Mulheres adultas têm de pagar até R$ 3.000 para se vacinar contra HPV na rede privada

Por GEOVANA OLIVEIRA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando a vacina contra o HPV passou a ser oferecida pelo SUS, em 2014, Paula Vilela tinha acabado de completar 14 anos e não conseguiu receber o imunizante na escola porque havia passado da faixa etária contemplada à época. Hoje, precisa pagar cerca de R$ 3.000 para se vacinar na rede privada.

O câncer de colo do útero é o que mais mata mulheres de até 35 anos no Brasil, segundo dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer) de 2014 a 2024. A doença, causada pelo HPV (papilomavírus humano), pode ser prevenida pela vacina, que é indicada para mulheres de até 45 anos. O alto custo da imunização na rede particular, porém, limita seu alcance.

O Inca estima um aumento de 14% na incidência da doença até 2028, com mais de 19 mil novos casos por ano. Neste 4 de março é celebrado o Dia Internacional de Conscientização sobre o HPV.

A vacina contra HPV passou a ser ofertada no SUS (Sistema Único de Saúde) inicialmente para crianças e adolescentes de 9 a 13 anos. Depois a faixa etária foi ampliada para até 14 anos, contemplando também pessoas imunossuprimidas, vítimas de violência sexual, pacientes de papilomatose respiratória recorrente e usuários de PrEP. Como parte de uma campanha para aumentar a cobertura, até junho deste ano o Ministério da Saúde oferece a vacina também para jovens entre 15 e 19 anos.

Paula, hoje com 26 anos, conta que recebeu de diversos ginecologistas a recomendação de se imunizar contra o HPV, mas ainda não conseguiu. "Queria tomar na rede particular, mas é muito caro. Fui priorizando outras coisas."

O preço de uma dose da vacina nonavalente contra HPV varia de R$ 800 a R$ 1.000 em diferentes laboratórios do país. Para mulheres e homens adultos são necessárias três doses.

No SUS, o imunizante aplicado é o quadrivalente, que protege contra quatro tipos do HPV, incluindo os dois de maior risco cancerígeno. Já a rede privada aplica a nonavalente, que tem cobertura para nove tipos do vírus, responsáveis por 90% dos casos da doença ?há mais de 200 tipos do vírus, dos quais 14 são considerados de alto risco oncogênico.

Letícia Campos, 28, conta que deseja tomar a vacina há anos. Ela diz, porém, que as três doses equivalem a aproximadamente um mês inteiro do seu salário e superam o valor do aluguel que paga em Salvador.

Médicos ouvidos pela Folha de S.Paulo afirmam que, devido ao custo, é difícil convencer pacientes adultos a tomarem a vacina.

"Fica R$ 3.000, em média. Trabalho em uma região de classe média no Rio de Janeiro e é muito difícil alguém pagar esse dinheiro para tomar as vacinas. O preço é um grande limitador", diz Jorge Elias Neto, ginecologista do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Michele Lima, 28, conta que descobriu ter HPV há três anos. Uma biópsia revelou três tipos do vírus, de grau médio ou baixo. Também foi identificada uma lesão no colo do útero, e sua ginecologista indicou a vacina nonavalente para protegê-la do câncer.

"Cada dose custou em torno de R$ 900", diz Michele, que precisou viajar para tomar a vacina, não disponível na cidade de Dom Feliciano (RS), onde mora. "É um valor alto para quem não tem condições."

À Folha de S.Paulo o Ministério da Saúde afirmou que a definição da faixa etária para a vacinação no SUS baseia-se em "critérios técnicos e epidemiológicos e de sustentabilidade" e considera que a vacina apresenta maior eficácia quando aplicada antes do início da vida sexual, período em que há melhor resposta imunológica e maior impacto na prevenção.

Apesar disso, ginecologistas frequentemente orientam a vacinação para mulheres maduras como uma forma de prevenção a longo prazo, além de evitar a reincidência da doença.

A Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) publicou, no ano passado, uma revisão de literatura ressaltando que "há uma geração de mulheres que chegou à idade adulta sem a oportunidade da vacinação contra o HPV".

No documento, a entidade afirma que, no futuro, quando a cobertura da vacinação nos adolescentes for universal, não será necessário discutir a imunização de mulheres adultas, mas que, neste momento, não é possível "perder a oportunidade de indicar a vacinação para mulheres adultas, permitindo os evidentes benefícios, como demonstraram os estudos".

A recomendação vale também para homens adultos. O HPV está associado a cânceres de pênis, canal anal e orofaringe ?em 2024, a Anvisa incluiu na bula da vacina nonavalente a prevenção do câncer de orofaringe.

Em reuniões recentes do Comitê Técnico Assessor de Imunização do Ministério da Saúde, sociedades médicas defenderam incluir no PNI (Programa Nacional de Imunizações) as mulheres submetidas a tratamento cirúrgico por lesões avançadas causadas pelo HPV.

"Somos totalmente favoráveis. Do ponto de vista técnico, é recomendado, mas o Ministério da Saúde avalia também a distribuição", afirma a médica Rosana Richtmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas e coordenadora do Comitê de Imunizações da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

A vacina, nesses casos, protege contra os tipos do vírus aos quais a paciente ainda não foi exposta e reduz o risco de retorno da doença após cirurgia.

"Não sei se há verba suficiente para oferecer três doses a todos de 9 a 45 anos. Mas seria muito interessante selecionar grupos de maior risco e garantir a vacina a eles", diz Elias Neto, da Fiocruz.

Especialistas avaliam que, neste momento, o tamanho da população brasileira inviabiliza a ampliação do público-alvo para até 45 anos, que é a faixa etária contemplada na bula do imunizante.

Richtmann diz reconhecer as limitações impostas pelo preço elevado, mas reforça a importância da vacinação para adultos. "A pessoa pode se programar para fazer esse investimento. São três doses na vida e a proteção, segundo os estudos, é de pelo menos 15 anos", diz.