Organização relata roubo e tortura de indígena no Vale do Javari

Por CATARINA SCORTECCI

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - Um indígena da etnia Marubo foi roubado e torturado por um grupo de pescadores ilegais na última terça-feira (3) na terra indígena Vale do Javari, no Amazonas, de acordo com a Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari).

A vítima, identificada como Mateus Aurélio Paiva, ficou em uma canoa à deriva no meio de um rio por mais de um dia, com boca, mãos e pés amarrados. Ele teve sua espingarda e seu celular roubados.

A Univaja conta que Paiva viajava em comitiva retornando de Atalaia do Norte (AM), na região do alto rio Ituí, e resolveu entrar sozinho em um lago adjacente utilizando uma pequena canoa para pescar e conseguir alimento para o grupo. Por volta das 11h, ele foi cercado por pescadores ilegais não indígenas.

"Mediante grave ameaça e falsa acusação de que o indígena teria apreendido materiais da quadrilha, amarraram seus pés, mãos e boca", relatou a Univaja.

Amarrado, Paiva foi deixado na canoa à deriva no meio do rio. Ele só foi encontrado no dia seguinte, perto das 15h, por um grupo de buscas liderado pelo cacique Paulo Francisco Marubo. O cacique foi quem avisou a Univaja sobre a ocorrência.

A organização registrou o caso na Polícia Federal e pediu a abertura de inquérito para identificar os autores dos crimes. Também pediu providências à Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas).

A reportagem encaminhou perguntas à PF e à Funai no início da noite deste sábado (7) e aguarda respostas.

A região do alto rio Ituí abriga comunidades de recente contato, como os Matis, e também é uma área de ocupação e trânsito de povos indígenas em isolamento voluntário.

"A presença de organizações criminosas fortemente armadas, circulando livremente e praticando atos de tortura e tentativa de homicídio nesta exata localidade, representa uma ameaça de extermínio iminente aos grupos isolados", disse Eliesio da Silva Vargas Marubo, advogado e procurador jurídico da Univaja, em comunicado à Funai.

Segundo o advogado, há "inércia estatal", o que dificulta a proteção dos povos indígenas contra invasores no Vale do Javari.

"A invasão dessas áreas rompe o cordão sanitário e de segurança que deveria ser garantido pelo Estado, expondo populações de altíssima vulnerabilidade imunológica e sociocultural a contatos forçados, epidemias e massacres", continuou o advogado.

Em 2022, a região do Vale do Javari ganhou holofotes por causa dos assassinatos do indigenista Bruno Pereira, 41, e do jornalista britânico Dom Phillips, 57. Pereira era membro da Univaja e servidor em licença da Funai.