Diante do aquecimento global, cientistas correm para guardar gelo do mundo na Antártida

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - "O gelo que está derretendo das geleiras, das geleiras não polares, pode encher a cada minuto cerca de 300 piscinas olímpicas, uma gigantesca massa de água. Enquanto conversamos, já devemos ter perdido algo como mais de mil piscinas."

Era o início da conversa da Folha com Carlo Barbante, professor da Universidade Ca' Foscari, de Veneza, que usava como exemplo o estrago do aquecimento global nos Alpes Europeus para explicar a ideia simples, mas de cara execução, que teve com um colega há pouco mais de dez anos: guardar amostras do gelo das principais montanhas do planeta antes que elas derretam junto com toda a sua informação.

Em 14 de janeiro último, Barbante acompanhou por um streaming a realização do projeto que idealizou. Em um depósito escavado no gelo da Antártida, capaz de manter naturalmente uma temperatura média de 52 graus negativos, com zero emissão, foram depositados pedaços de glaciares de dois pontos da Europa, que apenas nos últimos três anos perdeu 10% de sua massa de gelo.

"Gelo é como uma máquina do tempo, porque se acumula ano após ano nesses locais. Assim, podemos datar as diferentes camadas, atribuindo uma data a cada uma delas", diz Barbante. "Há muitas informações sobre a temperatura do passado, porque temos maneiras de medi-la. Observando a composição isotópica da molécula de água, podemos ver a poluição que tivemos antes, porque, é claro, quando a neve cai, ela transporta todos os produtos químicos que estão na atmosfera."

A neve que caiu nos últimos milhares de anos formou os glaciares nas principais cadeias montanhosas. E cada vez que a neve caía ela carregava consigo pequenas bolhas de ar. "Quando os flocos de neve caem, eles capturam tudo o que está na atmosfera. Partículas de poluição, pólen, talvez até DNA de vírus. Quero dizer, tudo o que está na atmosfera", afirma Anne-Catherine Olhmann, da Universidade de Grenoble, diretora da Ice Memory Foundation, que foi montada para idealizar a empreitada no começo desta década.

Camadas subsequentes de neve, cada uma com as respectivas informações de suas épocas, foram se compactando e se transformando no gelo que depois compuseram as geleiras. Essas "cápsulas do tempo", como descreve a professora, permitem que os cientistas consigam "reconstituir a atmosfera e o ar que existiam na época em que aquela neve caiu na Terra". Há centenas ou milhares de anos.

Amostras do Mont Blanc, o pico mais alto da Europa, na fronteira franco-italiana, carregam a história de mil anos atrás. "Já o Illimani, pouco acima de La Paz, na Bolívia, conta o que aconteceu há 20 mil anos", diz Olhmann. "Na Antártida, 800 mil anos."

O ciclo natural dos glaciares encontrou o homem pelo caminho, que no último século e meio vem emitindo gases do efeito estufa, sobretudo com a queima de combustíveis fósseis, e aquecendo o planeta. História que também é contada pelo gelo dos glaciares. "Eles nos permitem contextualizar com precisão o que está acontecendo hoje, pois comparamos a concentração atual da atmosfera com o que tínhamos no passado", explica Barbante.

O projeto tomou forma em 2017, com o engajamento da Unesco e de cientistas de mais de dez países. Um deles era Jefferson Simões, do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. "Faz só 200 anos que temos estações meteorológicas. A medição de metano na atmosfera começou apenas no final da década de 1950. E como é que vamos saber o que aconteceu antes desse período? Com amostras de neve e gelo."

O aquecimento global, observa o cientista, está apagando os registros mais modernos, porque as camadas de neve que estão derretendo primeiro são as mais novas. "No Peru, perdemos de 1970 em diante. Ou seja, os últimos 50 anos foram destruídos", diz Simões, que está trabalhando com amostras do glaciar de Quelccaya, nos Andes Peruanos, o maior dos trópicos, a 5.470 m de altitude.

