'Já embarquei em navios com 150 homens e 3 mulheres', conta brasileira finalista do maior prêmio da conservação ambiental

Por JÉSSICA MAES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Camila Domit não nasceu perto do mar. Na infância passada no interior do Paraná, o mais próximo que tinha do oceano, ela conta, era um lago -mas isso não impediu que desde cedo se encantasse pelos animais marinhos.

Agora, aos 46 anos, esse fascínio a colocou entre as finalistas do Whitley Award, conhecido mundialmente como "Oscar da conservação". Única brasileira entre os 12 indicados, a bióloga marinha foi escolhida por sua atuação na proteção de espécies ameaçadas junto a comunidades tradicionais do litoral paranaense.

Os finalistas concorrem a um prêmio de 50 mil libras (cerca de R$ 352 mil), a ser investido em um projeto de preservação ambiental. Os ganhadores serão divulgados em 29 de abril.

À reportagem, a cientista da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e da Associação MarBrasil falou sobre desigualdades de gênero enfrentadas no seu campo de pesquisa, em que atua há mais de 20 anos, e da importância do reconhecimento internacional.

"A questão de gênero está espalhada em toda a sociedade, isso não é novidade para ninguém. Mas na ciência oceânica e nas discussões de zonas costeiras existe um processo ainda maior de desigualdade", afirma.

"Nos cursos de oceanografia, entram 7 mulheres a cada 3 homens. Mas quando olhamos para os professores e pesquisadores no topo da carreira, a proporção se inverte", afirma, associando essa mudança à falta de oportunidades para mulheres, especialmente para trabalhos em alto-mar.

"Tem um preconceito gigantesco. Eu cheguei a embarcar, por exemplo, em navios que tinham 150 homens e 3 mulheres. Dá medo. Eu andava de macacão o dia inteiro, ficava de boné, de macacão...", relata.

Ela conta que esse tipo de trabalho ainda é visto como algo que mulher não faz, mesmo no meio acadêmico. "Ainda hoje você escuta coisas como: 'se eu colocar uma mulher no barco vou ter que separar um quarto inteiro para ela'", diz. "Nós precisamos criar ambientes em que pesquisadoras e estudantes se sintam seguras."

Nesse sentido, ela passou a integrar a Liga das Mulheres pelo Oceano, rede que reúne mais de 2.500 pessoas de diferentes áreas e busca fortalecer mulheres que atuam na conservação marinha.

"A liga criou uma discussão transdisciplinar, onde todas as experiências e conhecimentos são valorizados. E também foi uma forma de fortalecer nossa voz muito além das lutas individuais", diz Domit. "Hoje a liga está presente em espaços onde mulheres isoladas provavelmente não estariam."

A bióloga afirma ainda que o grupo também funciona com uma rede de apoio e um espaço de acolhimento. "Quando uma está cansada, a outra continua. Porque esse processo de estar sempre brigando por espaço cansa."

Conservação e saúde

Alguns desses espaços podem se abrir com maior facilidade agora, após a indicação ao Whitley. Domit, que sempre fala da conquista no plural, diz que esse é um feito de toda a equipe do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR, que ela coordena. Ao todo, são quase cem pessoas, na maioria mulheres.

"Eu não enxergo nenhuma forma de caminhar que não seja dentro de um coletivo. Eu me vejo parte de um baita time. Não existe outra forma de trabalhar", diz.

É também pensando no coletivo que sua atuação como pesquisadora passou de um foco inicial em ecologia de golfinhos para uma abordagem mais ampla, que inclui impactos ambientais, ameaças aos ecossistemas e relações com comunidades tradicionais, especialmente caiçaras.

Há cerca de cinco anos, a partir de pesquisas sobre contaminantes químicos na cadeia alimentar marinha, ela decidiu olhar também para os impactos para as populações litorâneas.

"Os golfinhos são predadores de topo de cadeia e comem os mesmos peixes que a gente. Ver esses animais tendo a saúde alterada por conta desses contaminantes, trouxe a preocupação de olhar também para a saúde humana", explica.

A fauna poderia, então, servir como uma espécie de sentinela para o que está acontecendo no oceano -ideia que converge com a abordagem de Saúde Única, promovida por organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas.

Esse conceito trata as saúdes humana, animal e ambiental como interdependentes. "Além disso, é uma ótima abordagem de comunicação, porque ajuda a explicar que quando falamos de conservação, não é porque somos ambientalistas chatos. É porque a gente está falando também da sobrevivência da vida humana", diz Domit.

Ao Whitley, a bióloga paranaense submeteu um projeto chamado "Dos golfinhos às pessoas: tecendo um futuro de Saúde Única Azul", que busca criar uma conexão simbólica entre fêmeas e filhotes de golfinhos e mulheres e crianças de comunidades caiçaras na Ilha das Peças (PR).

"Quando temos perdas na reprodução e no bem-estar das fêmeas e filhotes de golfinho, temos perdas para mulheres e crianças caiçaras", diz a pesquisadora, afirmando que o projeto pretende estimular a empatia e fortalecer iniciativas de turismo comunitário sustentável.

A região, considerada de importância internacional para a conservação da fauna marinha, abriga uma biodiversidade excepcional, incluindo o maior berçário conhecido de boto-cinza, além de raias-manta, tubarões, tartarugas e diversas espécies de peixes.

Apesar disso, enfrenta múltiplas pressões: turismo desordenado, especulação imobiliária, aumento de embarcações, dragagem portuária, pesca e falta de saneamento.