Famílias deixam documentos e animais de estimação para trás e se abrigam em escolas em MG
JUIZ DE FORA, MG (FOLHAPRESS) - A dona de casa Juliana Cristina de Souza, 42, e a vendedora Kevellin Cristina de Souza, 24, mãe e filha, se abrigaram na escola municipal Professor Paulo Rogério, no bairro Monte Castelo. Junto levaram outras seis pessoas da família, incluindo três crianças.
A família morava no bairro Esplanada, onde casas desmoronaram e deixaram mortos e soterrados que ainda não foram encontrados.
"Ficamos até o último instante para decidir se saíamos ou não."
Os três cães de estimação da família ficaram para trás. Sem poder levá-los para o abrigo, Juliana e Kevellin usam as redes sociais para tentar doar os animais.
Elas aguardam a autorização da Defesa Civil para resgatar documentos e os animais, mas não esperam que isso aconteça nos próximos dias.
"Lá morreu uma família inteira e a Defesa Civil disse que provavelmente não vamos poder voltar. Graças a Deus a gente não perdeu nada, e tomara que não perca, mas as casas estão condenadas", afirma Juliana.
Kevellin morava com três filhos, todos crianças, em um imóvel em cima da residência da mãe. Ela afirma que as casas não eram coladas à encosta, mas se sentia insegura.
"A gente já tinha esse desejo de sair, por medo. Há rachaduras na casa e ela está crescendo. A chuva foi um gatilho", diz Kevellin.
A Prefeitura de Juiz de Fora calcula mais de 3.500 pessoas desabrigadas (que precisam de abrigos públicos) ou desalojadas (retiradas temporariamente de casa e instaladas em casas de amigos ou parentes, por exemplo).
O abrigo improvisado a partir de segunda-feira (23) é gerido por Tatiane do Carmo, 41, diretora da escola. As famílias passam por um cadastro e possuem identificação, com um nome escrito em etiqueta colada à roupa. A diretora criou regras, como a separação por gêneros: quatro salas de aula foram transformadas em dormitórios. Duas são ocupadas por mulheres e crianças, e outras duas por homens.
Tatiane também calculou um limite de 50 pessoas. Durante a conversa com a reportagem, havia 47. Uma gestante com outras duas crianças foi aceita.
Outra escola do bairro será aberta a partir desta quarta para receber novos desabrigados. A notícia de que haverá falta de água e luz no bairro Esplanada deve acelerar a transferência de famílias.
"A solidariedade é impressionante. Eu peço uma doação, e minutos depois está na porta da escola. Preciso até negar e mandar para outro local. E tudo é pensado na hora, não tivemos treinamento para o que estamos vivendo agora, é uma experiência para o resto da vida", diz Tatiane.
A distribuição das famílias em abrigos é um retrato da disparidade social na cidade. O abrigo da escola municipal Professor Nilo Camilo Ayupe, no bairro das Paineiras, está vazio desde segunda-feira e virou, na prática, um ponto de entrega de doações. O bairro é considerado de classe média e as pessoas que não puderam voltar para casa se realocaram na casa de familiares e amigos.
"Abrimos a escola na madrugada de segunda para acolher as vítimas. Ficamos até quatro horas da manhã, mas não veio ninguém para cá. No outro dia, já estávamos aqui para receber doações, e não paramos mais", afirma a diretora da escola, Fabiana do Valle, 48.
Fabiana conhecia algumas vítimas: uma delas, identificada como Iara, era funcionária da escola e morreu junto de duas filhas em um desabamento.
Outras duas crianças, estudantes da instituição, estão soterradas, segundo o Corpo de Bombeiros, e são consideradas desaparecidas. São filhos de Jaqueline Teodoro Vicente, enfermeira que chegou a ser resgatada com vida após ficar horas soterrada no bairro das Paineiras, mas não resistiu.
"Tem momentos em que a gente chora, mas enxugamos a lágrima porque somos apoio. Às vezes as pessoas que chegam não precisam de bem material, só abraço. Uma família chegou aqui para ficar um pouco tempo, a mãe só olhou para mim e começou a chorar, ela só queria um abraço. Acima de tudo é primordial esse olhar sensível, essa escuta", diz Fabiana.
Escolas são a maioria dos pontos de abrigo em Juiz de Fora. Os acolhimentos têm sido alterados todos os dias. Nesta terça, uma escola que servia de abrigo no bairro Três Moinhos precisou ser esvaziada. A escola fica próximo a uma encosta e, segundo moradores, há risco alto de deslizamento de terra. Havia cerca de 100 pessoas no local, de acordo com a vizinhança, e parte dos pertences foram deixados lá. Os desabrigados foram redistribuídos.
No fim da tarde desta quarta, quando voltou a chover forte em parte de Juiz de Fora, a escola municipal Murilo Mendes precisou ser fechada por questão de segurança, segundo a prefeitura. O abrigo foi transferido para a escola estadual Padre Frederico Vienken, no bairro Bonfim.
