Quadrilha dentro da Polícia Civil de SP praticava extorsão e corrupção em esquema com doleiros da Lava Jato
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma operação conjunta do MP-SP (Ministério Público de São Paulo) e da PF (Polícia Federal) cumpriu nove dos 11 mandados de prisão expedidos contra suspeitos de integrar uma organização criminosa que se utilizava do aparato da Polícia Civil de São Paulo para, segundo as investigações, praticar atos de corrupção e extorsão a fim de travar investigações sobre lavagem de dinheiro.
Entre os alvos estão quatro policiais civis ?dois investigadores, um delegado e um escrivão?, um advogado e dois antigos conhecidos da operação Lava Jato, a contadora Meire Poza e o doleiro Leonardo Meirelles, que atuavam na estrutura financeira do doleiro Alberto Youssef.
A SSP (Secretaria de Segurança Pública) de São Paulo declarou em nota que "a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades".
Afirmou também que "determinou nesta quinta a realização de rigorosas apurações administrativas em todas as unidades onde foram cumpridos mandados de busca e apreensão relacionados à Operação Bazaar, conduzida pelo Ministério Público em conjunto com a Polícia Federal e com a Corregedoria Geral da própria Polícia Civil".
A Corregedoria da corporação auxiliou nas investigações e também fará uma correição extraordinária nos atos praticados pelos agentes nas unidades por onde eles passaram. As diligências, segundo a SSP, começaram pelo 35º Distrito Policial, na região do Jabaquara, zona sul da capital.
A decisão que autorizou a operação foi assinada pelo juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários e Organização Criminosa de São Paulo, e determinou medidas cautelares contra outros seis investigados, entre as quais o recolhimento noturno e a suspensão da função pública.
O magistrado ainda ordenou o bloqueio e sequestro de até R$ 5 milhões em valores pertencentes aos 17 investigados e autorizou a realização de buscas em cinco delegacias da Polícia Civil e no hangar da corporação.
A ação desta quinta-feira é resultado de um inquérito que apura como policiais civis atuaram para evitar que uma organização criminosa alvo de duas operações por lavagem de dinheiro e evasão de capitais, uma em 2022 e outra, em 2023, fosse responsabilizada.
As investigações anteriores apontaram para o uso de laranjas e empresas de fachadas que simulavam operações no exterior para garantir a remessa de valores para fora do país.
Para tanto, as empresas utilizavam criptomoedas e outros ativos digitais de modo "a dificultar o rastreio e permitir a dissimulação da movimentação e propriedade dos valores ilícitos". Antigos conhecidos da Lava Jato, Meire Poza e Leonardo Meirelles eram contadora e doleiro do grupo, respectivamente.
Policiais responsáveis pelo inquérito, porém, nunca chegaram a concluí-lo de fato ?o caso está aberto há mais de cinco anos.
Há razões para isso, diz o MP-SP, e a explicação está na cooptação de agentes de Estado. Em suma, segundo as investigações, policiais cobravam propina para garantir que apurações não avançassem.
Isso começou já na esteira da primeira operação contra o grupo, ainda em 2022. Na época, segundo o MP-SP, integrantes da organização criminosa chegaram a combinar um HD apreendido naquela ocasião.
A manobra se daria por meio do advogado Marlon Antonio Fontana, um dos presos desta quinta-feira e apontado como intermediário do grupo junto a policiais. Em outro caso, mensagens extraídas de um aparelho celular mostram Fontana orientando investigados a pagar R$ 30 mil em propina a policiais.
A Folha de S.Paulo tenta contato com a defesa de Fontana, que em processos anteriores atuou em causa própria.
Um outro intermediário entre a organização criminosa e a Polícia Civil era o policial Rogério Coichev Teixeira, integrante de uma unidade de elite da corporação em São Paulo. Mensagens interceptadas pelas investigações revelaram que um dos integrantes da organização tratava Coichev como "irmão".
Em uma das ocasiões, segundo o MP-SP, ele recebeu R$ 50 mil em espécie no hangar da Polícia Civil no Campo de Marte, em São Paulo.
Em outra, quando obteve R$ 40 mil em vez do valor cheio, perguntou ao terceiro se a diferença seria paga no dia seguinte porque "ficou de levar o dinheiro 'para os meninos', referindo-se aos demais agentes que deveriam receber a vantagem indevida".
Ao dar aval à operação desta quinta, a Justiça fala num "elevado grau de comprometimento e prática de corrupção sistêmica de policiais".
O inquérito menciona também "investigações de gaveta" promovidas pelo 16º Distrito Policial, o da Vila Clementino, envolvendo o delegado João Eduardo da Silva e um escrivão. Ambos foram presos na operação desta quinta. A reportagem tenta localizar a defesa deles.
Segundo o Ministério Público, Silva determinou ainda em 2022 a instauração de um inquérito para investigar crimes de extorsão em tese praticados pela organização alvo das operações por lavagem de dinheiro e evasão de capitais.
Durante as investigações, por sua vez, pediu ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) relatórios de inteligência sobre movimentações financeiras de empresas ligadas ao grupo. Os documentos, porém, nunca foram juntados ao inquérito.
Para o MP-SP, os relatórios serviram como instrumento de pressão para aumentar a probabilidade de se receber vantagens indevidas. Foram R$ 100 mil acertados. O intermediário para essa operação, o advogado Guilherme Sacomano Nasser, chegou a se referir ao delegado como seu "parceiraço" segundo as investigações.
Nasser foi alvo de medidas restritivas. Ele afirmou à Folha de S.Paulo que a operação "representa verdadeira intimidação à atividade da advocacia".
O advogado disse ter sido surpreendido pela operação e afirmou que ainda tenta entender os motivos pelos quais seu nome foi incluído. Segundo ele, seu escritório representa alguns dos investigados apenas em questões empresariais e cíveis, e não na esfera criminal.
Nasser também negou qualquer tipo de intermediação para os demais investigados. "Desconheço esses valores. Nunca intermediamos nada", afirmou.
