Vingança, ameaça e rotina de violência: as histórias das vítimas de feminicídio em São Paulo em 2026

Por PAULO EDUARDO DIAS E MARIANA ZYLBERKAN

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A morte da ajudante geral Tainara Souza Santos, 31, atropelada e arrastada presa ao carro dirigido por um ex-namorado na marginal Tietê, na zona norte de São Paulo, em novembro de 2025, gerou indignação e promessas do poder público de maior atenção à violência de gênero. Mas o ano de 2026 começou com novas notícias de feminicídio no estado.

Somente em janeiro foram cinco registros na capital, quantidade semelhante à observada para o mesmo mês nos últimos anos (sete notificações em 2025 e cinco em 2024). No estado, foram 27 registros neste primeiro mê s contra 22 em 2025. Janeiro é o único mês deste ano com dados disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública até o momento.

Em todo o ano passado o estado registrou 270 feminicídios, o maior patamar desde o início da série histórica, em 2018. Na capital foram 63 mortes --também recorde.

A Lei do Feminicídio foi sancionada em 2015. Antes da mudança na legislação, esses crimes em geral eram registrados como homicídio. Com a alteração, os assassinatos em razão de gênero passou a ser contabilizado separadamente, com o objetivo de acompanhar com mais atenção a evolução das ocorrências e ajudar na formulação de políticas de proteção.

Por questões de gênero, segundo a lei, entende-se o menosprezo ou discriminação à condição de mulher e situações que envolvem violência doméstica e familiar.

Em nota, a gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse que o enfrentamento à violência contra a mulher é prioridade e que tem feito grandes operações para prender agressores, com 2.000 homens detidos nos últimos três meses em flagrante ou por cumprimento de mandados judiciais relacionados a crimes contra mulheres.

A reportagem teve acesso a oito boletins de ocorrência e inquéritos deste ano --os cinco de janeiro e outros três-- e reconstrói a história de algumas das vítimas na maior cidade do país.

Carla Carolina Miranda da Silva, 39

Nascida em Macapá (AP), Carla era descrita por familiares como discreta. Ela já havia confidenciado ao pai que o namorado era agressivo e manifestado intenção de voltar à terra natal, onde moram os três filhos, todos maiores de idade.

O chapeiro José Vilson Ferreira, 30, mantinha com ela uma relação de um ano e meio marcada por violência. Em janeiro de 2025, Carla o denunciou por lesão corporal, ameaça e injúria em uma delegacia, e conseguiu uma medida protetiva. Ela tentava repetidamente se afastar, mas Ferreira a reconquistava com promessas de mudança, contou uma familiar.

Após nova agressão em 30 de dezembro, Carla pediu abrigo a um ex-patrão, que a acolheu por alguns dias. Na noite de 3 de janeiro, por volta das 23h, ela lhe enviou mensagem avisando que estava a caminho. O trajeto consistia em sair do trabalho, pegar um ônibus até o Cambuci e, de lá, seguir para a Liberdade, ambos na região central de São Paulo. Cerca de 40 minutos depois, o ex-patrão ouviu gritos -- só no dia seguinte soube que eram de Carla. Ela morreu no Hospital das Clínicas.

Segundo a investigação, Ferreira esperou escondido atrás de um carro e a esfaqueou várias vezes ao vê-la passar. Na fuga, ligou ao irmão dizendo que "havia feito uma cagada" e pediu abrigo. Foi preso no dia seguinte, deitado na rede na casa de um parente.

Em depoimento, disse que o casal costumava reatar após as brigas e que matou Carla por ciúme. A Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público e tornou Ferreira réu por feminicídio. Ele é atendido pela Defensoria Pública, que não se pronunciou

Isaura Maria da Silva, 74

Entre os 12 netos, Isaura tinha um preferido, Luiz Felipe da Silva Pereira, 34. "Ele era tudo era para ela, o sol, a lua e as estrelas, falava que era o amor da sua vida", diz a filha Adriana Isaura da Silva, 50, mãe de Luiz Felipe.

