Surto de coqueluche entre yanomamis afeta bebês e envolve coinfecções e fragilidade em vacinação
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O surto de coqueluche entre yanomamis, que obrigou o Ministério da Saúde a fazer uma ação de emergência no território em Roraima, envolve bebês em sua maioria, coinfecções por vírus respiratórios e uma fragilidade na vacinação de crianças e gestantes.
Os apontamentos foram feitos pela Secretaria de Saúde de Boa Vista, a capital mais próxima da terra yanomami, e pelo Hospital da Criança Santo Antônio, unidade de referência que recebeu crianças indígenas transferidas do território em razão da gravidade do estado de saúde.
Um boletim epidemiológico do último dia 23, elaborado pela secretaria e pelo hospital, registra a confirmação de 15 casos de coqueluche, entre 1º de janeiro e 22 de fevereiro deste ano, dos quais 13 se referem a crianças indígenas -11 da região de Surucucu na terra yanomami e 2 da Venezuela; os yanomamis também estão na área contígua no território venezuelano.
Conforme os dados reunidos, 12 confirmações de coqueluche se referem a bebês com menos de 1 ano de idade. Os outros casos dizem respeito a crianças com idade entre 1 e 4 anos, segundo o boletim.
No dia 19, o Ministério da Saúde confirmou a ocorrência de três mortes de crianças yanomamis por coqueluche e de oito casos ao todo, segundo a detecção feita pelo DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) Yanomami, que atua com equipes de saúde na região.
O ministério investiga o que está por trás do possível surto da doença, uma infecção respiratória causada por uma bactéria, evitável por vacinação e que tem como principal característica crises de tosse seca, com potencial de danos à traqueia e brônquios.
Os últimos boletins sobre a emergência em saúde pública na terra yanomami, que já dura três anos, não mencionam a incidência de coqueluche na área ao longo de 2025. Os casos foram detectados em 2026.
Os dados mais recentes do ministério, fornecidos à reportagem, apontam 16 casos confirmados, com seis internações em curso.
"Não há fragilidade do Programa Nacional de Imunização no território yanomami", disse a pasta, em nota.
Em 2022, 29,8% das crianças yanomamis com menos de 1 ano tinham o esquema vacinal completo, conforme o ministério. Em 2025, esse índice foi de 57,8%. Já entre crianças com menos de 5 anos, no mesmo período, a cobertura foi de 52,9% para 73,5%, segundo o órgão.
Para conter surtos de coqueluche, a taxa deve ser superior a 90%, segundo especialistas. Quanto menor a criança, maior o risco de incidência grave da doença.
"A força-tarefa do ministério na região, desde o início de fevereiro, realizou 1.048 atendimentos, com 108 indígenas vacinados e 238 doses aplicadas no DSEI Yanomami. Também foram administradas 350 quimioprofilaxias para coqueluche", cita a nota.
Em janeiro de 2023, o governo Lula (PT) declarou emergência em saúde pública na terra yanomami, em razão da grande quantidade de casos de desnutrição grave, de outras doenças associadas à fome -como pneumonia e diarreia- e da incidência descontrolada de malária.
A crise estava associada à presença de cerca de 20 mil garimpeiros invasores no território, tolerados e estimulados pelo governo Jair Bolsonaro (PL).
Mais de três anos depois de iniciadas as ações de emergência em saúde, o governo diz que houve redução de mortes e de incidência de doenças associadas à fome, assim como uma redução de 98% nos alertas de novas áreas de garimpo, em razão da expulsão dos invasores.
A crise, porém, permanece, e inclui o surto recente de coqueluche entre bebês e crianças pequenas.
Segundo a Secretaria de Saúde de Boa Vista, os casos confirmados envolvem crianças de sete aldeias na região de Surucucu, uma porção central do território, que conta com um polo de atendimento médico ampliado durante a emergência em saúde pública. Duas crianças com coqueluche são de Boa Vista e não são indígenas, conforme os dados compilados.
Em dez casos, houve coinfecção com outros vírus respiratórios, segundo o boletim epidemiológico, o que pode provocar agravamento dos casos, prolongamento da tosse e evolução para síndrome respiratória aguda grave. Casos graves do tipo foram constatados no Hospital da Criança.
Uma parte das crianças precisou de atendimento em UTI (unidade de terapia intensiva). Além das mortes por coqueluche, houve uma morte por síndrome respiratória grave, conforme o boletim epidemiológico.
Medidas de contenção do surto são feitas tanto nas áreas indígenas quanto no Hospital da Criança, conforme a secretaria. Os casos, porém, demonstram uma fragilidade do programa de imunização, tanto na vacinação de crianças quanto de gestantes, segundo o registro epidemiológico.
Para tentar conter o surto, uma equipe de saúde foi enviada como reforço para Surucucu. Há busca ativa por novos casos, coleta de material para análise clínica e reforço de vacinação das crianças nas aldeias, segundo o Ministério da Saúde, que diz que todos os pacientes com suspeita de coqueluche e contactantes estão em tratamento ou acompanhamento.