Foram necessárias duas missões para coletar os testemunhos, nome técnico que o glaciologista usa para as seções de gelo --"porque núcleo de gelo [tradução literal do inglês] não quer dizer nada na língua portuguesa". A primeira expedição teve que ser interrompida quando a sonda encontrou água no meio do gelo e foi danificada.

A composição do gelo derretido tem pouca serventia, pois mistura épocas diferentes de registros. "E eles são muitos. Estamos medindo o carbono negro e buscando separar o que vem das queimadas no oeste da Amazônia, reconstruir a história do clima. Tenho colegas que já conseguiram detectar variações de culturas agrícolas pré-colombianas. Só para ilustrar a riqueza de dados que esses registros dão."

A perda da massa de gelo glaciar na América do Sul é ainda mais pronunciada, com cerca de 30% a 35% de derretimento nos trópicos e se estendendo agora para as zonas temperadas. Como o desenvolvimento da tecnologia de pesquisa é crescente, Simões vê a preservação dos testemunhos como um presente para as próximas gerações.

"A gente não quer perder esses registros. Pelo menos deixar que nossos alunos e os alunos deles tenham alguma coisa para fazer", brinca o cientista, com quatro décadas de expedições polares no currículo.

SANTUÁRIO

O chamado Santuário da Memória do Gelo materializou-se no fim do ano passado, quando Barbante e outros colegas da estação Concordia, de administração franco-italiana na Antártida, começaram a escavar o depósito que abrigaria meses mais tarde os testemunhos de dois glaciares europeus: Col do Dôme, nos Alpes Franceses, próximo ao Mont Blanc, extraído em 2016, no primeiro passo do projeto; e Grand Combin, na Suíça, obtido no ano passado.

"Temos dez glaciares perfurados. O objetivo é chegar a 20, representando o máximo possível o globo", afirma Olhmann, a diretora da fundação. As dimensões variam, mas os testemunhos de gelo não polar em geral são perfurações que chegam a 100 m, com seções de 2 m de comprimento sendo retiradas uma a uma. Se há água no meio do caminho, como ocorreu no Peru, com Simões, e recentemente em uma expedição no Mont Blanc, o procedimento tem que ser refeito em outro lugar.

Barbante narra o longo périplo dos primeiros testemunhos para alcançar a Antártida. "As amostras estavam armazenadas em congeladores em Veneza, Grenoble e em outros locais; no ano passado, foram transferidas para Trieste e, de lá, a bordo de um quebra-gelo, até a Nova Zelândia. Demorou cerca de 45 dias para atravessar os trópicos; e mais 15 dias da Nova Zelândia até chegar à costa da Antártida."

Os testemunhos foram desembarcados na estação italiana Maria Zucchelli. "Depois, 1,7 tonelada de gelo [acondicionadas em caixas] foram transportadas em um avião para o interior do continente, a cerca de 1.200 km da costa e a 3.200 m de altitude. Uma viagem de aprendizagem, com muita incerteza e chance de fracasso. Mas conseguimos."

Uma operação dispendiosa, que será repetida pelos próximos anos até que seja completado o objetivo de duas dezenas de testemunhos depositados na caverna de gelo antártico. Os recursos para tanto vêm das universidades participantes, dos conselhos nacionais de pesquisa de França e Itália e da Fundação Príncipe Albert 2º de Mônaco. O príncipe, inclusive, é o presidente honorário da Ice Memory Foundation.

Outra possibilidade de locação para o depósito, a Groenlândia foi descartada. Além do aquecimento do Ártico estar mais acelerado, a disputa geopolítica em torno da região, evidenciada pelas recentes ameaças de Donald Trump ao território que pertence à Dinamarca, parece cada vez mais incontornável.

Assinado em 1959, o Tratado da Antártida reserva o continente para a pesquisa científica e para a paz. "Esperamos que assim seja para sempre", diz Barbante.