Usuário de drogas desde os 14 anos, o neto já havia sido preso quatro vezes por agressões e tentativas de homicídio contra a idosa, segundo Adriana. Mesmo assim, ela ia visitá-lo na cadeia. "Ela fazia tudo por ele, até deixava de comer. No domingo antes de morrer, ela deu três garfadas no prato e pediu para deixar o resto para o neto", conta.

A idosa foi encontrada morta em seu quarto, em um anexo da casa da família, na Brasilândia, zona norte de São Paulo, com ferimentos no rosto em 13 de janeiro.

Um dia antes, Isaura havia recebido a pensão, e a filha percebeu comportamento estranho de Luiz Felipe, usuário de drogas. "Acordei e senti cheiro de bebida alcoólica, perguntei e ele desconversou. Vi que ele estava alterado e falando que tinha uma caveira no andar de cima da casa", diz Adriana.

Isaura foi levada para o Hospital da Brasilândia, mas não resistiu. O acusado também foi atendido com ferimentos, vítima de tentativa de linchamento pelos vizinhos. Ele nega as acusações.

O acusado ficou cerca de 15 dias preso. A mãe conseguiu medida protetiva contra o filho na Justiça e tenta se mudar do bairro. "Eu fico me perguntando o que aconteceu. Ele era a pessoa que ela mais amava na vida."

Stephanie da Silva, 26

Ajudante geral em uma escola pública, Stephanie tinha juntado dinheiro e se preparava para colocar silicone nos seios. "A vida dela era criar as filhas que amava muito. Era uma mulher batalhadora, estava sempre feliz e sorridente", diz a irmã Gabriella da Silva Pereira.

O sonho da cirurgia plástica foi interrompido pelo ex-namorado, de quem estava separada havia dois anos, no último dia 1º. Em depoimento à polícia, Davi Rodrigues Barbosa, 34, admitiu que atraiu Stephanie para o motel onde ocorreu o crime com a intenção de matá-la. O motivo eram as desavenças sobre a divisão de bens após a separação, um carro e a casa onde ela morava com as duas filhas. "O terreno é da minha mãe, a casa nunca foi dele", continua a irmã.

A família soube da morte de Stephanie pela filha do agressor de nove anos, que recebeu áudio do pai confessando o crime. "Ela tinha muito medo dele, já tinha registrado boletim de ocorrência quando ela recebeu uma foto dele com uma arma", diz Gabriella. "Eu fico revoltada porque a lei é frágil, nos dá um papel achando que está nos protegendo, mas a gente sabe que a verdade não é essa", diz a irmã.

Stephanie chegou a pedir e conseguiu uma medida protetiva, ação revogada em 2025. O motivo não foi informado no registro de ocorrência. Barbosa está preso. À Folha a defesa do suspeito, representado pelo advogado Thiago César dos Santos, disse ratificar as declarações dele à Polícia Civil. "Eles estavam em processo de divórcio e não estavam chegando a um acordo", disse o advogado.

Priscila Versão, 22

A jovem, que trabalhava como autônoma na venda de produtos de limpeza, tinha o sonho de melhorar de vida e poder oferecer o melhor para os três filhos, segundo a tia, a cabeleireira Sonia Ribeiro Pereira, 42. Para isso, acordava cedo para iniciar as vendas porta a porta e atender o maior número de clientes.

A mãe de Prisicila, a auxiliar de limpeza Selma Alves Ribeiro da Silva, 47, relatou à polícia o sofrimento da filha no relacionamento com Deivit Bezerra Pereira, 35: ciúme excessivo, agressões e ameaças feitas inclusive na frente dos filhos do casal, o mais novo com seis meses. Por medo, Priscila nunca formalizou denúncia.

Câmeras de segurança registraram a tentativa de fuga desesperada de Priscila na madrugada de 23 de fevereiro em uma rua da zona norte de São Paulo. Ela tentou subir em um portão, mas foi derrubada e agredida. Ferida, foi levada por ele ao Hospital Municipal Vereador José Storopolli, no Parque Novo Mundo -- a mesma unidade onde, três meses antes, a amiga Tainara havia sido atendida após ser atropelada por Douglas Alves.

Funcionários desconfiaram dos ferimentos e chamaram a Polícia Militar.

