Ladrões de aliança, celular e farmácias usam coletes à prova de balas em roubos nas ruas de São Paulo
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ladrões em motocicletas que caçam telefones e alianças pelas ruas de São Paulo têm usado coletes à prova de balas durante os roubos.
Isso indica uma mudança na ação dos criminosos e é considerado uma novidade na cidade até mesmo por policiais civis experientes ?até agora, o uso do equipamento era mais restrito a outros tipos de crimes, como roubos de bancos ou resgates de presos.
A reportagem teve conhecimento de três homens presos vestidos com o item em um período de outubro de 2025 a janeiro deste ano, todos detidos por policiais militares. Um caso mais recente, em fevereiro, resultou em latrocínio, e os criminosos escaparam, de acordo com um agente ouvido pela reportagem.
Um delegado disse à reportagem que um criminoso que usa colete e porta arma está mais propenso a trocar tiros com a polícia.
Além disso, um departamento especializado da Polícia Civil também investiga o uso de coletes por integrantes de uma quadrilha que ataca farmácias em busca de medicamentos de alto custo.
Um departamento especializado da Polícia Civil também investiga o uso de coletes por integrantes de uma quadrilha que ataca farmácias em busca de medicamentos de alto custo.
Uma das ocorrências recentes com o equipamento aconteceu em 30 de janeiro na avenida Tiradentes, na região central da cidade. Na ocasião, policiais militares balearam um motociclista que tentou roubar o passageiro de um carro na via. O suspeito usava colete.
Em 4 de novembro, a cerca de 13 km dali, no Campo Belo, zona sul, um jovem de 19 anos foi preso por suspeita de roubar alianças em uma motocicleta. Com ele foram encontrados um revólver, três anéis e um colete balístico. A moto tinha queixa de furto e a placa adulterada. Uma das vítimas compareceu à delegacia e recuperou a aliança roubada.
O caso de maior repercussão ocorreu em 16 de outubro, em um restaurante na avenida Dionysia Alves Barreto, em Osasco. Imagens de câmeras de segurança mostraram o momento em que um homem de 28 anos entrou armado no estabelecimento e exigiu pertences dos clientes. Uma das vítimas era policial civil.
Houve troca de tiros e o suspeito foi atingido por três disparos ?dois no tórax e um no rosto. Um funcionário foi ferido por bala perdida na perna. Com o assaltante foram encontradas 14 alianças, um relógio e joias diversas. O boletim de ocorrência registra um detalhe incomum: a apreensão de um fragmento de munição que caiu do próprio colete que ele usava. A investigação revelou que, no mesmo dia, o homem havia feito outras vítimas, uma delas em Pinheiros, zona oeste. Denunciado pelo Ministério Público em novembro, virou réu.
O consultor sênior do Instituto Sou da Paz Bruno Langeani apontou duas preocupações. "A primeira é o descontrole sobre esse tipo de equipamento, que deveria ter uso restrito e fiscalização rigorosa pelo Exército por ser destinado a profissionais de segurança".
A segunda, para ele, é ainda mais alarmante: "o uso ostensivo de armas e coletes sugere que esses criminosos não estão se sentindo efetivamente dissuadidos por bloqueios e abordagens policiais", o que "aponta para fragilidades na capacidade de prevenção da polícia paulista".
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública estadual afirmou que as forças policiais atuam permanentemente na repressão aos crimes e que o uso de coletes balísticos por criminosos, quando identificado, é tratado como indício de posse irregular e objeto de investigação.
Conforme a gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), "a aquisição e o registro de coletes balísticos por particulares são rigorosamente regulamentados por normas federais e estaduais. A autorização para compra depende do cumprimento de requisitos legais, análise documental, inexistência de antecedentes criminais e motivação justificada".
No âmbito institucional, os coletes utilizados pelas forças de segurança são adquiridos exclusivamente por meio de processos licitatórios, junto a fabricantes autorizados, e são registrados em sistema próprio, com numeração individual e rastreabilidade, o que impede seu desvio para uso indevido", acrescentou a pasta.
O Comando Militar do Sudeste informou que a aquisição do equipamento por civis exige autorização prévia da Secretaria de Segurança Pública estadual e é regulamentada por portaria de dezembro de 2006.
A aquisição de coletes à prova de balas, apenas de uso permitido, pelo público em geral, deverá ser realizada em estabelecimentos comerciais especializados, desde que os adquirentes sejam maiores de 20 anos e tenham autorização prévia da Secretaria de Segurança Pública da Unidade da Federação onde residem, a quem caberá registrá-lo."
