8 em 10 feminicídios no país foram cometidos pelo ex ou atual parceiro; 62% das vítimas são negras
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mulheres negras, mortas dentro de casa e, na maioria das vezes, pelo próprio parceiro ou ex-companheiro. Esse é o retrato predominante dos feminicídios registrados no Brasil, segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira (4) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2025, o país contabilizou 1.568 vítimas, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior.
A análise de 5.729 registros de feminicídio ocorridos entre 2021 e 2024 mostra que 62,6% das vítimas eram negras (3.587 mulheres), enquanto 36,8% eram brancas (2.107). A sobrerrepresentação de mulheres negras entre as vítimas indica que a violência letal de gênero também está associada a desigualdades raciais e sociais.
Segundo o relatório, mulheres negras estão, em média, mais expostas a condições de vulnerabilidade socioeconômica e têm menor acesso a serviços públicos de proteção.
Os dados indicam que a violência atravessa diferentes fases da vida, mas se concentra principalmente na idade adulta. Entre os casos analisados, 1.685 vítimas tinham entre 18 e 29 anos (29,4%), enquanto 2.864 mulheres estavam na faixa de 30 a 49 anos (50%). Outras 887 vítimas tinham mais de 50 anos (15,5%).
Na maioria das ocorrências, o agressor tinha relação direta com a vítima: 59,4% das mulheres foram mortas pelo parceiro íntimo e 21,3% pelo ex-parceiro. Entre os casos com autoria identificada, 97,3% foram cometidos por homens. Apenas 4,9% dos casos foram cometidos por desconhecidos.
Casos recentes registrados em São Paulo ilustram esse padrão. Tainara Souza Santos, 31, morreu após passar quase um mês internada no Hospital das Clínicas depois de ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro por um carro dirigido por Douglas Alves da Silva, com quem havia mantido um relacionamento no passado.
Amiga dela, Priscila Versão, 22, também foi morta meses depois. O suspeito é Deivit Bezerra Pereira, com quem ela teve um relacionamento e dois filhos. Familiares relataram que Priscila chegou a participar de um protesto pedindo justiça pelo ataque contra Tainara.
Em relação ao instrumento utilizado, 2.790 feminicídios ocorreram com arma branca (48,7%), como faca ou machado. Outros 1.443 casos envolveram arma de fogo (25,2%).
Para a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, o dado mostra que o feminicídio muitas vezes ocorre com objetos comuns do cotidiano, disponíveis dentro da própria casa. "Não estamos falando, na maior parte dos casos, de armas sofisticadas. Muitas vezes é uma faca de cozinha, um machado ou um objeto que já está dentro da residência", afirma.
Segundo ela, esse padrão reforça o caráter doméstico da violência. "O feminicídio é um crime de proximidade. Ele acontece no contexto das relações íntimas e dentro do ambiente doméstico, onde esses instrumentos estão facilmente disponíveis."
A residência aparece como o principal cenário dos crimes. 3.797 feminicídios ocorreram dentro de casa (66,3%), enquanto 1.099 aconteceram em vias públicas (19,2%).
Desde a tipificação do feminicídio na legislação brasileira, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas no país por razões relacionadas ao gênero, de acordo com o Fórum. Parte do crescimento das notificações observado no período é atribuído a uma melhora na qualidade do registro.
A defensora pública em Mato Grosso e pesquisadora em violência de gênero Rosana Leite Antunes de Barros destaca que esses dados mostram os desafios da sociedade, principalmente em dar crédito à palavra da mulher.
"Por muito tempo as mulheres foram desacreditadas em suas vivências, inclusive, com o apagamento na história. As estatísticas, diga-se de passagem, com subnotificações, estão a externar o quanto as mulheres precisam se creditadas em suas palavras, vidas e vivências".
Ela pontua que a gravidade da situação somente tem peso quando há evidências em vídeos. "Eles já foram externados mostrando inúmeros crimes cometidos contras mulheres em vários lugares, até em elevadores, hospitais, ruas. Todavia, não precisamos de vídeos e áudios. Quando uma mulher afirmar estar sendo vítima, o que ela precisa é de proteção efetiva."