No hospital, Deivit estava nervoso, chorava e tinha as roupas encharcadas de gasolina. Aos policiais, disse que havia passado a noite com Priscila em um bar, que o casal discutiu e ele a deixou sozinha. Segundo seu relato, foi a um posto, comprou gasolina e a despejou sobre o carro e sobre si mesmo com intenção de se suicidar, mas desistiu. De volta ao bar, teria encontrado Priscila desacordada no chão, com sangramento no nariz, e a levado ao pronto-socorro.

Selma disse à polícia ter ouvido um áudio em que Deivit ameaçava a filha, afirmando que iria "cortar a cabeça dela" caso fosse denunciado. Ele está preso. A reportagem não conseguiu contato com a defesa dele.

Fernanda Silveira de Andrade, 29

A arquiteta estava sem dar notícias à família desde o início de outubro, quando havia voltado de uma viagem ao litoral paulista. O desaparecimento foi registrado em boletim de ocorrência.

No dia 24 de janeiro, policiais militares que trabalham em Parelheiros, zona sul da capital, receberam a informação de que um homem procurado pela Justiça estaria naquela região. Ele foi abordado e identificado como o vendedor Euhanan dos Santos Barbosa, 25. Durante conversa com os PMs, ele confessou ter matado a arquiteta, com quem teve um relacionamento.

Levou os policiais até a casa dele, onde foi encontrada uma arma. Depois, seguiu por cerca de 1 hora por uma trilha, onde apontou onde havia enterrado Fernanda. Aos policiais, ele relatou que, em março de 2023, havia dado oito facadas na mulher. Um boletim de tentativa de homicídio foi feito à época.

O casal reatou e passou a morar junto. Barbosa afirmou ter descoberto traições, que teriam sido confirmadas pela arquiteta. Segundo ele, em 7 de outubro de 2025, levou Fernanda ao terreno e lá disse que a mataria. Conforme Barbosa, ele pegou um revólver e atirou duas vezes contra ela. Barbosa está preso e é atendido pela Defensoria Pública, que não se pronunciou.

A família de Fernanda foi procurada, mas não quis conversar com a reportagem.

OUTRAS VÍTIMAS

Doracy dos Santos Barbosa, 56

Morta a golpes de faca no apartamento em que morava no Jaraguá, zona norte de São Paulo. Seu corpo foi encontrado na noite de 18 de fevereiro. O caso em um primeiro momento foi registrado como homicídio. Policiais civis disseram para a reportagem que um suspeito pelo crime foi preso no último dia 1º.

Maria das Dores Germano da Silva, idade não informada

Jorge Luis Franco, 58, atirou contra a sogra, Maria das Dores, e contra a esposa, Maria da Glória Franco, 61, na noite de 19 de janeiro. O homem permaneceu com as vítimas baleadas no interior de uma residência em Cidade Dutra, zona sul. Negociadores do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) foram ao local e, sem conseguir a rendição, balearam Jorge. Maria das Dores morreu no hospital no dia 21. A arma usada no crime era do filho de Jorge e Maria da Glória, que tem o registro de CAC (caçador, atirador e colecionador).

Nicole Mercer Merheje, 34

Nicole foi encontrada morta na cama ao lado da filha pequena. Ela tinha lesões pelo corpo compatíveis com agressões, e o quarto estava revirado. Segundo as investigações, Nicole mantinha um relacionamento conturbado com o motoboy André de Lima Torres Pereira, 34 anos, marcado por agressões, ameaças e invasões domiciliares. Ela tinha medida protetiva contra ele, que era descumprida.

Nicole e a filha moravam em um cômodo anexo à casa do pai dela. Ele viu a filha pela última vez em 30 de janeiro, na companhia de André. Naquela noite, ouviu gritos e uma discussão, mas, por considerar a situação corriqueira, apenas ameaçou chamar a polícia. No dia seguinte, tentou contato com a filha, sem resposta -- ouvia apenas a voz da criança. Policiais militares foram ao local, arrombaram a porta e encontraram Nicole morta.

André se apresentou à polícia em 2 de fevereiro e confessou o crime. Ele se tornou réu por feminicídio. O caso corre em segredo de Justiça.