Brasil tem 826 mil crianças na fila de espera por vaga em creche, mostra levantamento
SÃO PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O Brasil registrou 826.371 crianças na fila de espera por uma vaga em creche em 2025. Ao menos 52% dos municípios brasileiros reconhecem que não conseguem atender toda a demanda para essa etapa do ensino.
Os dados são do Levantamento Nacional Retrato da Educação Infantil no Brasil 2025, feito pelo Gaepe-Brasil (Gabinete de Articulação para a Efetividade da Educação) e pelo MEC (Ministério da Educação).
O levantamento mostra ainda que a demanda por creche aumentou 30,6% no país em apenas um ano ?em 2024, 632,7 mil crianças aguardavam por uma vaga. Apesar disso, a ampliação da oferta para essa etapa de ensino foi freada no Brasil.
Dados do Censo Escolar 2025, divulgados nesta quinta-feira (26), mostram que o número de crianças matriculadas em creches recuou 0,13%. A queda é puxada pela redução nas escolas particulares, que perderam 2,47% das matrículas nesse período. Na rede pública, houve aumento de apenas 1,5%.
De 2024 a 2025, as redes públicas de ensino tiveram um aumento de apenas 29.077 matrículas em creche, o que atende apenas 3,5% das famílias que aguardam por uma vaga nessa etapa.
A falta de vagas em creches, que atendem crianças de até três anos, é um dos grandes desafios da educação brasileira. Pesquisas internacionais e nacionais têm reforçado a importância da educação na primeira infância para o desenvolvimento educacional e sucesso na vida adulta.
Apesar do crescimento tímido da oferta de vagas nessa etapa, o ministro da Educação, Camilo Santana, comemorou os dados ao apresentar o Censo Escolar nesta quinta.
Segundo ele, o Brasil conseguiu aumentar a cobertura de atendimento para essa faixa etária, garantindo que 41,8% das crianças de até três anos estavam matriculadas em creche ?alta de apenas 2 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
Mesmo com o aumento da fila de espera por vaga em creche, o ministro atribuiu a baixa ampliação de matrículas nessa etapa a uma "questão cultural".
"Há um desafio cultural, porque a matrícula nessa etapa de ensino não é obrigatória. Tem muitos pais que não querem colocar seus filhos na creche", disse o ministro.
Os dados do Retrato da Educação Infantil, no entanto, mostram que o poder público não tem conseguido atender à demanda das famílias. Das mais de 826 mil crianças na fila de espera, 238 mil têm menos de um ano de idade.
"O fato de o aumento da fila se concentrar sobretudo entre as crianças menores, com menos de um ano, indica que já há, sim, uma maior confiança das famílias na creche. Claro que a necessidade de trabalho dos pais também é um fator importante, mas a procura nos indica que há mais confiança na creche", diz Alessandra Gotti, coordenadora do Gaepe-Brasil.
Para ela, o ritmo de ampliação das matrículas em creche está muito aquém do que o país precisa para reduzir as desigualdades educacionais e socioeconômicas nos próximos anos.
"Sendo o Brasil um país extremamente desigual e tendo comprovado que a educação infantil é a principal estratégia para combater essa desigualdade, nós precisamos acelerar o ritmo de expansão das vagas nessa etapa. Precisamos de ações concretas para atender a essas crianças."
Ela destaca ainda que a maioria das crianças na fila de espera é justamente a mais vulnerável. Por isso, defende que, além da ampliação de vagas, o país consolide um sistema de regras para priorizar o atendimento às famílias com maior vulnerabilidade.
A legislação brasileira não prevê a obrigatoriedade da matrícula de crianças com menos de quatro anos, mas o estado é obrigado a oferecer a vaga quando houver demanda. O PNE (Plano Nacional de Educação) previu que o país garantisse até 2024 metade das crianças da idade matriculada, o que não foi alcançado.
