Ocupação em áreas de deslizamento triplica e agrava risco de tragédias climáticas, aponta MapBiomas
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A urbanização do Brasil avançou em ritmo mais intenso nas áreas sujeitas a riscos de erosão e deslizamentos, segundo o mapeamento anual divulgado nesta quarta-feira (4) pela rede colaborativa de pesquisadores MapBiomas.
A ocupação urbana em altas declividades -terrenos com mais de 30% de inclinação- aumentou mais de três vezes no Brasil entre 1985 e 2024, passando de 14 mil hectares para 43,4 mil hectares. Desse total, 93% estão na mata atlântica.
A expansão nesses terrenos mais sujeitos a deslizamentos superou proporcionalmente o crescimento de 2,5 vezes da urbanização do Brasil no mesmo período, que passou de 1,8 milhão de hectares para 4,5 milhões de hectares, alcançando 0,5% do território nacional.
Minas Gerais é o estado com a maior área urbanizada em alta declividade no Brasil. Entre 1985 e 2024, essa área triplicou, chegando a praticamente 14,5 mil hectares. Juiz de Fora é a terceira cidade com maior área de urbanização em terrenos acima de 30% de inclinação no país, atrás apenas das cidades de Rio de Janeiro e São Paulo. Entre 1985 e 2024, essa ocupação aumentou 2,3 vezes -eram 547 hectares, chegando a 1.256 hectares em 2024.
Escorregamentos de encostas provocaram mais de 70 mortes na zona da mata mineira devido às chuvas extremas da última semana de fevereiro deste ano. Juiz de Fora foi a cidade mais afetada, onde ocorreram 65 óbitos.
"Se considerarmos que tragédias como a da zona da mata estão relacionadas à ocupação de áreas com grande declividade e próximas a rios, os dados mostram que houve um agravante na tendência de grandes desastres provocados por eventos climáticos", afirma o engenheiro ambiental Edimilson Rodrigues, integrante do grupo de mapeamento do MapBiomas.
"O avanço da urbanização sobre relevos acentuados é um padrão muito forte na zona da mata. Juiz de Fora reflete esse problema de forma extrema, embora seja uma cidade média, hoje já é a terceira cidade do país com maior ocupação urbana em áreas de encostas e risco potencial", afirma Talita Micheleti, da equipe do MapBiomas.
Rio Grande do Sul e Santa Catarina foram os estados com maior crescimento de urbanização em alta declividade em termos proporcionais. O aumento foi de sete vezes no Rio Grande do Sul e de seis vezes em Santa Catarina. Rio de Janeiro e São Paulo também tiveram crescimentos expressivos, chegando em 2024 a 8,6 mil e 8,1 mil hectares, respectivamente.
Em 1985, os municípios com mais áreas urbanizadas em regiões de alta declividade eram Rio de Janeiro (1,16 mil hectares), Belo Horizonte (900 hectares) e São Paulo (730 hectares). Em 2024, a liderança continua com o Rio de Janeiro (1,7 mil hectares), porém São Paulo assumiu a vice-liderança (1,5 mil hectares) e Juiz de Fora subiu para a terceira posição (1,3 mil hectares), à frente de Belo Horizonte (1,2 mil hectares).
Outro indicador de exposição a risco ambiental foi o crescimento de 145% da ocupação urbana em terrenos com altura de três metros ou menos em relação a cursos d'água, pois são mais vulneráveis a enchentes, alagamentos e inundações. Esse tipo de urbanização passou de 493 mil hectares, em 1985, para 1,2 milhão de hectares, em 2024.
Rio de Janeiro e São Paulo respondem pelo primeiro e segundo lugares no ranking dos municípios com maior área urbanizada com até três metros de altura da drenagem mais próxima, com 25,62 mil hectares e 19,11 mil hectares, respectivamente. Brasília está na terceira posição, com 16,38 mil hectares.
Roraima tem 46,4% da sua área urbanizada em situação de vulnerabilidade a enchentes, ocupando a primeira posição entre os estados com maior risco para esse tipo de ocorrência. Em segundo lugar vem o Rio de Janeiro, com 43%, seguido pelo Amapá, com 37,6%.
As favelas em terrenos com alta declividade passaram de uma área total de 2.266 hectares, em 1985, para 5.704 hectares, em 2024, representando um aumento de mais de 150%. O Rio de Janeiro lidera com 1.730 hectares, seguido por São Paulo (1.061) e Minas Gerais (1.057).
A área de favelas com risco de alagamento aumentou em mais de 200%, passando de 15.847 hectares para 45 mil hectares. Pará (7.450 hectares), Rio de Janeiro (5.260 hectares) e São Paulo (4.650 hectares) lideram o ranking dos estados com maiores áreas nessa condição.
O Rio de Janeiro se destaca por reunir uma das maiores proporções do país de áreas urbanizadas expostas a enchentes, com 43% em até três metros do nível da água, o que corresponde a cerca de 1,1 milhão de hectares de urbanização próxima à drenagem.
