Quadrilha dentro da Polícia Civil de SP praticava extorsão e corrupção e usava doleiros da Lava Jato, diz MP
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma operação conjunta do MP-SP (Ministério Público de São Paulo) e da PF (Polícia Federal) cumpre na manhã desta quinta-feira (5) mandados de prisão contra 11 pessoas suspeitas de integrar uma organização criminosa que se utilizava do aparato da Polícia Civil de São Paulo para praticar atos de corrupção, extorsão e lavagem de dinheiro.
Entre os alvos estão quatro policiais civis ?dois investigadores, um delegado e um escrivão?, um advogado e dois doleiros, Meire Poza e Leonardo Meirelles, que já haviam sido presos no âmbito da operação Lava Jato por suspeita de ligações com o também doleiro Alberto Yousseff. A Folha de S.Paulo tenta localizar a defesa deles.
A SSP (Secretaria de Segurança Pública) de São Paulo declarou em nota que "a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades". Afirmou também que a ação "integra um conjunto de diligências voltadas à apuração de possíveis irregularidades envolvendo agentes".
A Corregedoria da polícia participa das apurações para assegurar a responsabilização e apurar eventuais outros ilícitos.
A decisão que autorizou a operação foi assinada pelo juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários e Organização Criminosa de São Paulo, e determinou também a imposição de medidas cautelares contra outros seis investigados, entre as quais o recolhimento noturno e a suspensão da função pública.
O magistrado ainda ordenou o bloqueio e sequestro de até R$ 5 milhões em valores pertencentes aos 17 investigados e autorizou a apreensão de veículos cujo valor de mercado supere R$ 150 mil. A medida, segundo ele, visa "garantir que os recursos possam ser eventualmente utilizados na reparação dos danos, minimizando os efeitos devastadores dos crimes praticados".
Ao dar aval à ação desta quinta, a Justiça cita o "elevado grau de comprometimento e prática de corrupção sistêmica de policiais vinculados ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) e ao 16º Distrito Policial (Vila Clementino)".
Em suma, segundo o Ministério Público, policiais cobravam propina para garantir que apurações não avançassem.
Um dos intermediários da organização criminosa, de acordo com as investigações, era o advogado Marlon Antonio Fontana, alvo de prisão preventiva e cuja defesa a Folha de S.Paulo tenta localizar. Ele era o elo entre potenciais investigados e policiais corruptos, segundo o Ministério Público.
Marlon integra a organização desde pelo menos 2022. Em um dos casos, por exemplo, ele atuou para trocar um HD já apreendido pela polícia durante uma operação por um outro aparelho dentro do qual não havia conteúdo comprometedor algum, segundo a investigação.
Em outro caso, mensagens extraídas do celular dele mostram Marlon orientando investigados por um inquérito na Deic a levar R$ 30 mil em propina a policiais.
Apesar de atuarem para aliviar a situação de determinados investigados, o inquérito conduzido conjuntamente pela PF e pelo MP-SP diz que agentes da Polícia Civil também passaram a extorquir pessoas com informações que nem chegavam a ser juntadas ao inquérito em si.
O MP-SP cita, por exemplo, episódios em que "investigações de gaveta" eram feitas para achacar potenciais alvos e garantir a obtenção de valores indevidos.
