Empresário reivindica R$ 1,2 milhão apreendido com PM preso pela Corregedoria de SP

Por TULIO KRUSE E ROGÉRIO PAGNAN

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um empresário protocolou uma petição na Corregedoria da Polícia Militar na qual diz que é dele a mala com quase R$ 1,2 milhão em dinheiro apreendida na casa do sargento da PM Nereu Aparecido Alves.

O sargento Nereu e outros dois policiais militares foram presos no dia 4 de fevereiro sob a acusação de integrarem uma organização criminosa por terem feito escolta a dirigentes da empresa de ônibus Transwolff, investigada por suspeita de lavagem de dinheiro da facção criminosa PCC.

O empresário que reivindicou a mala, Ricardo Barnabé, é sócio de empresas registradas na região metropolitana de São Paulo e no interior do estado. Em documento assinado por seus advogados, ele diz que se apresenta voluntariamente às autoridades "para os esclarecimentos necessários e para a juntada de documentação que comprova a origem e a licitude dos valores".

Durante interrogatório, Nereu disse que o empresário, para quem presta serviço de segurança, já havia entrado em contato telefônico com policiais da Corregedoria no dia da operação. Na ligação, disse que o dinheiro era seu e de origem comprovada.

Segundo a defesa, Barnabé não possui qualquer vínculo com a Transwolff.

"Esse dinheiro tem origem, e vai ser provado nos autos", disse Barnabé à reportagem, ao ser procurado por telefone. "A única coisa que eu quero é pegar meu dinheiro e sair dessa palhaçada aí. Tanto é que eu admiti que esse dinheiro é meu, não tem nada a ver com os outros."

O empresário não esclareceu o porquê de tanto dinheiro em espécie e na casa de seu segurança. Ao ser perguntado sobre isso, preferiu enviar uma nota através de sua defesa, que isso será esclarecido "tão logo [ele] seja formalmente intimado ou convocado".

Nereu afirmou que, a pedido do empresário, buscou a quantia em dinheiro na cidade de Bauru (SP), em 3 de fevereiro, e a transportou até a capital paulista. Disse que não conseguiu encontrar Barnabé pessoalmente naquela ocasião e que lhe foi solicitado manter a mala sob sua guarda até o dia seguinte.

Na manhã de 4 de fevereiro, porém, o sargento foi preso e o dinheiro apreendido durante a operação da Corregedoria. Ainda em seu interrogatório, o PM afirmou que faz "bico" desde que ingressou na corporação, com o objetivo de dar uma condição melhor de vida para sua família.

Disse, ainda, que o patrimônio dele é constituído por um apartamento financiado, que não tem dinheiro no banco (em investimentos) e não possui veículos em seu nome, respondendo à pergunta feita por seu advogado, Márcio Antonio Sousa Ferreira da Silva.

Barnabé é sócio de seis empresas registradas na Junta Comercial do Estado de São Paulo. Entre elas está a Qualybem Food & Service, que tem contratos de fornecimento de alimentos para repartições públicas, como para a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e na Universidade Federal do ABC.

MENSAGEM ENCAMINHADA

O sargento também afirmou que não era dele uma mensagem que se refere ao ex-vereador Milton Leite (União) como "chefe". O sargento disse que as mensagens eram do capitão Alexandre Paulino Vieira, e foram encaminhadas por Nereu a Cícero de Oliveira, dirigente da Transwolff.

Na conversa entre Nereu e Cícero, logo após as mensagens que informam sobre a presença em agenda da "inauguração da escola do nome da mãe do chefe Milton" ?referência ao CEI (Centro de Educação Infantil) Nathalia Pereira da Silva, em M'Boi Mirim?, o sargento envia a mensagem "Capitão me passou".

A reprodução das mensagens no inquérito não traz o rótulo "Encaminhada", típico do aplicativo WhatsApp. No entanto, elas passaram por uma extração automática por meio de um software antes de aparecerem nas páginas do documento, e estão numa configuração diferente da que se vê na tela.

CAPITÃO

Nereu foi ouvido e indiciado no último dia 19. Nessa mesma data, também foi interrogado e igualmente indiciado o capitão Alexandre. O oficial da PM negou qualquer envolvimento com o crime organizado e, também, que soubesse que dirigentes da Transwolff tivessem elo com o PCC.

"O capitão Alexandre nunca negou que ele administrou e gerenciou serviços particulares, privados, de segurança para Transwolff. Para a empresa Transwolff. E o que acontece? O principal motivo que ele tem para dizer jamais ter desconfiado de qualquer ilegalidade dentro da Transwolff é o fato de a empresa prestar serviço para a Prefeitura Municipal de São Paulo, contrato público", disse o advogado Mauro Ribas.

O defensor também afirma não ver motivos para a prisão de seu cliente, a não ser político. "Até agora não ficou claro no processo o que mudou de junho de 2024 para agora, 2026. Foi em 2024, quando a Corregedoria tomou conhecimento dessa prestação de serviço, que foi interrompida naquela época. Por que somente agora foi decretada essa prisão? Sendo que não há fato novo nenhum?"

O capitão atuava na Assessoria Policial Militar da Câmara desde outubro de 2014. Ele ingressou no setor durante a gestão do petista José Américo e lá permaneceu durante a presidência de outros quatro vereadores, incluindo Leite e o atual mandatário, Ricardo Teixeira (União).