Deputado do RJ Rodrigo Bacellar é indiciado sob suspeita de vazar dados ao Comando Vermelho

Por BRUNA FANTTI

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil), o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, e outras três pessoas foram indiciados pela Polícia Federal sob suspeita de repassar informações sigilosas a integrantes do Comando Vermelho.

Também foram indiciados Flávia Júdice Neto, Jéssica Oliveira Santos e Tharcio Nascimento Salgado.

Em nota, o advogado Daniel Bialski, defensor de Bacellar, afirmou que "inexiste qualquer elemento probatório para pretender lhe imputar qualquer participação em ilicitude ou vazamento, ao contrário, só há ilações desamparadas. Dessa forma, arbitrário e abusivo o indiciamento efetivado, realizado muito mais para justificar a ação açodada da Autoridade Policial, do que respaldada em elementos sérios e comprometedores".

A reportagem procurou a defesa de Flávia e TH Joias por telefone e mensagem, e os advogados ainda não se manifestaram. As outras defesas não foram localizadas.

O desembargador Macário Judice Neto, do TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região), que chegou a ser preso durante as investigações, não foi indiciado. De acordo com a Polícia Federal, a decisão segue as regras previstas na Lei Orgânica da Magistratura, que estabelece procedimentos específicos para a responsabilização de magistrados.

ENTENDA O CASO

O então presidente da Alerj Rodrigo Bacellar foi preso no dia 3 de dezembro de 2015 sob suspeita de avisar o então deputado TH Joias, detido em setembro do mesmo ano, que ele seria preso.

Entre as conversas registradas na véspera da prisão de TH Joias, o então deputado chama Bacellar de 01, e este responde com uma figurinha de um homem bebendo cerveja, após ser avisado por TH de que havia comprado um celular novo. Já no dia da operação, Bacellar é avisado em tempo real, por foto, da presença da Polícia Federal, que tentava cumprir o mandado de prisão contra TH.

A defesa de Bacellar afirma que ele não atuou para obstruir investigações e que ele negou ter vazado informações a possíveis alvos de operações da Polícia Federal.

Segundo a Polícia Federal, TH comprou um celular novo na noite anterior à operação e colocou Bacellar como primeiro contato na lista de comunicação urgente. Após ser chamado de "01" por TH, Bacellar responde com a figurinha. Essa resposta, para os investigadores, sugere que ele já tinha conhecimento da troca de celular e do plano de fuga.

No dia da operação, às 6h03, TH não foi encontrado em sua residência no condomínio Mansões, na Barra da Tijuca, zona sudoeste do Rio de Janeiro. Ele, no entanto, foi localizado horas depois em outro condomínio.

Enquanto a PF estava na casa de TH, o então deputado enviou a Bacellar uma foto de um celular contendo imagens do sistema de segurança do imóvel, que mostravam a equipe policial dentro da residência. O local estava revirado e faltavam móveis.

Os investigadores afirmaram ainda que, como presidente da Alerj, Bacellar seria "figura central" em esquemas ligados à criminalidade violenta no Estado do Rio de Janeiro. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República ressaltaram que a necessidade da prisão se impunha para garantir a ordem pública, uma vez que os crimes investigados, entre eles organização criminosa armada com participação de funcionário público e obstrução de investigação, revelam "o grau acentuado de vulneração à ordem pública" e a infiltração de interesses ilícitos em estruturas estatais, caracterizando um cenário de "estado paralelo".

Segundo a Procuradoria, a influência de Bacellar não se limitava à assembleia: ele também exerceria ingerência no Poder Executivo estadual, interferindo na nomeação de cargos estratégicos nas polícias Civil e Militar. Esse domínio ampliaria sua capacidade de interferir nas investigações, segundo os investigadores.

Para a PF, o caso representa "o retrato perfeito da espoliação dos espaços públicos de poder pelas facções criminosas no Rio de Janeiro", evidenciando um "verdadeiro estado paralelo" comandado por "capos da política fluminense", responsáveis por vazar informações e inviabilizar operações contra grupos como o Comando Vermelho.

Outro ponto destacado pela investigação foi a reação política imediata à deflagração da Operação Zargun. Conforme a PF, houve uma "célere manobra regimental" articulada pelo governador e pela cúpula da Alerj logo após as medidas cautelares.

A manobra permitiu o retorno instantâneo de um deputado titular ao cargo, resultando na exoneração do suplente TH Joias no próprio dia da operação. Para os investigadores, essa articulação constitui "forte indício de que o vazamento de informações pode ter tido como objetivo primário a proteção de agentes políticos aliados à organização criminosa".

Além disso, a PF aponta que um objetivo subjacente à obstrução seria a "manutenção do vínculo desses agentes políticos com o Comando Vermelho", facção que representa "milhões de votos no pleito eleitoral que se avizinha", dada sua influência territorial no estado.

A decisão do STF também alcançou o assessor parlamentar Thárcio Nascimento Salgado, para quem foram aplicadas medidas cautelares diversas da prisão. Thárcio teria fornecido auxílio material para que TH Joias fugisse na véspera de sua captura.

Já o juiz federal Macário Judice Neto foi preso após o celular de Bacellar ter sido analisado. Diálogos ocorridos de outubro a dezembro de 2025 mostram um vínculo de intimidade entre Bacellar e Macário.

O juiz federal foi preso no dia 16 de dezembro sob suspeita de irregularidades envolvendo a condução do caso do ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos, TH Joias. O magistrado, relator do caso, teria avisado Bacellar da operação que, por sua vez, teria comunicado TH. As defesas negam.

Já Flávia Ferraço Lopes Júdice, esposa do juiz federal Macário Júdice Neto, trabalhou até o início de novembro deste ano ligada ao presidente da Casa, Rodrigo Bacellar (União).