'Trump pode discordar, mas o futuro da economia global é verde', diz ex-diretor da ONU

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Mudança do clima, novas tecnologias, pandemias, segurança algorítmica. Há muita coisa no mundo contemporâneo difícil de ser controlada. Na Universidade de Oxford, Achim Steiner desenvolve uma plataforma que trata riscos globais à luz da segurança nacional. "Buscamos analisar, a partir de múltiplas perspectivas geopolíticas, quais são os interesses compartilhados entre países apesar de suas diferenças neste momento tão complicado."

Ex-diretor do Pnuma e do Pnud, os programas das Nações Unidas para meio ambiente e desenvolvimento, Steiner vê pelo menos uma certeza nos próximos 25 anos: a história da crise climática será impulsionada pela lógica econômica e pela lógica de segurança nacional, não mais por imperativos ambientais.

"O senhor Trump pode discordar, mas o futuro da economia global é verde."

Esse e outros temas serão discutidos em junho na Conferência de Sustentabilidade de Hamburgo, liderada por Steiner, um alemão que nasceu e morou no Brasil até os dez anos. Do evento, em edições anteriores, já saíram a adesão alemã para a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e a proposta de taxação de bilionários, iniciativas capitaneadas pelo Brasil.

"Costumo dizer que os próximos anos serão como estar em um avião atravessando uma tempestade. Precisamos de perspectiva, precisamos de orientação. Vai ser um período difícil, mas isso não significa que, do outro lado, o tempo não estará bom."

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PERGUNTA - Em Davos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fez um discurso importante sobre as potências médias. Uma frase foi marcante, quem não estiver à mesa para a discussão?

ACHIM STEINER - ...estará no cardápio.

P - Exato. Ele estabeleceu um debate. O Brasil está entre essas potências médias e as questões ambientais, a sustentabilidade também estão à mesa, não?

AS - É interessante como às vezes um discurso se torna um momento memorável porque toca em todos os pontos certos. Como o discurso de Reagan, "Senhor Gorbachov, derrube este muro". O discurso de Mark Carney foi amplamente notado porque falou sobre muitas coisas que as pessoas estão vendo, mas não admitindo.

O que são potências médias e qual é o papel delas? É menos definição científica e mais conceito, a maioria dos países não é formada de grandes potências. Precisamos ler nesse discurso que, na verdade, as grandes potências não governam se a maioria dos países colocar limites em torno desse poder.

Seria interessante ver se as potências médias podem, de certa forma, reverter essa sensação de que o direito internacional está entrando em colapso, de que o multilateralismo está sendo desmantelado. Carney está essencialmente dizendo que podemos fazer algo sobre isso. Antes, é preciso reconhecer o quanto já avançamos nessa ruptura, como ele chamou.

P - Nesse cenário, o presidente Lula tem obtido dividendos diplomáticos, inclusive no enfrentamento ao governo Donald Trump, ainda que isso não conte internamente.

AS - Ele tem uma imagem internacional. De líder sindical a presidente, desenvolveu um engajamento estratégico global.

Quando foi reeleito, um de seus primeiros passos foi levar a discussão climática de volta para o Brasil e depois a Belém "porque quero que o mundo veja que isso não é apenas teoria". Quantas pessoas, tenho certeza que no Brasil também, falaram "meu Deus, Belém, como organizar isso".

P - O senhor Merz não gostou muito de Belém?

AS - Não tenho comentários [risos]. Acredito que o presidente Lula entende que a economia do Brasil, o desenvolvimento do país, não depende apenas de escolhas da política doméstica. A natureza punitiva de poder que o Brasil experimentou nas mãos dos EUA é um lembrete muito direto de que o país precisa do resto do mundo.

Seu engajamento com os Brics, por exemplo, é outra abordagem interessante: um clube pragmático de países que se unem e dizem que tem interesse compartilhado em certas questões. A questão do clima?

Há momentos ideológicos e políticos diferentes se desenrolando na América do Sul neste momento, mas isso não significa que a região não tenha interesses compartilhados. O Brasil e outros países podem trazer a região à mesa, porque caso contrário ela simplesmente será repartida.

A recente negociação entre União Europeia e Mercosul mostra que, quando os países alavancam seu poder econômico e de mercado, há ganhos significativos a serem alcançados. Em ano eleitoral, estrategistas não necessariamente dirão por favor, presidente Lula, presidente Sheinbaum ou quem quer que seja, gaste tempo em questões internacionais. Mas esse é sempre o dilema para um político. O que fazer em termos do que é popular e o que fazer no que é essencial e estrategicamente importante.

