossauros carnívoros de pequeno porte.)
Outro ponto em comum dos alvarezsauroides com as aves é o próprio processo de miniaturização evolutiva, como dizem os especialistas ?o fato de muitas espécies de ambas as linhagens, ao longo do tempo, irem ficando menores, o que vai na contramão do que aconteceu nas demais linhagens de dinossauros, é claro.
Além disso, muitas das formas mais tardias e menores do grupo (com menos de 5 kg) desenvolveram anatomia esquisitíssima. As patas da frente se tornaram curtas e muito troncudas, com o dígito (dedo) equivalente ao polegar supercrescido e outros dígitos curtos e aparentemente adaptados para cavar. Por fim, em algumas espécies, os dentes se tornaram simplificados e homogêneos.
Esse conjunto de traços singulares levou alguns especialistas a postular que os bichos teriam se especializado em comer insetos sociais, como formigas e cupins, talvez até cavando cupinzeiros primitivos. Ao debate sobre esse tema se junta o que está se desenrolando sobre a região de origem dos alvarezsauroides, já que eles têm uma distribuição geográfica inesperada, com espécies presentes tanto na América do Sul quanto na Ásia, por exemplo.
O esqueleto quase completo do pequenino dinossauro da Argentina pode mudar significativamente o que se sabe sobre essa história. Em primeiro lugar, embora o Alnashetri cerropoliciensis seja um membro dos alvarezsauroides, sua anatomia é significativamente mais genérica, com patas da frente e dentes não tão diferentes assim do que vemos em outros dinos de pequeno porte.
"Ele provavelmente tinha uma dieta de invertebrados e pequenos vertebrados, e provavelmente era predado por terópodes [dinos carnívoros] maiores e por crocodilos", contou Peter Makovicky à reportagem. Para o coordenador do estudo, é bem possível que a espécie ou seus parentes próximos também fossem encontrados mais ao norte, no que um dia seria o território brasileiro.
Acontece que as pesquisas anteriores muitas vezes associavam a miniaturização extrema do grupo com a anatomia única ?eles teriam se tornado tão pequenos e esquisitos como adaptação para capturar formigas e assemelhados. O novo fóssil, porém, indica que esse cenário não bate com a trajetória do grupo.
"Essa é uma das nossas principais conclusões: a evolução do tamanho corporal dos alvarezsauros não segue um padrão unidirecional único. Em vez disso, cada espécie parece atingir tamanhos maiores ou menores de forma independente", diz Makovicky. "Não estou tão convencido assim de que as espécies derivadas [mais especializadas] se alimentavam apenas de formigas ou cupins ?é uma explicação razoável para a anatomia bizarra delas, mas talvez não seja a única."
Levando em conta a idade e as características do fóssil argentino e de outros lugares no hemisfério Norte, os pesquisadores defendem que o grupo pode ter surgido bem antes, no período Jurássico, quando os continentes ainda estavam quase todos conectados. Algumas espécies podem ter ficado separadas conforme cada continente seguiu trajetórias diferentes, o que explicaria a distribuição geográfica "salpicada" pelo globo.
