Ato contra feminicídio reúne ministras e família de Tainara na zona norte de SP
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Aqui onde a gente mora, os homens acham que podem fazer o que quiser. Eu mesma fui vítima de uma agressão no bairro, do meu ex-namorado. Eles fazem porque sabem que não vai dar em nada", diz Solange dos Santos, 33, vizinha de Tainara Souza Santos, 31, atropelada e arrastada por um quilômetro por Douglas Alves da Silva, em novembro de 2025. Ela morreu em dezembro, após passar quase um mês internada no Hospital das Clínicas.
A via onde ocorreu o crime contra Tainara, no Parque Novo Mundo, na zona norte de São Paulo, foi ocupada neste domingo (1º) por um ato convocado pelo Ministério das Mulheres contra o feminicídio.
O Ato Memorial Pela Vida das Mulheres reuniu moradores da região -muitos amigos e vizinhos de Tainara- e integrantes de movimentos como a União Brasileira de Mulheres (UBM), a Unificação das Lutas de Cortiços e Moradia (ULCM) e a Frente da Luta por Moradia (FLM).
A concentração ocorreu na avenida Tenente Amaro Felicíssimo da Silveira, no acesso à Marginal Tietê -trajeto pelo qual Douglas arrastou Tainara, presa ao carro. Ele está preso e responde por feminicídio.
O ato marcou a inauguração de um mural de 184 metros, pintado por mais de 30 grafiteiras em homenagem a mulheres vítimas de violência de gênero. Entre elas está Priscila Versão, 22, amiga de Tainara, morta em 23 de fevereiro pelo ex-companheiro.
"A mulher não pode mais falar 'não' pro homem?", questionou Lúcia Aparecida da Silva, mãe de Tainara, ao falar ao microfone. Junto à filha Tatiana, irmã de Tainara, ela fez um apelo às autoridades. "Presidente Lula, se minha voz chegar ao senhor, te peço como mãe que o senhor nos ajude", completou.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, afirmou que a caminhada abre a agenda de março, mês do Dia Internacional da Mulher (8). A pasta integra o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 4 de fevereiro, após a alta de assassinatos de mulheres em 2025.
"O trabalho conjunto será importante para os Poderes cobrarem ações uns dos outros. A violência contra a mulher não é resultado só da falta de política pública, mas da cultura do machismo introjetada na sociedade, da falta de cumprimento das leis", disse a ministra.
Segundo ela, o pacto prevê agilizar medidas protetivas, ampliar o compartilhamento de informações entre órgãos públicos, capacitar agentes e enfrentar a violência digital, com atenção a grupos vulneráveis. A iniciativa não terá foco restrito a uma área específica, mas atuará em três eixos: enfrentamento à violência, autonomia e política de cuidados.
Também participaram do ato as ministras Marina Silva (Meio Ambiente) e Sonia Guajajara (Povos Indígenas) e o ministro Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário).
NÚMEROS DO FEMINICÍDIO NO BRASIL
Em 2024, o Brasil registrou 1.492 feminicídios, alta de 1,2% em relação a 2023 e o maior número da série iniciada em 2016, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública -o equivalente a cerca de quatro mulheres mortas por dia. Desde a tipificação do crime, em 2015, 13.448 mulheres foram assassinadas no país.
Só na última semana, ao menos quatro mulheres com menos de 30 anos foram mortas por ex-companheiros ou namorados em São Paulo. Além de Priscila, estão entre as vítimas Vitória Pedroso, morta dentro de casa; Cibelle Alves, esfaqueada no trabalho; e Júlia Trovão, baleada dentro do carro, na frente do filho de oito anos. Três delas tinham medidas protetivas ou boletins de ocorrência contra os agressores.
O estado de São Paulo registrou 27 casos de feminicídio em janeiro deste ano, cinco vítimas a mais do que o número registrado no mesmo período no ano passado. Ao longo de 2025, foram 270 vítimas, maior número desde o início da série histórica, em 2018.
Os dados, divulgados nesta sexta-feira (27) pela Secretaria da Segurança Pública do estado (SSP), indicam que, em 15 das ocorrências, os autores foram presos em flagrante. As cidades do interior paulista registraram 20 mortes no primeiro mês deste ano, com 12 prisões em flagrante. As demais vítimas foram mortas na capital e na região metropolitana.