P - O senhor mencionou o acordo UE-Mercosul. Do ponto de vista da sustentabilidade, há uma grande oposição na Europa sobre o assunto.

AS - Em todo acordo comercial reside potencialmente uma amplificação da insustentabilidade, porque você não está abordando a transição que os diversos setores precisam fazer. Mas, francamente, temos muito mais esperança em intensificar as relações econômicas e comerciais como forma de desenvolver economias, tirar pessoas da pobreza, do que fechando o comércio.

Agora, há uma questão legítima: você se torna cúmplice da destruição ambiental se está comprando algum desses produtos? Talvez. Mas lute essa batalha com o consumidor. O consumidor não precisa comprar esses produtos.

Veja a moratória da soja. Os produtores, o governo, o público precisa se perguntar sobre que tipo de sinal econômico querem enviar para o mercado consumidor. O Brasil experimentou isso com o etanol, nos anos 1980, que a Europa recusou. Mas não podemos de fato resolver todo o drama da sustentabilidade através de um acordo comercial.

P - Retrocessos ambientais ocorrem também na Europa e na Alemanha.

AS - Estamos vendo em alguns países esse pêndulo oscilando para lá e para cá, em grande parte por razões que têm menos a ver com as questões ambientais, mas com política, que as instrumentaliza.

Para um alemão, eu diria: você acha que os últimos 20 anos realmente foram errados? Mesmo que este país agora produza 50% da sua eletricidade essencialmente de fontes solar e eólica? Há 15 anos, tinha gente que dizia que as luzes se apagariam se passasse de 20%.

O mesmo acontece no Brasil. O governo atual está sim restringindo algumas partes da economia ao interromper o desmatamento ilegal na Amazônia, mas a grande maioria dos brasileiros está se beneficiando dessa decisão.

O futuro da nossa economia global é verde. O senhor Trump pode discordar, o senhor Bolsonaro pode discordar, qualquer cidadão pode discordar, mas vamos olhar para os fatos. A história das mudanças climáticas dos próximos 25 anos vai ser amplamente impulsionada pela lógica econômica e pela lógica de segurança nacional, não pelo imperativo ambiental. Quando a segunda maior economia do mundo, a China, em seu próximo plano quinquenal, deixa explícito que a transição para a economia verde está no centro de seu desenvolvimento, todos os países deveriam prestar atenção.

P - O senhor trabalhou muito tempo na ONU. Como vê a situação da entidade e os cortes de financiamento promovidos pelos EUA?

AS - Uma questão é a sensação de frustração. Há muitos problemas, e a ONU não tem o poder mágico de resolvê-los. Mas, quando os países concordam que algo precisa ser resolvido, ela consegue. Se não concordam, é muito difícil fazer qualquer coisa. Outra questão é o desmantelamento deliberado do direito internacional, das plataformas de cooperação.

Passamos 250 anos construindo uma economia energética em torno de combustíveis fósseis. Aí a ONU estabeleceu o IPCC, a convenção-quadro, em 1992, no Rio. As COPs permitiram que 7 bilhões de pessoas se sentassem à mesa e negociassem, mesmo com responsabilidades e realidades muito diferentes. E o fato é que, no ano passado, 70% de todos os novos investimentos do planeta em infraestrutura elétrica foram de energia limpa.

Tem sido muito complexo, muito lento, mas pense quem mais teria sido capaz de reunir o mundo assim. Creio que a ONU está sendo deliberadamente precarizada porque isso reforça o poder de alguns países às custas da grande maioria. Queremos realmente desistir de algo que construímos imperfeitamente ao longo de oito décadas para quê? Quando os países concordam, eles ainda podem fazer o multilateralismo funcionar.

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RAIO-X I ACHIM STEINER, 64

Carazinho (RS), 1961. Filho de um agricultor alemão contratado para desenvolver trigo para cerveja no Rio Grande do Sul, Steiner nasceu e morou no Brasil até os dez anos. Graduado em filosofia, política e economia, chefiou o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e o Programa das Naçõs Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Foi ainda subsecretário-geral da ONU. Pesquisador sênior da Universidade de Oxford, preside o conselho da Conferência de Sustentabilidade de Hamburgo. A terceira edição do evento está marcada para os dias 29 e 30 de junho na cidade alemã.