Vítima de suposto estupro em 2023 foi gravada por acusados e temia exposição do vídeo, diz polícia

Por YURI EIRAS E BRUNA FANTTI

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Parte dos acusados de estuprar uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro teria violentado e gravado uma outra vítima em 2023. A jovem tinha 14 anos na época e não denunciou o caso por medo de ter as imagens expostas, segundo o que a mãe dela disse à polícia.

No relato feito aos delegados, a mãe da vítima menciona nominalmente dois dos envolvidos no caso de janeiro deste ano: Mattheus Veríssimo Zoel Martins, 19, que está preso, e um adolescente de 17 anos, ex-namorado da vítima mais recente. Em 2023, ele tinha 14 anos.

A mãe da vítima de 2023 menciona ainda um homem de nome Gabriel, que a polícia apura se é João Gabriel Xavier Bertho, 19, também preso nesta terça. Tanto João quanto Mattheus tinham cerca de 16 anos na época do suposto crime.

Também indiciados pelo suposto crime de janeiro, Vitor Hugo Oliveira Simonin e Bruno Felipe Alegretti foram presos nesta quarta.

O advogado Ângelo Máximo, que representa Vitor Hugo, afirmou nesta quarta que seu cliente não teve participação no crime de janeiro e é inocente. Sobre a nova acusação, o defensor não quis se manifestar.

Já a defesa de João Gabriel afirmou em nota que ele se entregou em respeito à decisão judicial e que ele e seu cliente "confiam que a Justiça, de forma isenta, irá apurar os fatos e decidirá pela improcedência da denúncia. João Gabriel nega estupro e não teve sequer a oportunidade de ser ouvido pela polícia." Questionado, o advogado não respondeu diretamente sobre a nova acusação.

Mattheus, Bruno e suas defesas não falaram com a imprensa quando se entregaram. A reportagem não conseguiu descobrir quem são os representantes dos dois réus no processo.

DINÂMICA DO CRIME DE 2023 É PARECIDA

O suposto estupro de 2023 teria acontecido no apartamento de Mattheus. De acordo com policiais, a adolescente vítima reconheceu supostos autores e decidiu contar sobre o episódio à mãe na segunda-feira (2), depois da repercussão do caso de janeiro deste ano.

Essa nova vítima relatou que, a exemplo do que ocorreu no caso deste ano, também foi atraída ao local do crime pelo adolescente.

Na residência, além de Matheus, estava o outro rapaz, identificado pelo apelido De Paris. Ao ver que outros homens estavam no local, ela quis ir embora, mas acabou subindo ao apartamento.

Ainda segundo o relato da mãe à polícia, a vítima foi para um quarto com um adolescente, enquanto os outros ficaram na sala. Em determinado momento, enquanto a vítima beijava o adolescente, Mattheus e De Paris passaram a bater na porta.

Nesse momento, o jovem que estava com ela afirmou que iria abrir a porta porque Mattheus é quem iria pagar o transporte da menor de volta para casa.

Após abrir a porta, o adolescente, que até então somente trocava beijos com ela, passou a tirar as roupas da jovem contra a sua vontade. Foi quando começaram as agressões físicas, sexuais e psicológicas que duraram cerca de uma hora e meia. Ela afirmou à mãe que, ao final do estupro, enquanto chorava, ouviu ameaças do adolescente, que teria dito que vazaria os vídeos do crime caso a vítima contasse a alguém.

"Tem um lapso temporal, mas a gente vai usar todas as técnicas disponíveis, de repente uma quebra telemática, porque teria sido um crime gravado. A mãe já esteve aqui e relatou que a filha teria sido gravada, foi uma forma de intimidação para que ela não fizesse o registro de ocorrência. Por isso, talvez esse lapso temporal e que só agora, em 2026, ela [a vítima] viu essa reportagem e teria tomado coragem de denunciá-los", afirma o delegado Ângelo Lages, titular da 12ª DP (Copacabana), que investiga o grupo.

Segundo Lages, a dinâmica dos dois supostos crimes é semelhante, com o adolescente sendo o responsável por atrair as supostas vítimas para um local.

"O adolescente se valeu da confiança da menina e a atraiu até o apartamento. E a segunda vítima relata o mesmo modus operandi, ou seja, ela já tinha ficado com o adolescente, confiava nele e ele a atraiu para o imóvel, sendo que desta vez quem estaria no imóvel era o Matheus."

Na manhã de terça, a delegacia recebeu denúncia de um suposto terceiro caso. Ele teria acontecido em um salão de festas e a polícia ainda investiga quantos suspeitos teriam participado. O depoimento inicial menciona apenas Vitor Hugo.

"A investigação está no começo, a gente precisa avançar. Tudo feito na delegacia é de uma forma muito técnica. Caso realmente tenham cometido crimes com outras vítimas, que eles sejam punidos e responsabilizados", afirmou o delegado.

PASSO A PASSO DO CRIME DE 2026

Segundo relato da vítima e das câmeras de segurança

Por WhatsApp, o ex-namorado pergunta se a vítima estava em Copacabana e a chama para encontrá-lo

Às 19h24, Vitor Hugo Oliveira Simonin, Matheus Veríssimo Zoel Martins e João Gabriel Xavier Bertho chegam ao apartamento onde o crime teria ocorrido

Um minuto depois, a vítima e o ex-namorado chegam. No elevador, o menor diz que amigos estavam no local e que gostaria de fazer algo diferente, e ela diz ter recusado a ideia

No quarto, segundo a vítima, ela e o ex-namorado iniciaram uma relação consensual

Os outros rapazes entram no quarto

Vítima afirma que foi impedida de sair e forçada a praticar sexo com todos. Ela também relata que recebeu socos e tapas e que o ex-namorado a chutou no abdômen

Às 20h25, o ex sai do apartamento com a vítima e depois retorna sozinho

Às 20h42, os cinco jovens deixam o apartamento

Ao voltar para casa, ela procura a família e vai à delegacia

O exame de corpo de delito confirmou a existência de vestígios de conjunção carnal recente, atos libidinosos e violência real. Foram encontradas lesões nas regiões genital, glútea e dorsal

Fonte: relato da vítima; horários constam nos vídeos das câmeras de segurança